ENTREVISTA

Entre o brilho do Oscar e os desafios estruturais: o paradoxal momento do cinema brasileiro

Cineasta e pesquisadora Tatiana Carvalho comenta a luta entre o reconhecimento internacional e a regulação do Streaming

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Para conversar sobre tudo isso, convidamos a professora universitária de cinema Tatiana Carvalho Costa.
Para conversar sobre tudo isso, convidamos a professora universitária de cinema Tatiana Carvalho Costa. | Crédito: Willian Dias/ALMG

No Visões Populares desta semana conversamos sobre as conquistas e os desafios do cinema brasileiro em 2025. Em nível internacional, a corrida pelo Oscar segue movimentando o debate sobre filmes produzidos em território nacional, especialmente com o longa O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, agora pré-selecionado para a premiação em 2026. 

No início do ano, Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, trouxe a primeira estatueta para o país. Mas a conversa não para por aí, já que ainda há muito a ser conquistado para a real valorização da indústria cinematográfica brasileira. 

No legislativo, por exemplo, propostas controversas de regulamentação dos serviços de streaming alimentam a discussão, que passa também pela valorização dos profissionais do audiovisual em todo o Brasil. 

Para conversar sobre tudo isso, convidamos a professora universitária de cinema Tatiana Carvalho Costa. Ela é integrante do Fórum Itinerante de Cinema Negro, presidenta da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (Apan) e doutora em comunicação social, com enfase em cinema, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato MG  – Para começar, acho que podemos falar um pouco dessa notícia que tivemos ontem: O Agente Secreto, junto aos documentários Apocalipse nos Trópicos e Amanhã, e o curta-metragem Amarela, foram selecionados na pré-lista do Oscar. O cinema brasileiro, em 2024 e 2025, tem ocupado o debate público de maneira mais presente, sobretudo com a vitória de Ainda Estou Aqui no Oscar este ano. Queria te perguntar: estamos diante de um avanço ou ainda falta mover muitas estruturas? Esse reconhecimento internacional aponta para um avanço estrutural?

Tatiana Carvalho –  Essas possíveis indicações para o Oscar e a presença dessa quantidade não só de filmes brasileiros, mas de profissionais do cinema que estão nessa shortlist da Academia, é um avanço que temos que celebrar. Isso se dá por diversos fatores: inegavelmente pela qualidade do nosso cinema, pelo esforço individual dessas pessoas e também por um pouco de política pública.

Essas possíveis indicações para o Oscar são um avanço que temos que celebrar

Ainda precisamos que a política para o cinema brasileiro se transforme em uma política de Estado, porque hoje temos variações a depender de quem está no governo. Passamos recentemente por quatro anos de uma política de governo contrária ao cinema brasileiro.

A retomada atual sinalizou a reconstrução de políticas anteriores que fizeram com que o setor se tornasse tão vigoroso. Isso não se vê apenas no Oscar, mas sobretudo em um ecossistema que se desenvolveu de forma muito importante nos últimos 15 ou 20 anos, apesar da interrupção no governo Bolsonaro e, anteriormente, no final do governo Dilma com o impeachment e o governo Temer.

Mas temos uma aparente contradição que persiste: de qual cinema brasileiro estamos falando quando temos essa repercussão internacional e interna que desperta um orgulho nacional? Ainda é um cinema feito por elites. Quem trabalha com audiovisual conhece a expressão “cinema de herdeiro”. Isso ocorre porque ainda não é uma profissão na qual você pode se planejar e ter um percurso estável. O Brasil ainda depende muito de políticas públicas.

O audiovisual brasileiro é um lugar complexo porque existe um “devir indústria”, pensa-se como indústria, mas, ao mesmo tempo, está dentro da lógica do direito à cultura, que não segue necessariamente práticas mercadológicas. São formas de expressão e incidência no imaginário coletivo que possuem dimensões éticas, de cidadania e política pública. 

O setor tem assento no programa “Nova Indústria Brasil”, mas também está nos pontos de cultura e nas práticas de comunidades tradicionais. Não se pode olhar para o audiovisual apenas em sua faceta de mercado, embora ela movimente muito. Ainda estamos muito aquém no sentido estruturante enquanto política de Estado.

Para que qualquer indústria seja estruturada, é preciso investimento público

Enfrentamos um problema na chave do paradoxo. De um lado, celebrações efusivas; do outro, uma dinâmica no Legislativo por meio da construção de uma lei que é frontalmente contra essa dinâmica de orgulho nacional. Estamos em um processo longo de tentativa de regulação das plataformas de streaming, que são uma das principais janelas de acesso ao conteúdo hoje. Existem projetos de lei muito perigosos que desestruturam políticas bem-sucedidas do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), que é o principal mecanismo que irriga financeiramente a regulação, a fiscalização e o fomento do setor. 

Para que qualquer indústria seja estruturada, é preciso investimento público, vide a indústria automobilística e o agronegócio. Esses projetos que tentam regular o streaming esvaziam o sentido da necessidade de o Estado investir em uma indústria nacional.

Você está falando do projeto da Condecine no streaming? Pode explicar do que se trata e qual é o perigo desse projeto?

Tatiana Carvalho –  As plataformas de streaming são um avanço tecnológico, mas também instrumentos de hiperpresença de um modo de narrar e de lucrar que concentra tudo na mão de pouquíssimos agentes econômicos estrangeiros, como Netflix, Disney e HBO. Elas têm um poder muito grande de incidir sobre o nosso imaginário. Os Estados Unidos dominaram o mundo não só pela força das armas, mas também por Hollywood. Tem várias gerações que abraçam valores da cultura estadunidense porque cresceram com isso. 

As plataformas de streaming são um avanço tecnológico, mas também concentram tudo na mão de pouquíssimos 

É fundamental haver regulação para garantir a soberania nacional do ponto de vista da cultura.

Os projetos que tramitam hoje, como o 8889/2017 na Câmara e o 2331/2022 no Senado, passaram por várias alterações. A sociedade civil participou da discussão, mas a correlação de forças é cruel. As plataformas têm muito dinheiro para pressionar o parlamento. Muitos parlamentares que se dizem patriotas “entregam a rapadura” facilmente. O projeto que está no Senado é terrível e entreguista; tem uma lógica extrativista na qual viraremos prestadores de serviço e fornecedores de mão de obra, em vez de sermos donos do nosso principal ativo: o direito patrimonial sobre o que criamos.

Um dos pontos discutidos é a Condecine VOD. O que está previsto é uma taxa mínima de 3%, o que é uma migalha. E, dentro dessa taxa, há uma isenção de 60% para as plataformas aplicarem o dinheiro como quiserem. Ou seja, é dar dinheiro público para plataformas estrangeiras investirem na própria infraestrutura. Isso é um desastre. 

Desde a retomada nos anos 1990, a produção independente brasileira cresceu 700%, com desenvolvimento fora do eixo Rio-São Paulo. Os projetos atuais atacam esse edifício de morte. O YouTube, por exemplo, quer pagar apenas 0,8%. É uma big tech com imenso poder ideológico. É tristíssimo ver essa contradição: celebramos o cinema que pode nos trazer um Oscar e, ao mesmo tempo, lidamos com um projeto de lei ridiculamente contra a soberania nacional.

Sem contar que o streaming está cada vez mais parecido com a televisão; você paga uma taxa e ainda precisa conviver com anúncios, retirando dinheiro da política pública brasileira enquanto exibe propagandas intermináveis.

Tatiana Carvalho Exato. Do jeito que a lei está desenhada, é praticamente evasão de divisas. O dinheiro brasileiro vai para uma plataforma que não deixa o lucro aqui. Um “Original Netflix” não é conteúdo independente brasileiro com direito patrimonial no Brasil. São histórias, roteiristas e atores brasileiros, mas o lucro, quando circula mundialmente, não fica no país. É uma dupla perda.

Mas, apesar desse desafio, temos um cinema independente forte. Aqui perto de nós, temos a Filmes de Plástico, por exemplo, que produz filmes autorais sobre culturas regionais específicas. Queria que você contasse o que tem sido produzido “por fora” do cinema comercial, valorizando nossa cultura e reivindicando soberania.

Tatiana Carvalho – Obrigada por trazer isso. Lamentamos a política estrutural justamente por causa dessa riqueza da produção independente. Muita gente assiste a Marte Um ou O Último Episódio e pergunta por que esses filmes ficam tão pouco tempo no cinema ou não chegam às suas cidades. Para que o cinema com o nosso sotaque chegue ao público, é necessária uma política pública estruturante.

O Brasil produz cerca de 200 longas-metragens por ano, e com a Lei Paulo Gustavo esse número pode dobrar. Precisamos estimular as pessoas a buscarem esses filmes, que também estão disponíveis em plataformas de streaming independentes. Na APAN, temos o bordão “cinema negro é cinema brasileiro”. O cinema que chega às grandes plataformas geralmente é protagonizado por pessoas brancas; ainda há uma disparidade grande em relação ao cinema negro e indígena.

Gosto de citar o filme goiano A Piscina de Caíque. É a história de um menino negro na periferia que gosta de brincar escorregando no cimento queimado com sabão. O filme aborda a falta de água e dilemas econômicos de forma poética. Exemplos como esse e Marte Um tocam profundamente o sentimento de pertencimento.

Outra forma de buscar esses filmes são as salas de cinema independente. Em Belo Horizonte, temos o Cine Graciano, o Cine Santa Teresa, o Cine Humberto Mauro e o Cine Cardume. São locais que oferecem, inclusive, sessões gratuitas. Queria que você comentasse sobre isso e falasse também do seu documentário.

Tatiana Carvalho – Belo Horizonte e Minas Gerais possuem diversas salas de rua fundamentais. Nos shoppings, o ingresso é caro e a programação é dominada por blockbusters dos EUA. No governo anterior, 98% das salas foram ocupadas por filmes estrangeiros. Não que sejam ruins, mas a questão é: só podemos ver isso? As salas de rua são um respiro; elas acolhem mostras e festivais que apresentam uma riqueza incrível de narrativas. Também cito os centros culturais nos bairros, que levam o cinema para perto de onde as pessoas moram.

As salas de rua são um respiro

Sobre o Cine Graciano, na Lagoinha, fiquei muito emocionada com a sessão lá. Meu filme é um média-metragem feito para a Rede Minas, chamado Meia-África Imaginária. Ele parte da busca de pessoas afrodescendentes por sua herança africana. Fui ao Benin em busca de uma herança baseada na invenção e fabulação de pertencimento, já que o processo de escravização apagou nossos rastros documentais. O filme acompanha um grupo de mulheres negras, minhas amigas e irmãs, desde o Benin até um almoço em volta do fogão a lenha. 

A Rainha Belinha estava presente na sessão, e foi um diálogo muito bonito. Agora estou trabalhando para transformar esse projeto em um longa-metragem, inserindo mais elementos baseados no pensamento de Leda Maria Martins sobre “afrografias”.

Para finalizar, queria que você indicasse suas produções audiovisuais favoritas de 2025 para o nosso público.

Tatiana Carvalho – É uma saia justa porque assisti a muita coisa incrível. Vou indicar três produções. Cais (Safira Moreira): Um documentário belíssimo de uma diretora baiana que entrelaça o luto pela mãe e o nascimento do filho no Rio Paraguaçu. É muito poético e conta com Mateus Aleluia. Deve entrar em cartaz comercialmente no ano que vem.

Casa Branca (Luciano Vidigal): Disponível em streaming, é um misto de drama e comédia sobre um adolescente negro na periferia do Rio que lida com o Alzheimer da avó (interpretada pela incrível Teca Pereira). É um filme premiado e necessário.

O Natal do Silva (Filmes de Plástico/Canal Brasil): Uma minissérie de Natal dirigida por Gabriel Martins. Tem a Regiane Faria no elenco e uma revelação talentosíssima, a atriz trans Aicha Bruno. Recomendo demais.

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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