Especialmente pelo dia de Natal, o Visões Populares faz uma entrevista com o Padre Vitório, sobre o sentido da data, sua mensagem, a apropriação pelo consumismo e o resgate dos valores de Jesus.
“O menino Jesus pertence a uma classe inteiramente marginalizada e desprezada. Então, o nascimento de Jesus significa que é do meio dos pobres, das periferias, que pode vir coisa que presta. É de lá que vêm as pessoas com quem Deus conta”, explica o sacerdote.
Padre Vitório iniciou sua vida religiosa em 1969, na Companhia de Jesus, ordem religiosa a qual pertence até hoje. Desde 1987, faz parte do corpo de professores do Departamento de Teologia, da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Além disso, ele desenvolve atividades pastorais e sociais em Justinópolis, distrito de Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH).
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato MG – Qual é o sentido do Natal? Além de ser uma data marcante no calendário cristão, que mensagem essa época traz pra nós?
Padre Vitório – Tem um sentido original e o sentido atual, que não são o mesmo, há uma desconexão entre aquilo que foi o começo e aquilo que é hoje. A mensagem do Natal é uma mensagem inteiramente revolucionária.
Na visão do nascimento de Jesus, daquilo que significa a missão dele, o sentido do Natal é o seguinte: Deus conta com os pobres, com os fracos, para salvar a humanidade. Ou seja, não conta com os fortes, os grandes, os poderosos, os Trump, os Putins ou os Orban. Ele conta com os pequenos.
Mas acontece hoje, como aconteceu no passado, que os grandes tentam sempre abafar isso e achar que a salvação vem por eles. Tem um texto no Evangelho de São Lucas, capítulo 2, versículo 21, que diz assim: “Os anjos dizem para os pastores: nasceu para vocês um salvador”. Vamos ler isso na liturgia de hoje à noite e a gente vai cantar, romantizado, mas isso, no contexto original, é algo totalmente revolucionário, ou totalmente comunista.
Quando diz-se que nasceu o Salvador, falamos que o Salvador não é o imperador romano, o Salvador não é o César, é aquele menino. Um menino que vem lá da Galileia, pior ainda, ele era um Nazareno. Nazaré, onde Jesus nasceu, é uma cidade que não é referida nunca na Bíblia antes dele. E olha que a Bíblia fala de milhares de cidades, mas a de Jesus não.
Porque Nazaré era uma espécie de fim de linha. Ou seja, ninguém passava por lá para passear, assim como ninguém vai passear em Justinópolis e nem Ribeirão das Neves. Embora lá hoje esteja muito melhor do que quando eu cheguei lá, por conta dos pobres.
Esse menino, então, pertence a uma classe inteiramente marginalizada, desprezada. Tem um texto no capítulo primeiro do Evangelho de São João, em que Natanael, que depois vai ser discípulo de Jesus, diz: “Será que de Nazaré pode vir coisa que presta?”. Então, o nascimento de Jesus significa que, do meio dos pobres, das periferias, daqueles que não contam, pode vir sim coisa que presta.
E muito mais, é de lá que vêm as pessoas com quem Deus conta, o que entrou muito na consciência da Igreja Católica e de outras igrejas também, quando se falava de opção preferencial pelos pobres. Depois, houve um combate ferrenho contra a opção preferencial pelos pobres. Criaram um monte de confusão em torno disso.
Assim, o Natal, vamos dizer, na sua mensagem original, é algo absolutamente revolucionário e que a humanidade não aceita. Os cristãos não aceitam isso. A maioria dos cristãos pegam o menino Jesus e transformam ele em um riquinho.
Enquanto os cristãos foram perseguidos e o movimento de Jesus não foi reconhecido pelo Império Romano, os cristãos investiam nesse verdadeiro sentido, porque era uma religião que não era reconhecida pelo Império e que sobrevivia na perseguição. Os cristãos eram em geral da periferia. Quem se tornava cristão optava por um caminho que lhe traria muita perseguição. Então eles sempre foram muito solidários com os pobres.
Jesus não fundou nenhuma igreja. Jesus não fundou nenhuma instituição. Jesus começou um movimento de reconstrução da humanidade e a grande novidade é que ele vem de onde ninguém esperava. Quer dizer, a novidade de Jesus é sempre essa: ele vem de onde ninguém investiria. E apesar de ele ser de Nazaré e da Galileia, regiões totalmente marginalizadas, ele começa esse movimento de reconstrução da humanidade.
Os primeiros cristãos, enquanto não eram reconhecidos pelo império, tentavam viver esse projeto de vida e eram extremamente solidários com os pobres. Eram pobres solidários com os pobres. Eram pobres repartindo com os pobres. Mas aí então, quando Constantino, no século 4, se converte ao cristianismo, ele transforma o movimento de Jesus em religião reconhecida pelo império.
E mais a frente, quando Teodósio obriga todos os romanos a serem batizados, o movimento de Jesus dá uma guinada e aquele pobrezinho, aquele menino lá que não valia nada e que investia nos pobres, eles o tornam imperador.
E aquele menino que nasceu e foi colocado num cocho de animais, se tornou um rezinho, com paninhos dourados e bordado com fios de ouro. Aconteceu que os ricos, os poderosos, se apoderaram de Jesus. Eu estou falando no século 4, nós estamos no século 21. Isso não mudou até hoje. Porque, inclusive, continuamos a celebrar Jesus nessa noite como cristãos mas dizendo que os pobres não valem nada e quem vale são os ricos, e são eles que são os poderosos, são eles que vão ser os nossos salvadores.
Com o capitalismo, o Natal passou a ser apropriado pelo consumismo. Por que existe essa apropriação e que consequências ela traz?
Quando eu penso nesse Natal contaminado pelo capitalismo neoliberal, eu penso em uma espécie de frustração de Jesus. Porque é como se você fizesse a festa, mas deixasse o comemorado de fora. Quer dizer, eu vou celebrar Jesus, mas pobre não passa nem na minha porta. Pobre não entra nem no meu horizonte. A construção de uma humanidade diferente também não entra no nosso projeto. É puramente celebrativo, estético, e até erótico, de certo modo.
Ou seja, o Natal não dá frutos no coração das pessoas e tem algo puramente exterior, mas isso é a morte do projeto de Jesus. E as pessoas não se dão conta de que estão traindo Jesus, estão sendo falsos com Jesus. Isso também tem a ver com um fato do século 4. Eu volto sempre ao século IV porque acho que ali foi quando começou o desmonte do projeto de Jesus.
Os do movimento de Jesus primavam pela qualidade de vida, pelo testemunho de vida, eles não abriam mão de ajudar os pobres. Por exemplo, tem uma história que conta sobre São Lourenço, que era um diácono que ajudava os pobres de Roma. O imperador queria saber de onde que ele tirava o dinheiro para ajudar os pobres e queria se apoderar da riqueza dele e disse: “Onde estão os seus tesouros?”. Ele disse: “Não, o meu tesouro são os pobres”.
Então, os cristãos, bem ou mal, cuidavam de ter uma qualidade de vida cristã, de fraternidade e de solidariedade. Fraternos entre si, solidários com os pobres. Mas, na medida em que o imperador Teodósio decretou que todos os romanos deveriam ser batizados, as comunidades cristãs que viviam escondidas, celebravam nas casas, celebravam nas catacumbas, começaram a ter suas igrejas, suas basílicas, e, de repente, elas cresceram de uma forma exacerbada.
E não tinham como acompanhar quem chegava. O que era uma comunidade de 50 pessoas, daí a pouco tem 500, tem mil, tem 2 mil. Você não tem como acolher. Eles começaram a batizar todo mundo sem critério, nem nada. Com isso, eles deixaram de lado uma prática importante do começo, que era a iniciação cristã.
A iniciação cristã não era propriamente uma apresentação a nenhuma espécie de mistério da fé, como para o pessoal das religiões mistéricas daquela época. Para os cristãos, a iniciação era a iniciação no estilo de vida cristã. Ou seja, nesse estilo de vida de humanidade nova, de novo mundo, de novo modo de ser, onde todo mundo é irmão, todo mundo se quer bem, não tem desigualdade.
Isso era o ideal, que nem sempre se atingia, mas é isso que eles queriam, ser um só coração e uma só alma. Então, a partir daí, eles começaram a batizar todo mundo sem preparação. E assim o cristianismo aumentou em quantidade e diminuiu em qualidade. E é isso que a gente está vendo hoje, no século 21.
Essas igrejas com multidões, porque o padre X reúne meio milhão de pessoas às 3 horas da madrugada para rezar. O pastor Y celebrou um culto de não sei quantas mil pessoas. Ou seja, da qualidade passaram para o número. E aí deu no que deu. Esse fruto que a gente colhe hoje no século 21 é um fruto daquilo que foi plantado lá.
A gente muda isso voltando às fontes da fé. Teve sempre na história do cristianismo um remanescente, como tem hoje, de pessoas que se mantêm fiéis ao projeto de Jesus. Se queremos encontrar Jesus, não vá a essas grandes igrejas, grandes celebrações, não vá aonde está a multidão; vá aonde tem pessoas cuidando dos pobres. Aí você vai encontrar Jesus. Aí você vai encontrar o fruto do Natal.
Nesse contexto de número e não de qualidade, o que aconteceu foi a investida em dogma, doutrina, moral, proibição. No começo, a única coisa que era proibida era não ter amor pelos pobres. E quem tem amor pelos pobres, quem faz o bem ao próximo, não vai ser corrupto, não vai ser mentiroso. Uma pessoa que tem amor no coração, nunca vai ser corrupto, mentiroso, violento ou injusto. Não tem possibilidade.
Os primeiros cristãos investiam na base. E hoje as igrejas querem começar a mexer lá no telhado. A base está caindo, dá uma pintadinha lá em cima e acha que está tudo bem. Porque isso aqui é pecado, não pode, vai para o inferno, o que, em termos do projeto de Jesus, não em termos das igrejas, é algo totalmente inútil.
Para as igrejas, pode até trazer muita gente, porque vivemos em uma sociedade como a nossa. Todo esse pessoal autoritário é ótimo. As pessoas adoram, porque elas vão como gado para o curral. Mas o projeto de Jesus não vai por aí. O projeto de Jesus vai no outro caminho, de te ensinar a ter amor pelos que não contam nesse mundo.
Como comemorar o Natal diante da ganância do atual modelo econômico?
Quando você pensa naquilo que foi a missão de Jesus e é a missão dos cristãos, de certo modo, a gente pode dizer que celebramos o Natal em contexto de falência do projeto de Jesus. A gente celebra o Natal dizendo: “Jesus, o que ele fez foi inútil, não serviu para nada”. E ele se transformou simplesmente em um herói desse povo que se diz cristão, mas o que ele fez não produziu frutos na história.
Porque, se você pega o cristianismo enquanto religião, bem ou mal, tem uma quantidade exacerbada de pessoas pelo mundo que se dizem cristãs. Agora, mas por que a nossa presença de cristãos no mundo não tem nenhum efeito em criar uma sociedade onde não haja crianças morrendo de fome?
Por causa de políticos loucos. Netanyahu é um louco, Trump é um louco, Putin é um louco e tem muitos outros loucos por aí. Por que a nossa presença não tem nenhum peso no sentido de criar uma mentalidade diferente? Ou seja, para quem tem consciência do que é o Natal, como eu tento ter, eu fico muito perplexo. Porque deveria estar todo mundo chorando e todo mundo dizendo: “Não, nós vamos lutar para ajudar as crianças da Faixa de Gaza. Isso é uma injustiça”.
Esse Netanyahu não está cumprindo nem a lei do próprio Deus dele, que é o Deus de Jesus. O que ele faz é totalmente contra aquilo que são os princípios da religião judaica. É um camarada sem misericórdia no coração. É um homem horrível, horripilante.
Assim como os cristãos aqui no Brasil, que diante daquela matança no Rio de Janeiro, disseram: “Matou pouco”. Claro que matou pouco, porque não estava ele lá, não estava a mãe dele ou outro parente dele. Ele nem sabe quem está lá. Eu quero saber se no dia que estiver pai, mãe, irmão, ou primo, parente ou amigo dele lá, assassinados seria a mesma coisa.
Isso sai da boca de cristãos. Quem são os corruptos, os que roubam o nosso país? São os ateus? Eu não conheço. Eu pergunto para o pessoal, me traga aqui um ateu que diz: “Eu sou ateu e por isso eu tenho direito de roubar, porque eu não tenho Deus”. Os agentes da corrupção do Brasil são todos religiosos, batizados, pertencem a igrejas, etc.
Quer dizer, quando olhamos a situação, sentimos uma espécie de frustração do projeto de Jesus. Se Jesus voltasse iria dizer: “Não foi isso que eu queria, não foi isso que eu esperava, de quem se diz meu seguidor”. O que temos por aí é uma falsa fé cristã.
Padre Júlio Lancelotti é um testemunho de pessoa que realmente entendeu o que Jesus quer, se colocou lá no meio dos últimos. Ora, quem é que persegue Padre Júlio Lancelotti? Quem é que o processa e o calunia? São os ateus? Não, são pessoas que se confessam terrivelmente cristãos. E Padre Júlio Lancelotti é por vezes desprezado pelos próprios colegas padres porque ele está tentando celebrar o Natal de um jeito e os outros estão do outro jeito.
Temos muitos cristãos no Congresso Nacional que votam alinhados às pautas da extrema direita. Essa postura é compatível com o cristianismo e com o espírito de Natal?
Eu fico pasmo quando vejo esses indivíduos, que se dizem terrivelmente cristãos, fazendo essas coisas que chocam a consciência. Fazer marcha para Jesus e depois chegar lá com um monte de discurso de raiva, de ódio, de desejo de vingança, de morte. Será que Jesus está ali mesmo?
Agora, se realmente eles acreditam em Jesus, eles têm que pôr na cabeça que um dia vão se encontrar com Jesus. Eles vão ter que prestar contas daquilo que eles fizeram com o nome de Jesus. Porque hoje, aqui no Brasil, tem toda uma coisa que se chama teologia do domínio, que é levada à frente por alguns pastores de igrejas evangélicas, mas certamente deve ter católicos metidos também, e eles querem tomar o poder no Brasil, para implantarem a teocracia deles.
A loucura deles é impor na cabeça das pessoas a ideologia deles. Achando que fazendo assim o Brasil vai ser mais cristão. Não, não e não. No dia que fizerem isso o Brasil vai estar mais afastado ainda do projeto de Jesus. Para mim, eles são não só traidores do Brasil e do povo brasileiro, mas são traidores de Jesus. Eles não têm nada a ver com Jesus.
E o Natal deveria nos recordar, mais uma vez, que Deus está do lado dos pobres, que Deus quer uma sociedade diferente e que os pobres têm que ter vez nessa sociedade. Então, o que acontece é que, com essa situação que estamos vivendo, desse cristianismo fake, o Natal vai passando batido, a gente continua a celebrar o Natal, mas sem tomar consciência daquilo que é realmente o sentido do Natal.
