Diante do recente ataque dos Estados Unidos à Venezuela e do sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa Cília Flores, o Visões Populares entrevista Carlos Alberto Almeida, jornalista que participou da fundação e é diretor da Telesur, uma rede de televisão multi-estatal para a América Latina, com sede na Venezuela.
“Com o surgimento dos Brics, o fortalecimento da Rússia e da China e a revolução iraniana, esse ‘petrodólar’, que era um privilégio dos EUA e dava lastro ao dólar, começa a ruir. A circulação do dólar se reduziu enormemente e Trump, com essa operação imperialista, quer recuperar o lastro do ‘petrodólar’. Não há limites para o imperialismo, porque ele não tem uma solução para a sua própria crise interna”, afirma.
Em nossa conversa, Almeida, que é também conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), analisa os acontecimentos dos últimos dias, contextualiza o histórico do conflito e a importância geopolítica da Venezuela. Além disso, abordamos as possíveis repercussões da invasão estadunidense para os países da América Latina e a postura brasileira desde o ataque.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato – Qual é o histórico do conflito entre os Estados Unidos e a Venezuela e como ele culminou na invasão?
Carlos Alberto Almeida – O imperialismo sempre vai recorrer à violência e à guerra. Não existe hipótese de um imperialismo que tenha respeito pela legislação internacional dos países. Então, não é uma surpresa. Inclusive, a Venezuela se preparava. O presidente Hugo Chávez sempre formou as novas gerações das Forças Armadas bolivarianas em um espírito de que o imperialismo poderia atacar a qualquer momento. E se atacasse, era preciso estar preparado para isso.
São coisas que não ocorreram nesse momento porque foi uma situação bastante específica, aproveitando-se de uma superioridade bélica, do efeito surpresa, provavelmente de algum golpe cibernético e de eletricidade também. Tudo isso junto pode ter acontecido.
Obviamente, não se exclui uma falha na defesa, ou seja, ter havido, nos esquemas de defesa, algum tipo de infiltração da CIA. Vamos lembrar que nos últimos três meses três generais russos de altíssima função foram assassinados em Moscou. Quer dizer, não existe essa tese da infalibilidade. É só lembrar da explosão dos pagers na resistência libanesa.
Então, existe muito trabalho de informação e contrainformação. O imperialismo existe, atua e é preciso se preparar, é preciso ter uma consciência muito clara do que deve ser feito.
Esse histórico se soma ao fato de a Venezuela ter a maior reserva de petróleo do mundo. É inaceitável para os Estados Unidos que esse petróleo não seja, como sempre havia sido antes de Chávez, regalado a eles. Chávez chegou e acabou com a farra, acabou com a colônia petroleira que a Venezuela era, exigindo respeito pela soberania da Venezuela e nacionalizando o petróleo.
Trump quer anular a nacionalização do petróleo, retomar o petróleo que ele diz ser dos Estados Unidos. Ou seja, quer ignorar a luta do povo venezuelano, como a luta de outros países, que também nacionalizaram o petróleo. É o caso do Brasil, na era Vargas, do Perón, na Argentina, do Alvarado e do Cárdenas no México. Este último também é um dos países agora ameaçados pelos Estados Unidos, por ter muito petróleo.
A razão disso é que os Estados Unidos estão em uma crise econômica muito grande, que tem levado a uma desindustrialização, perda de dinamismo interno e perda de presença dos Estados Unidos na economia internacional. Isso, para o imperialismo, é a morte, sobretudo porque esse recuo está relacionado com o enfraquecimento do dólar.
Há 51 anos, os Estados Unidos firmaram um contrato com a Arábia Saudita, que impôs ao mundo que somente se poderia comercializar petróleo em dólar: o monopólio do dólar ou petrodólar. Quando surgem os Brics, com o fortalecimento da Rússia e da China e com a Revolução Iraniana, esse petrodólar, um privilégio que dava lastro ao dólar, começa a ruir. Essa erosão é um perigo econômico para os EUA, porque eles perdem competitividade no mercado internacional.
A circulação do dólar reduziu enormemente e Trump, com essa operação imperialista sobre o petróleo venezuelano está dizendo que quer recuperar o lastro do petrodólar. E não é apenas o petróleo da Venezuela, pode ser do México, pode ser da Nigéria ou ainda do Irã, que ele já bombardeou no ano passado, sem declarar guerra.
Não há limites para o imperialismo, porque ele não tem uma solução para a sua própria crise interna. Uma crise que pode levar ao estouro de uma bolha e consequentemente a uma crise generalizada na economia norte-americana. Por isso, ele desesperadamente sai em busca do petróleo. Praticamente 80% do petróleo venezuelano é negociado com a China em yuan, não entra dólar. Isso para os Estados Unidos é terrível.
A Arábia Saudita aceitou negociar petróleo também em yuan e com outras moedas, fez até um acordo com o Irã. Ela também vende para a China e a China só paga em yuan. Antes tudo isso era feito em dólar. Agora o dólar perdeu uma pujança, perdeu a envergadura. Os Brics surgem questionando a hegemonia do dólar. O presidente Lula fala muito nisso, na desdolarização.
Lula também corre risco ao falar essas coisas, tem que se preparar para isso. Não é que não deva falar, mas tem que levar uma política que permita proteger a soberania brasileira, já que, na realidade, se analisarmos bem, 75% do petróleo do pré-sal já não pertence mais ao Brasil. A Venezuela está pagando o preço por manter e defender a nacionalização do petróleo.
Quem é e o que significa Nicolás Maduro para a Venezuela? Quais são as acusações contra ele sustentadas pelos EUA?
Maduro é um militante honrado da esquerda venezuelana. Desde jovem, ele participou de todas as lutas de bairro. E é da nova geração, que foi inspirada pelo ato de rebeldia de Hugo Chávez, a partir de 1992, a tomar parte da equipe mais próxima de Chávez na Revolução Bolivariana. Ele tem todas as qualidades que essa equipe herdou. Claro, não é um homem infalível, mas é um dedicado revolucionário bolivariano.
As acusações são grosseiras, pífias e falsas. Aliás, os Estados Unidos recuaram da acusação de que ele tinha vinculações com o narcotráfico. É só um pretexto para atacar países que não se submetem aos seus ditames. E o fato de sequestrá-lo, de levá-lo, inclusive com vida, para os Estados Unidos, botá-lo em uma delegacia de bairro como traficante, é para humilhar os revolucionários do mundo inteiro.
É muito importante que os revolucionários, a esquerda e as forças progressistas, não caiam nessa balela. Ela é pensada para desanimar, confundir, criar dúvidas e cisões no campo progressista internacional. O que temos que fazer é organizar as forças para defender a Venezuela, a liberdade de Maduro e de Cilia Flores, até porque, com esse recuo da acusação contra Maduro, o que ele vai fazer lá? Por que está preso?
Ele é um presidente e honradamente disse: “eu sou um prisioneiro de guerra”. Agora, é importante analisar o papel da Revolução Bolivariana. Ela também estimula a criação de uma internacional antifascista. Ela usou o petróleo, de forma muito elevada, para tirar da cegueira 3 milhões e meio de cidadãos latino-americanos. Já que foi com o petróleo venezuelano que foi financiada a Operação Milagro, pela qual os médicos cubanos retiravam esse contingente de latino-americanos da cegueira.
Estimulou-se também a erradicação do analfabetismo na Bolívia, no Equador e na própria Venezuela. Isso tudo foi pago com petróleo: construíram 5 milhões de moradias, em uma população de 30 milhões de habitantes, com receita do petróleo. Você não vê crianças no centro de Caracas perambulando, as crianças estão na escola.
Houve uma elevação muito grande dos padrões sanitários da Venezuela; em 2013, a Venezuela pagava o maior salário mínimo da América Latina, segundo a CEPAL. E agora a CEPAL disse que o maior PIB da América Latina é o da Venezuela, com 8,5% de crescimento, apesar de ser um país com 1047 sanções, proíbido de vender o petróleo, cercado, impedido, proibido de importar vacinas, de importar insulina. Isso é para matar um povo.
Mesmo assim, a Venezuela vem resistindo durante todo esse período, porque o petróleo é a ferramenta fundamental e foi com ele que a Venezuela alcançou uma marca histórica: a autossuficiência na produção de alimentos. Tudo que a Venezuela hoje consome é produzido internamente. Antes do Chávez, a Venezuela importava até alface, que vinha de avião de Miami. Hoje a Venezuela é um país completamente diferente e que ajudou muitos países do mundo para que se desenvolvessem.
Quais são as consequências a se esperar, em curto e médio prazo, diante do ataque?
Essa é uma questão que nós não podemos minimizar o perigo. Lamentavelmente, o imperialismo existe e está aí a prova. O discurso do Trump é puro colonialismo, é o imperador. Ele não tem limites, não reconhece fronteiras, não reconhece países. Tem um desprezo profundo pela humanidade, pelos outros povos.
Mas o mundo caminha, o mundo mudou, os Brics surgiram. Era muito importante que a Venezuela já estivesse dentro dos Brics como membro, porque assim, essa receita petroleira que a Venezuela tem, estaria em contato com o Sul Global. Com a maioria global dentro dos Brics, para projetos de desenvolvimento que o Banco dos Brics vem fazendo, em países da Ásia, da África e até na América Latina também, como o Porto de Chancay no Peru. É muito importante fortalecer os Brics.
Creio que o presidente Lula deveria meditar quando ele diz apoiar e fortalecer a maioria global, o Sul Global. Fundamental para isso era aceitar a Venezuela, inclusive isso deve ser feito, e promovê-la dentro dos Brics. O que o presidente Putin, o presidente Xi Jinping defendem e o Irã também.
Mas nós não podemos ignorar que, diante dessa ofensiva e do encurtamento da circulação do dólar, os Estados Unidos reagem. É uma luta de classe em escala global. Mesmo que você possa dizer: “não, mas a Rússia não tem uma bandeira socialista”. Sim, mas ela tem uma ação. Qual é o país que mais apoia hoje a Revolução Cubana? É a Rússia. Com barris de petróleo, inclusive, recuperando as suas ferrovias; apoiando a Nicarágua, que está sob sanções dos Estados Unidos também.
A Rússia e a China estão apoiando a libertação dos países do Sahel na África, um com apoio econômico, outro com apoio militar, porque o mundo não é para meigo. Você tem que ter apoio militar, preparação, capacidade de defesa também. A Venezuela, agora, vai ter que meditar muito sobre o que aconteceu, detectando se houve falhas, o que é que deve ser feito para corrigir e para criar um processo político mundialmente de apoio à Venezuela. Mas internamente também, para as milícias populares, porque em algum momento os Estados Unidos vão ter que desembarcar tropas.
Você não rapina petróleo de longe, você tem que desembarcar e não pode ser uma empresa ou outra, tem que ser com tropas militares e aí haverá, inevitavelmente, o grande risco de perda de vidas. E, para isso, foram construídas as milícias bolivarianas. Tem 4 milhões de venezuelanos que estão treinados e armados com fuzis Kalashnikov, o que já demonstra que é um apoio da Rússia.
As baterias antiaéreas que não foram operadas, muita gente até questiona: “Mas a Rússia não é uma aliada sincera?”. Ela entregou os equipamentos, a decisão política de operá-los é interna, não é da Rússia. Não cabe à Rússia apertar o botão. A China também entregou uma série de radares, mas é preciso que a Venezuela analise porque essa defesa, no momento certo, falhou.
Mas, volto a lembrar, é a primeira batalha, a guerra está mal começando. Então, é preciso que o povo entre em campo, com a sua garra, o proletariado e o campesinato venezuelano, para resistir e defender as conquistas da revolução bolivariana.
Como está o governo venezuelano após o ataque? E qual é a reação popular na Venezuela?
Houve uma manifestação muito grande em apoio à libertação do Maduro e da Cilia. Em apoio ao processo bolivariano também. O governo está instalado, a Delcy Rodríguez era a substituta natural, institucional, porque era vice-presidente, mas ali no governo estão o Vladimir Padrino López, Diosdado Cabello, que são as duas alas militares, anti-imperialistas, que nós temos na Venezuela.
Não tem elementos para confirmar e acho que há um interesse muito grande da mídia de criar desânimo exacerbando que houve uma traição interna. Digamos que pode ter havido realmente uma grande falha, mas esse é um tema que o PSUV e o governo bolivariano devem resolver. Eles têm capacidade para isso, têm apoio para isso e têm aliados no mundo para isso.
A mídia imperial quer desestimular e desprestigiar a autoridade da Revolução Bolivariana, porque esta estimula a construção da internacional anti-imperialista. Ela apoia as lutas anti-imperialistas no mundo inteiro, a integração no mundo inteiro. O apoio dado a Cuba é muito grande, o apoio aos palestinos também. Vamos lembrar que tem 100 jovens palestinos estudando medicina em Caracas, na Universidade Salvador Allende, que é uma parte da escola latino-americana de medicina na Venezuela, gratuitamente.
O imperialismo quer desprestigiar para botar dúvidas, para lançar desânimo. No momento, eu estou no Brasil, não tenho tantos elementos assim, mas creio que a própria Venezuela, em breve, vai lançar um tipo de balanço sobre esses dias. Muita coisa ainda está sendo apurada.
O fato concreto é que houve uma resistência heroica dos cubanos, que faziam a guarda de honra do presidente Maduro. Eu quero inclusive homenageá-los: 32 cubanos que morreram porque estavam cumprindo a sua missão internacionalista. Como fizeram em Angola, como fizeram na África, sempre lutando contra o imperialismo, onde quer que o imperialismo esteja, sem medir os riscos que correm. São 32 os heróis que merecem nossa homenagem. Esse é o exemplo que nós temos que seguir. Certamente o povo generoso da Venezuela está valorizando muito isso.
Os Estados Unidos em algum momento terão que desembarcar tropas lá para pegar o petróleo. Tem que ir lá e impor uma situação física concreta, com empresas imperialistas e com tropas. Aí que vai haver o embate direto com as forças populares venezuelanas. E aí vamos ver como vai ser uma nova etapa da resistência latino-americana anti-imperialista.
Desde o dia 6 de janeiro circula a notícia de que um pacto teria sido firmado entre Delcy Rodriguez e o governo dos EUA, para sua manutenção no cargo de presidenta interina. O acordo incluiria acabar com o apoio para Cuba, expulsar os iranianos e outros atores da Venezuela, fechar o abastecimento de petróleo para adversários dos EUA e abrir o mercado de petróleo para as empresas americanas. Essa notícia se sustenta?
Esse acordo foi anunciado pelos Estados Unidos, não pela Delcy Rodríguez. Então, primeiro, os Estados Unidos não merecem credibilidade alguma quando anunciam qualquer coisa. Segundo, a Venezuela tem muito petróleo e ela precisa de ter mercados e os Estados Unidos sempre foram um mercado tradicional histórico do petróleo venezuelano, mesmo quando ele era ilegalmente regalado.
Quando vem o Chávez e nacionaliza, ele não suspendeu o fornecimento de petróleo para os Estados Unidos. Até porque você vai ter o petróleo sem ter para quem vender? O que você vai fazer com aquilo? Você tem que ter uma renda petroleira. Os Estados Unidos nunca tiveram negativa da Venezuela, até porque a Venezuela tinha construído cinco refinarias dentro dos Estados Unidos.
Mas, antes do Chávez, o lucro nunca era remetido de volta para a Venezuela, o que só passou a acontecer quando o Chávez chegou ao poder. Isso quer dizer que a Venezuela não se nega a vender petróleo para os Estados Unidos, mas ela quer que seja pago o preço justo. Até porque existe lá um mercado consumidor enorme. Você não pode, de uma hora para outra, dizer: “não quero esse mercado”.
A China está lá do outro lado. O Irã está muito mais perto da China do que a Venezuela. O México tem muito petróleo, a Colômbia tem praticamente petróleo para sua necessidade. Então, não se pode inventar artificialmente o novo mercado consumidor. O que está sendo colocado, e que o próprio Maduro havia dito e o Chávez quando fez a nacionalização, é que as empresas norte-americanas podem vir fazer acordos de petróleo com a Venezuela, mas tem que pagar o preço justo e respeitar a soberania.
Inclusive, em uma das leis habilitantes, havia uma cláusula de que uma empresa americana, para estar dentro da Venezuela, tem que se associar obrigatoriamente à PDVSA em caráter minoritário, o que assegura uma maioria nacional nesse acordo. Eu não vi nenhum anúncio de que isso tenha sido mudado.
É claro que os Estados Unidos podem forçar a barra, levar a uma situação extrema. Podem, até porque não é imediatamente que a Rússia, a China e o Irã, que são aliados da Venezuela, podem alterar o teatro de guerra, o teatro de operações. Ali está uma frota bem próxima e isso tudo dá uma vantagem aos Estados Unidos, pela proximidade que tem em relação à Venezuela.
Tudo isso indica o grau de complexidade. Continua a mesma linha editorial anti-imperialista, contra os Estados Unidos, defendendo a unidade dos povos, denunciando Donald Trump. Essa é a nossa linha editorial. Não houve mudança política. O chavismo continua em Miraflores.
O Maduro foi sequestrado, mas isso não significa o sequestro de um governo, não significa o sequestro de um povo e não significa o sequestro do petróleo. Para fazer isso, é preciso desembarcar tropas como foi feito no Iraque. Eles podem fazer? Podem, porque eles são um país viciado em guerra, os Estados Unidos. Fizeram na Líbia e no Iraque. Eles são capazes das piores coisas na história da humanidade, não há dúvida.
Mas, ao mesmo tempo, surgiram os Brics, uma outra aliança. Vez ou outra a humanidade se reinventa e inventa uma revolução, como a revolução bolivariana. A humanidade sempre está inventando revoluções, rebeliões. Porque o capitalismo não oferece perspectiva de progresso nem econômico, nem social, nem cultural, nem humano para nenhum dos povos, nem para a humanidade.
Isso leva a humanidade a se questionar e buscar formas revolucionárias de transformar essas estruturas carcomidas que estão por aí. Então, sobre o acordo, eu não vi nenhuma declaração oficial da presidente Delcy Rodríguez falando nisso. Eu vejo é que ela foi ameaçada de morte pelo Donald Trump. Se ela foi ameaçada não é exatamente um acordo que existe. Ela está sob coação, sob pressão
Um dos mais procurados é Diosdado Cabello e ele tem que tomar bastante cuidado porque ele é um militar que tem uma história de luta muito vinculada às insurreições militares organizadas pelo presidente Chávez e está na origem do movimento bolivariano militar anti-imperialista. Então, ele também corre risco. Isso tudo é uma estrutura de poder na Venezuela.
Esse governo não fez uma mudança, não foi cooptado. O que existe é uma pressão e um discurso do Donald Trump que agora passou a mirar muito mais a Groenlândia. Porque será? Ele imaginava que ia tomar o petróleo e teve que agora falar na Groenlândia, teve que recuar da acusação de narcotraficante feita ao Maduro. Por que?
Porque inclusive saiu uma pesquisa da Reuters, que é um instituto de pesquisa muito ligado ao imperialismo inglês, dizendo que a maioria da população nos Estados Unidos não apoiou a agressão à Venezuela. Então, ele tem que prestar contas a toda uma opinião pública que é desfavorável e ele chegou a dizer duas coisas sintomáticas. Primeiro, “nós não estamos em guerra contra a Venezuela”. Segundo, “se os republicanos não ganharem a eleição deste ano, eu posso sofrer o impeachment”. Ele declarou isso, Donald Trump.
Na prática, o que significa este ataque para o futuro da América Latina e do Brasil? Como você avalia a resposta brasileira até aqui?
Para o Brasil, também significa um risco, como para outros países latino-americanos. O Brasil é o prato mais apetitoso. Não é a Venezuela. Se a Venezuela tem a maior reserva, aqui tem todos os minerais, inclusive uma variedade superior àqueles existentes nos Estados Unidos. E, aliás, houve um comunicado do Ministério da Defesa do Brasil dizendo que, depois da agressão dos Estados Unidos à Venezuela, o petróleo da margem equatorial brasileira está sob risco.
Foram os militares brasileiros que disseram isso ao Palácio do Planalto. Os Estados Unidos sempre pretenderam estar na Amazônia e a Venezuela é um país do tratado da bacia amazônica. Se eles conseguirem ocupar a Venezuela, estarão na Amazônia e já existem, lamentavelmente, manobras militares entre o exército brasileiro e o exército norte-americano na Amazônia brasileira.
Todos esses países precisam se unir, se quiserem ter uma perspectiva de desenvolvimento independente. Porque, para os Estados Unidos, importa muito mais a riqueza, como as terras raras que o Brasil, o Chile e a Argentina têm. O presidente Lula disse que queria industrializar aqui as terras raras, não apenas exportar. Está correto. Mas não é o que ele tem feito com o nióbio de Araxá em Minas Gerais, por exemplo, que é vendido a preço negativo.
Quer dizer, o Brasil está sendo rapinado, Minas Gerais em particular. Aqui ficam os buracos e a miséria e a riqueza vai para lá, para fabricar mísseis da indústria do grupo Rockefeller, na Holanda. Por que não nacionalizar o nióbio e as terras raras? Essa é a defesa que nós devemos fazer. O ouro é nacionalizado na Venezuela, está estatizado. No Brasil, está sob comando de crime organizado. Não há controle brasileiro sobre o ouro que tem na Amazônia, inclusive.
A Colômbia corre risco. Petro disse que, se precisar, voltará a pegar em armas, já que ele foi guerrilheiro do M-19 na juventude. Sobretudo, o México corre muito risco, me parece. Lamentavelmente, sou obrigado a reconhecer isso. Primeiro, porque faz fronteira. Segundo, porque tem muito petróleo. Terceiro, porque tem uma presidente com um grau de independência admirável, de coragem. Quarto, porque tem o narcotráfico em profunda e dinâmica atividade macabra em direção ao mercado norte-americano, que é o maior mercado consumidor de cocaína do mundo, onde a renda do narcotráfico fica.
O cinismo de acusar outros países é tão grande, que eles querem tapar com as acusações mentirosas que fazem, que são eles os maiores lucradores do mercado internacional de narcotráfico. Porque, lamentavelmente, o povo norte-americano é o maior consumidor, é vítima dessa atividade macabra, criminosa. Os Estados Unidos acusam o outro, porque inclusive, com a perda de dinamismo da economia norte-americana, houve desindustrialização e uma inclinação para o rentismo.
Hoje, grande parte dos capitais norte-americanos são controlados pelos fundos abutres. E eles controlam toda a riqueza que é produto, por exemplo, da privatização que ocorre no mundo inteiro, mas também do tráfico de armas, de droga, de pessoas, de crianças, etc. Tem um poder paralelo nos Estados Unidos.
O Trump, de alguma forma pretende, quando ele fala “Make America Great Again” (faça a América grande outra vez), recuperar a cara industrial. Mas ele quer fazer isso à custa dos outros, da soberania dos outros, do petróleo da Venezuela. Porque ele pretende recuperar o lastro da moeda, já que, sem lastro, ele navega em uma corda bamba, uma economia que pode entrar em crise a qualquer momento. E a resposta para as crises do imperialismo, classicamente, é recorrer à guerra. Por isso, o perigo é para toda a humanidade.
