Diante dos recentes acontecimentos na Venezuela e da onda de protestos no Irã, Juliane Furno, cientista social, economista, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, discute o atual cenário geopolítico.
Ao Visões Populares, ela também discute os conflitos internos nos Estados Unidos, a disputa por hegemonia mundial e a atuação do imperialismo norte-americano.
“O imperialismo, como conhecemos hoje, foi redesenhado no pós 2º Guerra Mundial, no que Samir Amin dizia ser o ‘imperialismo coletivo’, com os Estados Unidos na cabeça e países europeus e o Japão como sócios minoritários. Hoje, os EUA não precisam mais da Europa e se voltam ao que foi a sua expressão no entre-guerras: um imperialismo de caráter nacionalista”, explica a professora.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato – O que Trump conseguiu e o que ainda espera conseguir, após o ataque à Venezuela?
Juliane Furno – Trump e os Estados Unidos enfrentam algumas contradições internas. Há duas forças políticas internas que disputam a linha do governo: a vinculada ao Marco Rubio, que tem um conteúdo ideológico mais anticomunista e anti-Cuba, que se importa mais com o mapa político da América Latina; e um outro grupo, da Make America Great Again (Maga) e dos cidadãos americanos, que espera do Trump uma política mais isolacionista.
Eu entendo que isso se explica pela dubiedade da campanha eleitoral. Por um lado, acabar com as guerras, atendendo a esse pedido do setor interno, que não quer que os Estados Unidos financiem mais guerras, não quer que invistam tanto na sua indústria bélica e quer que retomem um projeto de caráter industrial. Por outro, há também esse outro setor que insiste que os Estados Unidos têm vocação de levar a democracia liberal e sufocar as experiências revolucionárias ao redor do mundo.
Posto isso, entendo que a ação contra a Venezuela é uma mediação entre esses dois atores políticos. Porque ela é uma incursão militar, mas não por terra. Não tem uma invasão da Venezuela, tal como foi a invasão do Iraque, o que geraria um descontentamento muito grande, levaria à perda de vidas de cidadãos americanos e ocuparia demasiadamente os Estados Unidos em um esforço permanente de ocupação e guerra.
Essa ação destitui o principal símbolo do chavismo, que é o Maduro, mas aposta na tentativa de uma saída negociada, porque, para criar as condições para que a oposição venezuelana tomasse o poder e destruísse o chavismo, teria que haver condições militares para isso. Os EUA teriam que dar suporte militar para a oposição e parecem não estar muito dispostos a fazer isso.
Por isso, apostam nessa saída negociada, na tentativa de constrangimento e domesticação dos demais dirigentes chavistas, que estão mantidos no poder. À luz do que foi o ataque militar, eles ampliam a sua capacidade de intervenção, dizendo: “se vocês não seguirem à risca essas condicionalidades, também serão retirados do poder”.
Acho que o núcleo duro do chavismo e da direção política do PSUV na Venezuela também vive momentos tensos e difíceis. Porque é uma desmoralização muito grande os Estados Unidos terem entrado tão facilmente na Venezuela e capturado o Nicolás Maduro. Uma derrota. E mais do que isso, os países que buscam ser potências, rivalizando com os Estados Unidos, não foram capazes de nenhuma medida de retaliação.
Então, a Venezuela se vê isolada, com pouco poderio militar e com um gigante baforando muito perto. O que vai acontecer é que o chavismo vai atender a uma série de pedidos do governo Trump para garantir o que é fundamental: o poder. O fundamental é que o chavismo continue, porque, se ele sai do poder, é muito difícil que ele volte. Até porque vai haver muitas medidas judiciais e repressivas. O que não for essencial, me parece que vai ser entregue para tentar uma saída pactuada.
Tem crescido de forma exponencial as tensões decorrentes de manifestações no Irã. Como você analisa os últimos acontecimentos e de que forma isso impacta o cenário global?
Impacta muito. Venezuela, Cuba e Irã, se esses três países ou essas três experiências, obviamente muito distintas entre elas, têm os seus governos derrubados, isso representa uma virada brutal no mapa político e geopolítico global.
O Irã é um país muito grande. Ele controla o Estreito de Ormuz, que é por onde passa grande parte do petróleo internacional. Então, ele tem uma dimensão estratégica internacional, mas sobretudo no Oriente Médio, que não é descartável. Assim como a Venezuela, o Irã também é um grande reservatório de petróleo.
O Irã fez uma revolução. Os iranianos derrubaram o que era uma monarquia absolutista do Xá Reza Pahlavi, em 1979, para uma teocracia absolutista e muçulmana. A diferença é que, até 1979, a monarquia absolutista iraniana era muito pró-Ocidente e o que marca principalmente a revolução iraniana é uma política externa anti-Estados Unidos, anti-Ocidente e anti-imperialista.
O Irã tem muitas contradições, porque, diferente de Cuba ou da Venezuela, não é uma experiência socialista. É uma experiência teocrática, tem um elemento religioso muito sensível e a participação política é muito baixa.
Mas, no mapa político do Oriente Médio, é o país que consegue rivalizar com os Estados Unidos. Veja, o único país do Oriente Médio que, de fato, participou da luta contra o genocídio em Gaza foi o Irã. O Irã é quem tem capacidade regional de também fazer frente a Israel.
Então, em que pese seja um regime muito problemático, as tentativas de desestabilização externas, que buscam reverter as heranças dessa revolução de 1979, não estão preocupadas, obviamente, com a democracia e a participação política. Até porque, antes de 1979, repito, era também uma monarquia constitucional, mas era amiga dos Estados Unidos.
Então, é muito importante que o regime iraniano siga governando o Irã, repito, com todas as contradições que tem. Não é uma experiência de caráter socialista, nem é efetivamente democrática. Mas, do ponto de vista das tensões internacionais, pensando que várias experiências na África, na Líbia, na Síria e outras no Oriente Médio, têm cada vez mais se convertido para o Ocidente, a manutenção do Irã como um polo de resistência é fundamental.
China e Rússia não se mobilizaram de forma enérgica para conter a invasão militar dos Estados Unidos na Venezuela. Agora, eu acho que muda um pouco o mapa político, porque o Irã tem uma proximidade geográfica muito maior com a China. Então, não descartaria, neste caso, uma ação mais enérgica, diplomática ou mesmo militar da China, caso o Irã esteja submetido a um processo mais tenso de reversão do poder político do regime dos aiatolás.
Como você enxerga a possibilidade de novas interferências diretas na América Latina?
No final do ano passado, os Estados Unidos apresentaram a sua estratégia de segurança nacional para o próximo período. Surpreenderam a maioria dos analistas internacionais, que acreditavam em uma rivalidade principal com o Oriente, tentando barrar a ação mais expansiva russa, ou na guerra tecnológica e comercial à China.
Me parece que é um acúmulo de forças. Ou seja, os Estados Unidos querem, sim, rivalizar com a sua principal potência antagônica no plano internacional, que é a China, mas precisaram dar um passo atrás, arrumar a sua casa, acumular força para ter melhores condições de partir para essa segunda ofensiva.
Então, para eles, a América Latina precisa se curvar e operar uma política econômica e uma política externa que esteja em alinhamento com os Estados Unidos. Que forneça os recursos estratégicos de que a América Latina é um grande fornecedor e que politicamente esteja alinhada. Trump, em um primeiro momento, jogou para muitos lados, mostrando fortalecimento, capacidade de influência, poder político e militar. Falou da Colômbia, do México e de Cuba.
Mas acho que agora essa estratégia já foi um pouco revista. Houveram ligações telefônicas com o Petro na Colômbia e parece que esfriou um pouco aquele clima mais beligerante com o México também. Agora, ele está direcionando esforços para um alvo de cada vez e, ao invés de abrir várias fileiras de combate, ele vê Cuba como o país prioritário, porque Cuba tem um simbolismo muito grande.
Diferente da União Soviética, em que existia uma parte da esquerda que era crítica daquela experiência, em função do que teria sido o legado do Stalin e a perseguição contra membros do Partido Comunista, Cuba é mais resguardada dessas contradições. Cuba é uma experiência que, com raras exceções na esquerda, é compartilhada entre todo mundo. Ainda que a gente identifique os limites, as contradições, é um país vanguarda na resistência ao império, pela proximidade geográfica e pela dependência econômica.
Então, se Cuba cai, é um abalo moral muito grande. É a sinalização de que todo mundo que resistiu caiu. Todo mundo que resistiu em algum momento foi derrotado. Isso é uma lição muito grande que tem capacidade de desmobilizar uma geração inteira que tinha em Cuba um farol de um local de resistência, uma experiência socialista, ainda que com todas as suas contradições.
Agora, é também um cálculo muito difícil, porque o Partido Comunista Cubano parece ter muito mais unidade. É uma experiência muito mais longeva. Então, se o presidente Díaz-Canel cair, sobe o próximo da linha sucessória. É muito difícil que tenha tensões internas. Assim, seria necessária uma incursão por terra ou um bombardeio.
Só que parte expressiva da base de apoio do governo Trump, a base de apoio do Marco Rubio, que são cubanos que estão na Flórida, têm parentes em Cuba. Bombardear Cuba significa colocar em risco também milhares de vidas desses sujeitos que dão guarida para essa investida imperialista. Eu acho que é uma mecânica mais difícil.
Tem a investida na asfixia econômica, que cada vez está mais acentuada, mas não é garantido que vá haver uma revolta popular que destitua o governo. Ou teria que ser acionada alguma iniciativa no campo militar que, repito, tem essas questões: o custo político de uma guerra.
O Japão, a China e a Rússia são países que têm comprado menos títulos do Tesouro americano. Como os Estados Unidos financiam as suas guerras e financiam o seu próprio consumo deficitário? Financiam porque o dólar é a moeda de referência internacional. Todos os países acumulam reservas de divisas nos títulos da dívida pública americana. Agora, há um conjunto de países que têm sido mais refratários a esse movimento.
Portanto, se os Estados Unidos não conseguirem se financiar com o Tesouro, com a dívida pública, terão que recorrer à emissão primária, por exemplo, que pode agravar o problema inflacionário. Terá que haver uma arquitetura muito bem sedimentada, que avance com alguma iniciativa militar, ao mesmo tempo que responda a essa base que não quer gastos militares ou que vai estar em contradição com o governo, caso aumente a inflação, que é um pouco decorrência da emissão primária.
Quais são as chances reais de que os EUA concretizem uma invasão à Groenlândia e qual é a importância desse território na disputa pela hegemonia global?
A Groenlândia é estratégica pelos recursos minerais, principalmente, os recursos estratégicos para a nova indústria, que deve se concentrar, sobretudo, na transição energética. Então, é um país central. A OTAN, por sua vez, fez muito sentido em um período em que havia a União Soviética e a sua “OTAN”, que era o Pacto de Varsóvia.
Caindo a União Soviética e fortalecendo o poder dos Estados Unidos, a OTAN vai tendo menos relevância. Porque os EUA precisam cada vez menos compor com um conjunto de países a sua estratégia de defesa e, cada vez mais, apostam na unilateralidade, que, de fato, eles têm. Eles são a grande potência do mundo.
Então, daria para dizer que os Estados Unidos têm retomado um certo nacional-imperialismo. Veja, o imperialismo, como a gente conhece hoje, que foi redesenhado no pós-Segunda Guerra Mundial, era um imperialismo que um teórico muito importante africano, Samir Amin, chamava de imperialismo coletivo. Com os EUA na cabeça, mas com países europeus e o Japão como sócios minoritários.
Dado esse imperialismo coletivo, os Estados Unidos precisam garantir uma certa proteção à Europa. Hoje, entendo que tudo bem essa possibilidade de desidratação ou mesmo de fim da OTAN, porque os Estados Unidos não precisam mais da OTAN. Aliás, eles não precisam e não estão dispostos a ficar financiando as guerras dos países europeus, se podem fazer sozinhos. Essa, portanto, não vai ser uma questão importante.
Sobre invadir a Groenlândia ou não, eu sou muito ruim de previsão, normalmente eu erro, mas eu acho que se invadir — e tem chance de acontecer isso — a Europa vai chiar, mas não será capaz de fazer frente a essa investida dos Estados Unidos. E os Estados Unidos podem, sim, sacrificar a OTAN, se o que está em jogo é ganhar a fonte do excedente de recursos naturais, que vai ser fundamental para a disputa tecnológica industrial do próximo período.
Como está o cenário interno nos EUA e de que forma isso se relaciona com as investidas do governo norte-americano?
Os Estados Unidos acumulam contradições internas. Trump não é um governo de mediação, nem de diálogo. Ainda que tivesse uma política muito bem consolidada, ele não busca o diálogo. Ele busca mais polarização e construção de coesão ideológica em torno de ideias mais radicais. Isso necessariamente cria uma sociedade mais polarizada e fortalece também os seus adversários.
Acho que tem outros elementos também. A atuação da política anti-imigração é um tema sensível, que extrapola, inclusive, a polarização política democratas-republicanos. Tem questões internas também, como a aceleração da inflação, que deve se aprofundar ainda mais com o conjunto de tarifas e sobretaxas que os Estados Unidos têm imposto a vários países do mundo. Isso deve agravar o problema inflacionário.
Tudo isso coloca o equilíbrio das forças políticas em uma instabilidade muito maior. Não tenho muitos detalhes da condução política nos Estados Unidos, mas acho que as manifestações que a gente já tem visto em relação à imigração, mas também em relação à política externa, são indicativos disso.
Como você entende a organização do imperialismo hoje no mundo?
Eu tenho dito, com relação ao tema do imperialismo, que quem olha como um filme vai identificar que os Estados Unidos, de fato, estão vivendo um período de decadência, de uma certa erosão, de fragilidade da sua economia e do seu poderio imperialista. Mas quem olha como uma fotografia vai identificar que, ainda que no tempo essa experiência esteja entrando em declínio, no momento atual ela ainda é a principal potência militar do mundo.
A China e a Rússia são os países que têm tido as maiores taxas de crescimento do investimento na indústria armamentista, na indústria bélica, mas ainda que elas sejam taxas de crescimento maiores, o estoque de investimento dos Estados Unidos é muito superior. E os EUA, ou o imperialismo estadunidense, sempre que se veem ameaçados, costumam atuar com mais ataque, mais na ofensiva.
Os Estados Unidos já passaram por uma ameaça do seu poderio imperialista, na década de 70, e eles saíram dessa crise, da perda de hegemonia política e econômica, muito mais fortalecidos, fazendo ações no campo monetário, no campo militar, etc. Então, o imperialismo estadunidense vive sim uma crise e um declínio, mas respondem a essa crise fortalecendo a sua capacidade de ataque.
Era de se esperar que, frente ao debate sobre desdolarização, à ofensiva da Rússia sobre a Ucrânia – barrando a tentativa da OTAN de se espalhar pelos países da ex-União Soviética -, à superioridade econômica e tecnológica da China, os Estados Unidos respondessem, tentando retomar a sua hegemonia a partir de ações bastante efusivas, sem deixar de utilizar a sua principal carta política, que é o poder das armas.
A China e a Rússia, mas principalmente a China, nunca testaram efetivamente a sua capacidade militar. A Rússia tem uma capacidade, uma tecnologia balística impressionante, e a China tem feito vários esforços, sobretudo no campo tecnológico, na indústria de defesa. Mas efetivamente a gente não conhece a desigualdade de armas ou a desigualdade de força política.
E a China, me parece, identificou que ainda não é o momento de entrar em cena. Ela ainda está acumulando forças para poder fazer frente ao poderio militar dos Estados Unidos, com exceção, obviamente, de Taiwan. A China não é a União Soviética, não é um país que vai defender a todo custo as experiências socialistas ou anti-estadunidenses. Ela está mais para uma potência regional do que uma potência global.
Os Estados Unidos são a única potência global. Então, a Rússia vai se mexer quando o tema for Ucrânia ou os países que pertenciam à União Soviética, e a China vai se envolver militarmente quando o tema for Taiwan, que ela reivindica como território seu. Mas não me parece que ainda é o momento.
Acho que a Venezuela deve ser uma experiência, para eles, sacrificável, para que continuem acumulando força e, assim, rivalizem com os Estados Unidos. Porque isso vai acontecer. Os Estados Unidos vão enfrentar militarmente a China em algum momento e eles devem querer estar melhor preparados ou melhor posicionados para esse período, que não deve tardar muito para vir.
Como você avalia o cenário político e econômico que vivemos e a possibilidade de que esse cenário se agrave em uma guerra envolvendo as grandes potências mundiais?
Do ponto de vista histórico, está próximo, mas do ponto de vista real, do nosso tempo humano, acho que ainda estamos longe de ver um conflito de dimensões mais globais. Eu acho, repito, que a China, que é quem tem mais capacidade de fazer frente aos Estados Unidos e se comportar como uma potência global, deve esperar mais um tempo, acumulando força, acumulando capacidade militar e econômica para entrar em uma investida conflituosa com os Estados Unidos.
Então, acho que a nossa geração não vai ver o que seria análogo a uma Terceira Guerra Mundial, mas infelizmente vai continuar havendo os Estados Unidos sem um contraponto efetivo, que barre as suas ações. Sem precedentes na história, desrespeitando o direito internacional e as soberanias nacionais.
