Em 25 de janeiro de 2019, o rompimento da Barragem I da Mina Córrego do Feijão matou 272 pessoas. Foram despejados 13 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração, que destruíram a bacia do Rio Paraopeba. A mineradora Vale, dona da mina, tornou-se responsável pelo maior crime ambiental e trabalhista da história do Brasil. Passados sete anos, ninguém foi responsabilizado pelos homicídios ou crimes socioambientais.
O Visões Populares entrevista Maria Regina da Silva, mãe da Priscila Elen Silva (29), uma das vítimas do rompimento da barragem, e vice-presidenta da Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão em Brumadinho (Avabrum).
“As pessoas que perderam uma casa constroem outra, mas eu não consigo ter Priscila de volta. Nada do que nós fizermos vai trazer nossos familiares de volta. Essa dor, que permanece em nós, se transformou em força de luta”, ressalta.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato MG: Em que pé estão os processos de responsabilização criminal?
Maria Regina da Silva – São sete anos, 272 pessoas mortas, um crime que foi comprovado pela investigação da polícia e a gente não entende porque ainda não teve justiça. Entendemos os trâmites da Justiça e que a nossa briga é com uma empresa de um poderio financeiro muito grande, que tenta a todo custo manipular esse processo criminal, mas em nosso coração, não entendemos.
O processo caminhou um pouco, com muita dificuldade. Nós temos agora, no próximo 23 de fevereiro, o começo das audiências de escuta das testemunhas. Esse processo vai durar mais de um ano. Realmente, é muito difícil para quem perdeu um familiar entender essa morosidade, porque houve um crime, foi comprovado que houve um crime. Então, o que é que falta? Por que isso não caminha?
Sabemos e escutamos muito que a razão é que a Vale manipula em todos os lugares. Quando chegamos em algum lugar, a Vale já está sentada lá há muito tempo. A gente sabe que é um processo muito político. O ex-presidente da empresa agora conseguiu um habeas corpus e nós, junto com o Ministério Público, estamos lutando em Brasília para que ele volte para o processo, porque não é justo.
Ele era a pessoa que dirigia a empresa. É impossível que ele não soubesse. As investigações mostraram que ele sabia e, mesmo assim, conseguiu, através dos desembargadores de Minas, um habeas corpus. O Ministério Público e a Associação dos Familiares estão lutando para que ele volte para esse processo e nós temos esperança de que ele vai voltar.
Agora, entender essa justiça injusta que nós temos é difícil. Se fosse eu ou um filho meu, se fosse qualquer pessoa de menor poder aquisitivo que tivesse cometido, a situação seria outra. A gente vê isso todos os dias. Nós vemos essa injustiça nos grandes derramamentos de sangue que existem no Brasil. Uma justiça que não se faz. Olha a Boate Kiss ou o crime que aconteceu com os meninos do Flamengo. Colocaram as crianças no contêiner para morrer e a justiça não caminha. O poder financeiro comanda esses crimes horrorosos que acontecem no Brasil. Mas temos fé que vai se fazer justiça.
Qual é a importância da manutenção da memória sobre os crimes da mineração em Minas Gerais?
Percebemos uma diferença muito grande quando estamos nos lugares e contamos a história do que aconteceu. Apesar de toda a repercussão que teve, muita gente fica assustada quando a gente conta o que aconteceu conosco, porque nós somos as legítimas vítimas que ficaram. Então, quando a gente conta a história, as pessoas se assustam, ficam perplexas, porque elas não fazem ideia de que é dessa forma que aconteceu.
Fazer essa memória é importantíssimo. Todos os dias fazer essa memória, falar sobre o que aconteceu e cada um de nós contar essa história. Quando o Memorial Brumadinho foi pensado, na verdade, foi por um outro motivo. Na época da identificação das vítimas, as famílias assinavam um termo de que se encontrassem novos segmentos corpóreos elas não queriam ser comunicadas.
Com isso, foi se acumulando esses segmentos corpóreos no IML. Quando um membro da Avabrum procurou saber o que seria feito, nós tivemos a informação de que aqueles segmentos, que estavam dentro de um caminhão frigorífico no IML, seriam enterrados em vala comum. E aí nós ficamos indignados.
O primeiro pensamento de se construir o memorial foi esse: resguardar os restos corpóreos daqueles trabalhadores, daqueles turistas, daquelas pessoas da comunidade que foram mortas de forma tão violenta e tão injusta.
Preservar e fazer essa memória todos os dias é tão importante quanto fazer justiça. Porque ninguém pode esquecer o que aconteceu em Brumadinho. Nós temos barragens em risco de rompimento. Eu estou aqui, a mãe da Priscila, falando sobre isso, mas nós não queremos que daqui a algum tempo outras pessoas estejam falando sobre o mesmo crime.
E percebemos uma negligência muito grande, um esforço para flexibilizar as leis, para que a mineração avance a todo vapor. É o lucro sendo colocado acima de todas as coisas, assim como a empresa fez.
Eles querem avançar na mineração na Serra do Curral, na Serra da Piedade, em todo lugar. Não importa a cultura, não importam os povos que estão morando ali, as comunidades. Então, essa memória do que aconteceu conosco tem que ser insistente para que, quando for flexibilizar a lei, pense-se nessas pessoas que morreram. Quando for fazer o avanço da mineração, pense na comunidade que tem envolta, nas pessoas que estão no entorno.
A família de São Paulo que morreu na pousada não fazia ideia que eles estavam próximos de uma barragem com risco de rompimento. A minha filha, quando entrou naquele ônibus aquele dia, tinha o intuito de voltar para casa. Ela deixou as coisas dela para fazer, a geladeira desligada para lavar. E ela foi morta por uma negligência. A memória tem que ser efetiva por isso. Todas as pessoas têm que lembrar, o tempo todo, das 20 pessoas que morreram em Mariana e das 272 que morreram em Brumadinho, para que não aconteça novamente.
Um estudo do Projeto Brumadinho, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), apontou grandes impactos na saúde física e mental das pessoas atingidas. No cotidiano das pessoas atingidas, o que significam estes impactos?
A pesquisa é feita por pessoas que vêm de outros lugares a partir da escuta de outras pessoas que estão no território. É verdade essa questão do impacto da saúde, isso foi muito vivo e presente, na nossa vida, na nossa família, na nossa casa. A gente teve muitos problemas psicológicos. Nossas famílias, que nunca precisaram ir a um médico, a um psicólogo, de repente tiveram que ir para poder aguentar a situação.
Aqui na minha casa, eu tenho os meus filhos que fazem até hoje tratamento. A gente teve pessoas dentro de Brumadinho, irmãos que suicidaram, porque não aguentaram. O consumo de remédio dentro do município aumentou muito. Além do impacto físico, a poeira naquele tempo era muito insistente.
Eles dizem que não dá para falar, porque não tem um comparativo dessa contaminação antes do rompimento. Mas o depois foi seríssimo. A quantidade de metais pesados no sangue das pessoas. E isso levou a muitas outras doenças. Temos familiares que tiveram muitos problemas de dores, o que levou a fazer cirurgia, que talvez não precisasse ser feita, se não fosse esse impacto.
E hoje essas pessoas têm muito mais problema na saúde por causa daquilo que aconteceu. A gente tem familiar de vítima que não consegue caminhar. Ontem, a gente fez um ato, um abraço ao Córrego do Feijão, porque a gente entende que a empresa matou e era muito próxima da comunidade do Córrego do Feijão.
As pessoas, quando começam a falar sobre, tremem. Você vê que elas estão tremendo, passam mal. Tinha uma senhora conosco ontem que perdeu o filho e teve que ser amparada, porque ela não aguentou chegar no local onde a lama está. Isso tudo causou muito dano à saúde das pessoas. Não precisava de pesquisa para colocar isso. Isso é verídico, é atual, é presente na vida de cada pessoa residente em Brumadinho, no Córrego do Feijão, no Tijuco e no entorno.
Até hoje, Córrego do Feijão e Tijuco dependem de a Vale entregar água em garrafinha. Pense se isso não traz um impacto à saúde das pessoas. Para você ter uma ideia, as criações, os cachorros, tiveram muitos casos de câncer. Teve câncer em pessoas. Essa contaminação é muito presente e muito verdadeira no nosso cotidiano.
Como a comunidade de Brumadinho tem recebido a retomada de atividades minerárias na região do rompimento? E como a Avabrum avalia a atuação da mineradora Itaminas no território?
A gente briga muito pela não repetição, é uma bandeira da Avabrum. Não queremos que novos rompimentos e novas mortes aconteçam. Mas a Avabrum não tem como tentar barrar uma mineração. A gente atua, vai no Ministério Público, briga, conversa, mas não temos esse poder de agir diretamente para que isso não aconteça, infelizmente.
Nós fomos chamados pela Itaminas, quando mudou a administração. Fomos recebidos dentro da empresa, colocamos tudo o que nos aconteceu por conta da mineração desenfreada e eles foram muito abertos conosco, conversaram muito claramente conosco.
Sabemos que, seja onde for, não existe mineração sustentável. As revistas falam, pessoas pregam isso, mas isso é uma mentira muito grande. A partir do momento que você cava um buraco para tirar o mineral, não tem essa coisa de sustentabilidade mais.
Quando nós conversamos, eles já tinham descomissionado a barragem que eles tinham aqui. Eu moro muito próximo da Itaminas, no Sarzedo. A minha filha até trabalha com eles nos projetos sociais. Em Brumadinho, agora, temos novas pessoas na administração da cidade e essas pessoas foram até a Itaminas quando ficaram sabendo, conversaram, assim como a Avabrum fez.
Nós queremos que os trabalhadores voltem para suas casas com vida. E eles demonstraram todo esse respeito pela vida e pelas pessoas, com cuidado, tanto com o meio ambiente no entorno, quanto com essa questão da mineração que está acontecendo em Jangada. Mas nós não somos técnicos. Nós não entendemos a técnica de mineração. Sabemos que um impacto ambiental terá, certamente, porque não existe mineração sem impacto.
Em Brumadinho, eles estão fazendo uma contrapartida. A Itaminas tem agido em vários projetos dentro da cidade. Em Sarzedo, a Itaminas já cuidava de muita coisa.
A gente espera, como foi conversado e eles nos garantiram, que terão respeito com a questão da água e com a questão da população do entorno. Isso foi garantido na conversa que a Avabrum teve com a diretoria da Itaminas. Se não for, nós estamos aqui. Vamos fiscalizar e, se necessário, também vamos denunciar.
Durante a COP30, o governador de Minas, Romeu Zema (Novo), afirmou que “a cada dia que passa, nós temos um estado mais seguro, já que todas as barragens estão sendo descomissionadas”. Porém, dados da Agência Nacional de Mineração (AMN) revelaram que 31 barragens no estado estão classificadas em algum nível de alerta ou emergência. Como você analisa a postura do governador Zema?
Ele fala coisas que a gente não entende. Se tem barragens em risco de rompimento, nós não estamos seguros. Nós não estamos seguros onde moramos, não estamos seguros para passar por uma rodovia, ou para passar por uma avenida nas cidades. Entendemos que esse caminhar do descomissionamento das barragens se dá muito lentamente.
Essa lentidão é graças à frouxidão e flexibilidade das leis. Graças a eles lá em cima que aceitam os prazos, que esticam os prazos, e que fazem de tudo para poder ajudar as mineradoras. Nós temos barragem em risco de rompimento sim. Como eu posso dizer que eu estou segura, se eu posso passar em um local e de repente a barragem pode romper?
Para ter uma ideia, eu tenho mais próximo de mim uma barragem de água, que é da Petrobras. E ela também pode romper e causar dano onde eu moro, na minha rua. Eu acredito que Zema tenta amenizar um pouquinho na fala dele, diminuir a preocupação das pessoas. Mas, se nós tivermos uma chuva como a que aconteceu no Rio Grande do Sul, certamente nós teremos rompimento de barragem.
Já escutamos da Defesa Civil e em muitos lugares que, se não houve um outro rompimento de barragem, foi graças a esse trabalho que a gente faz. E não vamos parar de fazer. Nós entendemos que nós temos a possibilidade de novo rompimento de barragem. Nós vemos a agência de fiscalização sucateada. Eles não têm pessoas para fiscalizar. A fala dele é muito desconexa com a realidade.
Como a Avabrum se organiza hoje, em que frentes vocês atuam e quais são as expectativas para a atuação da associação daqui em diante?
A Avabrum foi criada ainda em 2019, quando uma mãe que perdeu seu único filho foi fazer uma denúncia na ONU. Quando aconteceu o rompimento, todos nós imaginávamos que a barragem abriu e rompeu. Ninguém imaginava que havia pessoas dentro da empresa que sabiam daquela possibilidade.
Então, quando a Andressa foi para fora do Brasil para denunciar o crime que aconteceu aqui, ela foi barrada lá, porque não tinha uma instituição formada. Assim, formou-se a associação, ainda em agosto de 2019. As bandeiras da Avabrum são: a memória, a justiça, a não repetição do crime e o direito dos familiares.
Nós não queremos que haja novos rompimentos. Queremos garantir isso e brigamos pelo direito dos familiares que ficaram.
A Avabrum age nessas frentes para que essas coisas sejam mais efetivas, para que a justiça caminhe. Agora, em fevereiro, começam as audiências do processo criminal, onde vão ser ouvidas as testemunhas. Atuamos para que o Fábio, ex-presidente da Vale, volte para o processo criminal, para que não tenham novos habeas corpus como esse. Atuamos para que o familiar de vítima possa ser respeitado dentro desse processo criminal.
Nós tivemos que lutar para entrarmos nos lugares. Os desembargadores e ministros não recebiam as vítimas. Íamos para as reuniões e, chegando lá, eles deixavam apenas os advogados entrarem. Tudo foi à custa de muita briga dessa associação, que é formada por 11 pessoas.
Nós temos na associação mães, irmãs, esposas e filhas de vítimas. Todas nós unidas por um intuito só: fazer com que respeitem o que aconteceu conosco, porque o que nós perdemos não tem reparação. Esse é o motivo de fazermos um ato todo dia 25 de cada mês. Esse é o motivo pelo qual nós lutamos.
Para quem perdeu um familiar não existe reparação. Existe uma reparação para o rio e para a cidade. As pessoas que perderam uma casa constroem outra. Mas eu não consigo ter Priscila de volta. Nenhum de nós consegue ter nosso familiar de volta. Nada do que nós fizermos vai trazê-los de volta. Então, essa dor permanece em nós, e ela se transformou em uma força de luta.
Lutamos por todas essas bandeiras. E uma delas é não querer que novas pessoas estejam no nosso lugar. Porque esse lugar aqui, que estou hoje, eu nunca quis e nunca imaginei estar. Nenhum de nós quis estar nesse lugar. Nós fomos colocados nesse lugar por uma empresa que cometeu um crime dentro da nossa cidade, matando os nossos familiares.
Às vezes, as pessoas dizem para a gente assim: “nossa, mas já tem sete anos, já tem tanto tempo, vocês não vão parar com isso?”. Não, nós não vamos parar. Enquanto a justiça não for feita, a Avabrum não vai parar. Vamos perseguir essa justiça.
Aqueles trabalhadores entravam todos os dias na mina com o atestado de morte deles na gaveta. O comando lá de cima sabia da possibilidade de a barragem estourar, mas os de baixo não sabiam. Toda vez que aquele ônibus entrava e aqueles trabalhadores desciam, eles estavam jurados de morte pela empresa. Não é justo que não tenha justiça.
As pessoas dizem: “ah, mas é a justiça de Deus”. A justiça de Deus é outro lado. No dia do rompimento, eles encontraram uma Bíblia aberta e nessa Bíblia estava grifado um texto, Eclesiastes 4:3. A gente entende que isso foi um recado de Deus. Está escrito assim: “por isso, cheguei a esta conclusão. Aqueles que morreram são mais felizes do que os que continuam vivos, porém mais felizes do que todos aqueles que ainda não nasceram e que ainda não viram as injustiças que há nesse mundo”.
Esse parágrafo estava grifado. Quando a Vale enterrou as pessoas vivas, nós todos tivemos os nossos questionamentos, mas hoje nós entendemos que a justiça de Deus é feita a todo o tempo.
