Visões Populares

‘Está em curso um projeto para erradicar pessoas trans’, analisa liderança transexual

MG foi o estado que mais matou pessoas trans e travestis em 2025, empatado com o Ceará

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Na foto, Bruna Benevides, presidenta da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) | Crédito: Brasil de Fato MG

Segundo levantamento da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), Minas Gerais foi o estado que mais matou pessoas trans e travestis em 2025, empatado com o Ceará, com oito mortes registradas. Em nível nacional, 80 pessoas trans foram assassinadas em virtude de serem quem são; 82% dos casos foram episódios extremos de violência.

O Visões Populares conversa com duas especialistas no assunto, Bruna Benevides, presidenta da Antra, e a professora de comunicação Dayane Barretos, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 

“Precisamos nos perguntar: por que eu estou permitindo que o Brasil continue sendo o que mais assassina pessoas trans? ”, questiona Benevides, relembrando os assassinatos de Christina Maciel Oliveira e Alice Martins Alves, que chocaram a Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), no final do ano passado.

Confira as entrevistas:

Brasil de Fato – Em Minas, a violência transfóbica vitimou, no último período, Christina Maciel Oliveira e Alice Martins Alves. De que forma esses casos nos ajudam a compreender como é a realidade trans? 

Bruna Benevides – Estamos falando de visibilidade, avanço na luta e algumas conquistas, como as cotas trans. Mas, infelizmente, a nossa luta ainda é muito pautada pela violência. Dois anos atrás, saiu uma pesquisa no Twitter,  de que, na própria plataforma, 88% das menções sobre pessoas trans estão ligadas à transfobia.  

Então, ficamos refletindo que tipo de visibilidade é essa? É majoritariamente uma visibilidade a partir da violência, da violação dos direitos humanos, das formas com as quais a sociedade tem tentado não assegurar a participação efetiva e a existência plena, integral e com liberdade, para a comunidade trans.

Minas Gerais é um estado que, desde o início do monitoramento de violência, em 2017, está sempre entre os 10 que mais matam pessoas trans. No ano de 2025, Minas e Ceará estão ocupando o primeiro lugar, empatados com o mesmo número de casos. Minas está no primeiro lugar do ranking de assassinatos. 

Embora esses dois casos (Christina Maciel Oliveira e Alice Martins Alves) tenham sido mais recentes, ganhando repercussão no final do ano, durante todo o ano vivemos uma situação de extrema violência contra a comunidade trans. E é importante frisar que, quando falamos de violações de direitos humanos e outras violências, que não o assassinato, todos os índices denunciaram um cenário muito preocupante.

No caso de assassinatos, temos uma não produção dessas informações. Os governos, o Estado e a Secretaria de Segurança não produzem dados e sobra para nós fazermos esse monitoramento, a partir das redes sociais. E é nas redes sociais que encontramos esses casos e essa violência, praticamente jorrando sangue pela tela do nosso computador ou celular. 

É muito preocupante que, por um lado, a nossa visibilidade seja parte da violência e, por outro lado, que essa violência não tenha a devida atenção por tomadores de decisão e gestores públicos. É preciso ações específicas para enfrentar essa violência específica. São assassinatos onde a identidade de gênero foi um fator de risco determinante. 

Mesmo que haja uma variação numérica, para mais ou para menos, isso não quer dizer que esses casos são menos importantes. Pelo contrário, se nós tivéssemos uma única pessoa trans sendo assassinada por conta da sua identidade de gênero, isso já deveria ser motivo de grande vergonha. 

Saiu o ranking no ano passado e, pelo 18º ano consecutivo, o Brasil é o país que mais mata pessoas trans do mundo. É muito preocupante, porque vemos discursos de ódio sendo propagados, inclusive por representantes políticos, enquanto o resultado disso é o genocídio da comunidade trans e travestis.

Como você avalia a forma com a qual esses casos, que apresentam requintes de crueldade, foram retratados pela imprensa? 

Bruna Benevides – É assustador porque, se por um lado a visibilidade nos ajuda a denunciar, chamar atenção e provocar um debate, por outro, existe um estado de polarização, de desumanização e de inversão do sentido do que é violência. Há violação de direitos humanos e tentativas, negacionistas, das pessoas dizerem que têm o direito de falar o que quiserem, como se existisse uma liberdade de expressão irrestrita e sem responsabilidade. A gente vê, na verdade, a falta de empatia das pessoas. 

Não é possível que qualquer pessoa que se deparou com os casos da Cris e da Alice não tenha se sentido, no mínimo, tristes por aquela situação. E, a partir disso, como é que podemos, com a visibilidade desses casos e a própria forma com que a mídia os explorou, pensar em formas de tocar as pessoas, para dizer assim: “olha, isso aqui está acontecendo. O que a gente pode fazer para que isso deixe de acontecer?”.

É aí que perdemos, porque o ódio, a raiva e o ressentimento desses comentários odiosos que estão em todo lugar na rede social acabam, muitas vezes, reverberando muito mais. Sabemos que casos de violência, casos de ataques, têm maior visibilidade. 

É preocupante que, por exemplo, o dossiê da Antra, os trabalhos que ativistas fazem, as ações afirmativas que nós fazemos em todos os territórios, não ganhem a mesma atenção que os casos de violência. É desbalanceada essa disputa de narrativa.

O caso de violência é muito visível, mas acontecem poucos movimentos para prevenir, para enfrentar, para identificar, para acolher a família e assegurar uma política pública estruturada que garanta segurança para a comunidade trans e travesti. Esses casos, que chegam ao assasinato de fato, são extremos. Mas quanta violência aconteceu antes? Quantas violências acontecem todos os dias até que esses casos aconteçam? 

É muito sintomático, porque 82% dos casos de 2025 aconteceram com requintes de crueldade. Esses requintes de crueldade, geralmente, são fatores e elementos que compõem crimes de ódio. Tem múltiplas formas de violentar, múltiplas formas de matar e,  geralmente, há vários atores envolvidos, ou pior, esse processo de espancamento e desumanização acontece à luz do dia, com a certeza de impunidade.

O diagnóstico que nós fazemos é que essa visibilidade por si não é suficiente. Precisamos usar a visibilidade de maneira estratégica para pautar ações e políticas públicas efetivas. Muita gente que publicou o caso da Alice ou da Cris não se preocupou em fazer uma conversa sobre o caso na sua casa, no seu bar, no seu círculo de amizades, nos espaços onde circula, na escola, na universidade, no seu trabalho, etc. 

A gente não consegue fazer com que essa cadeia de indignação, que acontece ali no momento em que a pessoa se depara com esse caso, se transforme em um motivador para a ação. Trabalhamos para isso, mas vivemos em uma sociedade que está nesse processo  de grande polarização e a comunidade trans tem sido colocada como um inimigo a ser combatido. 

Vemos muitas pessoas dizerem que as vítimas devem ter feito alguma coisa. Sempre a mesma coisa que acontece: descredibilizar, colocar a culpa sobre a vítima, tentar dizer que aquele assassinato não foi motivado por aquilo. 

Há inclusive entidades que saem em defesa dos algozes, desses violadores e pessoas que são violentas, exatamente para poder atribuir a culpa a essa existência, que não é vista como humana ou natural e que não é bem-vinda. 

Por isso, falar sobre esse assunto é importante, para que a gente possa humanizar a comunidade trans e também gerar esse processo de conexão entre todas as pessoas da nossa sociedade. Para dizer que essa pessoa apanhou por ser quem ela é, e nós não podemos permitir isso. 

Mas, ao mesmo tempo, temos ainda esse desafio pela frente, porque muita gente na rede social está publicando só para poder ganhar engajamento. Isso também é algo que precisamos refletir.

A vida das pessoas trans é importante, como a vida de pessoas idosas, mulheres, pessoas negras, crianças, pessoas com deficiência, imigrantes, etc. Toda vida é importante. A mensagem que penso sempre é no sentido de dizer assim: por que eu estou permitindo que o Brasil continue sendo o que mais assassina pessoas trans no mundo? Por que eu não estou revoltada com a morte da Alice, com a morte da Cris e de todas as outras que acontecem? Por que eu não estou revoltada quando a gente vê parlamentares que são de Minas reproduzindo esse discurso? 

É uma loucura viver nesse país sendo uma pessoa trans. É insalubre. Mas, ao mesmo tempo, a mensagem da visibilidade é: pessoas trans são pessoas, nós somos pessoas que temos total capacidade de contribuir para construir uma sociedade melhor. Precisamos de oportunidade, da possibilidade de sermos ouvidas, a partir da nossa perspectiva. 

Você pesquisou, em sua tese de doutorado, a cobertura midiática sobre a violência contra pessoas trans, especificamente em Minas Gerais. De que forma você avalia a abordagem da mídia ao tratar do assassinato de pessoas trans e travestis no estado?

Dayane Barretos – Dois casos que eu analisei foram o da Alice e o da Cristina, que também contribuíram para esse número grande de casos em Minas Gerais. Estamos na dianteira vergonhosa e muito triste de número de casos. Olhando para esses casos específicos, eles ganharam uma notoriedade muito grande, mais do que o normal. 

Vimos que a Antra, por exemplo, utiliza as matérias jornalísticas, para corroborar como fonte de dados. Muitas vezes elas sabem das mortes antes, mas, para mostrar que realmente aconteceram, utilizam matérias jornalísticas, para garantir que os casos são verídicos e dar respaldo para os dados que elas vão organizar. 

E o que a gente vê é que a maioria dos casos não ganham repercussão como esses dois citados. A maioria dos casos está na mídia como um corpo encontrado, travesti assassinada, de forma muito genérica. 

No caso da Alice vimos nas matérias muita gente lamentando aquela morte, dizendo que ela era uma menina ótima. Tinha uma matéria, que eu achei ao mesmo tempo boa e ruim,  elogiando ela como pessoa, tentando justificar o lugar de vítima dela. 

Muitas vezes, a narrativa policial que é utilizada como fonte para as matérias jornalísticas vai buscar motivações na prostituição ou no contato com o tráfico de drogas. Quando se trata de uma travesti ou de uma mulher trans que não tem esse envolvimento, isso é destacado, como se para justificar que ‘aqui temos uma vítima de verdade’. E a gente via, nas matérias da Alice, essa preocupação. 

Uma preocupação em uma humanização dela, em trazer falas de familiares, de amigos, e também de evidenciar o absurdo que é ela ter sido morta por conta de uma dívida de R$22, que nem foi comprovado se ocorreu realmente. 

No caso da Cristina aconteceu algo semelhante. A Cristina era uma figura bem conhecida no movimento trans de Belo Horizonte, por isso, causou uma comoção muito grande. Eu trabalho junto com o Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT, da UFMG, coordenado pelo professor Marco Aurélio Máximo Prado.

Lá eles têm um projeto que se chama Transpasse, que dá apoio jurídico e psicológico para pessoas trans em conflito com a lei. Cristina era uma figura muito central no Transpasse, ela era uma pessoa que passou pelo sistema prisional, e que dava apoio e contribuía nessa luta e no apoio à população trans nesse contexto. Ela também era uma pessoa muito querida.

O absurdo da morte ter sido à luz do dia, um espancamento tão grave pelo companheiro, também evidencia o contexto de feminicídio no Brasil. Enquanto uma parcela do movimento feminista vai negar o direito de ser mulher das mulheres trans, quando olhamos para esses casos, verificamos que sim, há uma vivência partilhada também na violência. Por mais que tenha diferenças e enxerguemos as diferenças na violência que pessoas trans estão submetidas no Brasil, a gente também vê essas semelhanças em casos como o da Cristina. 

É importante destacar isso. Dependendo de quem é a vítima, de como o caso ganha a repercussão, alguns elementos vão definir se essa cobertura jornalística vai ser mais cuidadosa, mais intensa, vai buscar por justiça, vai trazer outras vozes ou se ela vai se limitar a ser mais uma morte que está ali no jornal. 

Como podemos melhorar o cenário da cobertura jornalística sobre esses casos ? 

O que eu notei na tese, muito fortemente, é uma relação problemática com os relatos policiais. Há quase uma dependência completa daquilo que é produzido pela polícia. Eu tive acesso aos boletins de ocorrência e às matérias e, quando comparava, eram iguais. 

Às vezes, a matéria jornalística falava assim: “segundo tal testemunha”. Pelo tom parecia que tinha entrevistado alguém. Só que, quando víamos no boletim de ocorrência, era a versão de uma testemunha que falou com a polícia. Ou seja, era uma dependência total, na maioria dos casos. 

Vou dar um exemplo que não é de pessoas trans, mas que ajuda a entender isso: o caso da Ana Carolina Campelo, que era uma mulher lésbica super novinha, que morreu, em 2023, no Maranhão, também com requintes de crueldade, uma morte horrível. O caso começou a ser divulgado como um corpo encontrado de tal jeito. 

E aí começaram a cobrar: “não, espera aí, mas ela era lésbica, foi para lá para morar com a namorada, será que isso não tem um componente?”. A partir disso, as matérias foram agregando essas outras complexidades. 

Eu vejo isso acontecendo com os casos de pessoas trans também. Casos tratados a princípio como só mais um caso e, na medida que tem uma pressão do movimento social, de pessoas conhecidas ou das mídias sociais, a abordagem jornalística vai se complexificando. 

Dois elementos são fundamentais para pontuar. Um é ter pessoas que lamentam essa morte. Quando há uma voz, às vezes, de um familiar ou de alguém do próprio movimento social, questionando que Minas Gerais está no topo, junto com o Ceará, com um dos maiores números de mortes de pessoas trans no Brasil, é importante. 

A presença desse tipo de questionamento na cobertura contribui para uma conscientização social sobre essa emergência. Enquanto é só um corpo encontrado no Rio Arrudas, é só uma pessoa que foi baleada no meio da rua, mas que tinha envolvimento com o tráfico, ou um corpo de uma travesti encontrada em um ponto de prostituição seguimos na mesma. 

O boletim de ocorrência, por vezes, está muito bem formulado, muito bem escrito. Muitas vezes não está, mas algumas vezes está. Só que ele tem outro papel. Ele precisa elencar os elementos identificados na cena para que seja possível encontrar o autor, produzir o inquérito, a denúncia, para que a coisa siga no circuito da segurança pública e do sistema de justiça. 

O jornalismo não tem isso. Então, para que ele vai ficar apontando essas coisas tão preliminarmente, enquanto, por outro lado, não traz os dados de que o Brasil é um país que mata muitas pessoas trans, que Minas Gerais é um estado que mata muitas pessoas trans?

A Antra produz o relatório anualmente. Os dados do Atlas de Segurança Pública também estão trazendo dados de pessoas LGBT. Esses dados estão aí, mas só vemos eles sendo utilizados nas produções jornalísticas quando a coisa ganha uma repercussão maior. 

Um primeiro passo seria esse: ir além dessas narrativas policiais e buscar entender esse contexto. Dizer que isso não é um caso isolado. Porque, do contrário, morre e é só mais um caso isolado que aconteceu.

Quando eu dou o exemplo da Alice, com essa matéria que fica tentando buscar esse lugar de vítima para ela, eu entendo que, quando é uma pessoa trans, ela tem que ficar ali justificando que “não, ela não era prostituta, não era envolvida com coisa errada. Era uma filha amorosa, uma irmã muito querida, frequentava este espaço todos os dias”. Você tem que ficar usando todos os elementos para justificar que essa morte precisa ser lamentada. 

Para que consigamos enfrentar esse contexto, as matérias  terão que fazer isso não depois, quando a coisa ganha outra repercussão. Por que isso não é feito desde o início? Isso é fundamental para que a gente consiga também contribuir para combater a violência. 

Ao mesmo tempo que se observa uma hiper-visibilização da morte violenta de pessoas trans, cresce, cada vez mais, a agenda anti-trans, sobretudo no legislativo. Como essa agenda pode ser combatida pelos meios de comunicação? 

É possível ver nos discursos dos candidatos de extrema direita da Europa, dos Estados Unidos e daqui da América Latina muito forte essa disputa.

Tem uma personagem trans na novela das nove e uma personagem lésbica, evidenciando a humanização dessas pessoas. Como é importante termos esse tipo de produção. Isso mobiliza. As pessoas identificam isso na própria vivência delas. Não é uma pessoa desumanizada, um corpo encontrado, mas é um sujeito, como todos nós, que têm os mesmos direitos e que tem o direito de ter a vida valorizada.

A extrema direita não abre mão dos discursos mais radicais deles. Angariam votos e apoiadores com discursos radicais de extrema direita e a gente fica tentando amenizar o nosso discurso, não radicalizamos também, no sentido de não trazer realmente as pautas centrais para uma perspectiva progressista, porque tem que ficar amenizando o discurso. 

Sobre a dimensão da hipervisibilidade, o que notamos foi que falamos muito de apagamento, porque a vivência do LGBT é apagada. E, ao mesmo tempo, vemos nas matérias sobre as pessoas trans morrendo o termo mulher trans no título. Percebemos que isso também é pedagógico. 

Uma pessoa que pode estar se encontrando, pensando na transição, vai olhar para esse cenário e pensar muitas vezes. Sabemos de relatos de pais de pessoas trans e a maior preocupação não é a transição em si, mas a violência que a pessoa vai sofrer. 

Então, é pedagógico também quando se hipervisibiliza o chamado desvio, a dissidência, porque é como estar dizendo: esse é o destino de quem é assim. É esse destino que você quer para si? 

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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