O carnaval já está na porta e, pensando nisso, o Visões Populares entrevista hoje Rafa Ventura, multiartista, agitador cultural, cantor, compositor e gestor do bloco Abalo-caxi, bloco que arrasta multidões no domingo de carnaval. Ventura atua no Carnaval há pelo menos 14 anos, desde o ressurgimento do carnaval na capital mineira.
“Levar nossas famílias, significâncias e desejos para a avenida, esse é o Carnaval que eu ajudei a plantar e que seguimos plantando. Gritando por nós, gritando pelo nosso país, pela nossa cidade, mas também pelos nossos afetos, desejos e fantasias. Desejando que a fresta que se abre nesse período carnavalesco e possibilita tantas interações na base do amor e da alegria, se perpetuem ao longo do ano, neste que é um país do Carnaval”, defende Ventura.
Em nossa conversa abordamos a origem e o crescimento do carnaval de BH. Tratamos ainda dos ataques ideológicos que essa manifestação cultural vem sofrendo, das possibilidades de diálogo com o poder público e da importância política do carnaval.
Confira a entrevista na íntegra
Nós já estamos pertinho do Carnaval e em BH é comum dizermos que essa festa é de luta. Qual é a história da folia por aqui e porque o carnaval de BH é de luta?
Eu gravei um vídeo recente sobre isso, contando essa história, que uma das fontes sou eu. Porque eu estava lá em 2009, quando o prefeito, não vou nem citá-lo, porque não merece ser lembrado, mas o prefeito da época lançou um decreto proibindo eventos na Praça da Estação, que é o principal polo cultural aqui de Belo Horizonte.
Ele só não contava com a resposta e essa resposta veio através de um grupo de artistas, músicos e de uma população indignada, que se organizou na internet e ocupou a Praça da Estação como resposta ao tal decreto.
E foi assim que surgiu a Praia da Estação, o que deu nome àquele movimento. Pessoas de biquíni, sunga, com isoporzinho, com cachorro caramelo e com o seu batuque, ocuparam aquela praça a fim de protestar. E naquele improviso, ou naquela tentativa de protestar começou a sementinha do que viria a ser esse novo Carnaval de BH.
Nosso Carnaval é muito potente porque são muitos dentro de um
Já no ano seguinte a gente viu alguns blocos, que hoje arrastam multidões, começarem a nascer, começarem a brotar. E o que surgiu alí na praça, ficou grande demais e começou a tomar a cidade. E é como você bem colocou, nascemos de uma resposta política, de um corpo politizado, adentrando um espaço que sempre foi nosso e pegando isso para a gente.
Criamos essa narrativa nossa festando, celebrando de forma política, e de forma inteligente, reivindicando narrativas, pautas e esse espaço público, que tem que ser público não só no dito, tem que ser realmente nosso. Eu acho que o Carnaval vem dessa retomada, desse pegar o que é nosso de direito.
Desde 2009 quando começou essa retomada o Carnaval de BH vem só crescendo. Você acompanhou ao longo destes anos esse crescimento, a que você atribui ele e como ele impacta a cidade?
Em primeiro lugar, desde que esse movimento ressurgiu – porque é importante dizer que o Carnaval já existia em BH, inclusive o Carnaval de Rua, mas era um Carnaval menor – eu acho que a cidade desencaretou em vários aspectos e o aspecto cultural é um deles. Se hoje temos essa BH no centro, um polo cultural do Brasil, quiçá do mundo, eu tenho certeza que isso tem muita relação com o Carnaval.
Desencaretar os espaços e trazer essa noção de pertencimento ao cidadão belo-horizontino ou não. De que a rua é esse espaço potente culturalmente e enquanto ocupação mesmo, existência e dia a dia.
Vamos gritar no Carnaval pelo nosso país e pelos nossos afetos
Sobre o crescimento, eu acho que o nosso Carnaval é muito potente porque são muitos Carnavais dentro de um só carnaval. Não temos uma padronização, com todo o respeito, mas a gente não é o carnaval do Abadá. A gente é o carnaval das múltiplas fantasias e possibilidades, que vão desde o carnavalzão do centro ao da periferia, chegando lá no carnaval da Pampulha.
Ou ainda, se você quiser, se fizer sentido ir aos grandes shows, enfim, é um carnaval muito plural que contempla essa pluralidade. Então, acho que o folião de qualquer lugar se sente muito bem aqui, porque ele é realmente bem-vindo e tem para todo gosto.
Como lê hoje a relação dos agentes culturais que fazem o carnaval acontecer com o poder público municipal e estadual? Quais são os caminhos para aprimorar essa ponte?
Eu acho que o tipo de Carnaval, principalmente que o meu bloco faz, mas que vários blocos de rua fazem, é esse Carnaval politizado, identitário, com pautas e bandeiras. E ele não é bem quisto pelo poder público. Isso é um fato. O Carnaval surge assim, ele se afirma assim, anualmente, à medida que saímos e mantém-se essa essência. Carregando aquele espaço enquanto um palanque para as nossas questões.
O que eu vejo é que o cidadão belo-horizontino aprendeu isso e ele abraça o Carnaval. O poder público, não. Todo ano é um novo desafio ou uma nova contravenção que surge para impedir esse carnaval legítimo de rua de existir. Eles já entenderam que, em termos turísticos e financeiros, o carnaval é muito interessante.
Eles não entenderam e não aceitam que os responsáveis por essa retomada somos nós, blocos e que esse carnaval é tão potente, exatamente por ser tão identificado pela nossa existência.
Político desocupado, quando não tem o que fazer, inventam inimigos
São 612 blocos inscritos esse ano, se não me engano, e um edital de R$ 3 milhões, em que apenas 100 são contemplados. Paralelo a isso, você tem grandes shows, grandes artistas que não necessariamente têm ligação com a nossa cena local, vindo, adentrando e se perpetuando aqui. Zé Felipe, Michel Teló, qual a relação desses artistas com esse Carnaval? Com a nossa cena? Nenhuma.
Mas o palco dos grandes está garantido. E com isso, eu só queria deixar claro que, de forma alguma, eu sou contra esse movimento. Eu acho que, como eu disse, o que torna esse carnaval tão potente é a sua pluralidade, a sua diversidade. Então, sim, tem espaço para todo mundo. A questão é a desproporção.
Não faz sentido esses grandes artistas virem de fora e terem o seu palco garantido e nós, artistas da terra, fazedores do carnaval, que erguemos esse carnaval do nada, junto dos ambulantes, dos foliões e do cidadão, não termos o mínimo garantido. Hoje em dia, para você sair com um trio básico médio, gasta em torno de R$40 mil. Em um edital em que é repassado, só a esses 100 blocos, em torno de R$ 15 mil a R$ 42 mil, a gente não paga nem um som.
Falta diálogo, falta transparência, falta coerência, falta vontade mesmo de construir isso com a gente. Entendendo a democracia e entendendo que esse espaço vai continuar sendo nosso. Porque também não adianta o poder público vir e tentar pegar essa narrativa para eles, como já tentaram outras vezes, definindo se algo vai ser dito ou não vai. Também não é por aí.
É entender a potência, entender que o que mantém esse carnaval tão vivo somos nós e realmente valorizar. Agora, quando você me questiona sobre quais são os caminhos de construção, eu não sei, de verdade. Eu estou no Carnaval há 14 anos, hoje sou o gestor de um bloco e eu vejo que a gente não tem resposta nenhuma. A gente continua num grande escuro.
Me parece, apesar do Carnaval estar nesses números tão grandes e nessa prospecção tão grandiosa, que eu continuo fazendo o mesmo Carnaval de 14 anos atrás. Na raça, na luta, na briga, ainda peitando o sistema. Um sistema que poderia nos abraçar dado o tamanho do que fazemos hoje em BH.
Como se dá a organização dos blocos para pleitear esses direitos e fazer o diálogo com o poder público?
Aí está algo que eu posso fazer uma meia culpa, apesar de também estarmos em movimento. Acho que somos corpos muito plurais, com visões um pouco diferentes sobre o Carnaval, mas um mesmo desejo: que ele continue, na sua essência, acontecendo, existindo, e se potencializando. Que os blocos de rua que originaram isso sigam crescendo e tendo o seu espaço garantido.
Hoje tem sim ligas, existem diálogos também com o poder público. Há vereanças que também nos apoiam e nos aportam, fazendo questão de que essa manifestação legítima continue seguindo. Mas há também essa dificuldade, que eu acho que é uma dificuldade de formação, de educação, de termos consonância no discurso.
Os movimentos culturais poucas vezes se veem nesse lugar, de organização institucional, dessa organização verbal mesmo. Então é uma falha, mas é um caminho que estamos abertos a construir e estamos tentando.
Qual a sua opinião sobre a presença de atrações nacionais no carnaval de BH?
Penso, como eu disse, que o palco dos grandes está garantido e o dos fazedores de carnaval dessa cidade não está. Isso é uma incongruência tremenda. Se você garantir o cachê da estrela nacional em detrimento da estrela local ou do fazedor local, qual é o futuro? Como é que conseguiremos pensar em um Carnaval, que veio da gente, se mantendo e perpetuando?
Eu acho que corremos um sério risco de identidade do nosso carnaval, quando esses artistas começam a vir na casa, enquanto a casa não está organizada. Uma coisa é o artista ser o visitante, que vem para somar. Outra coisa é ele virar o dono da casa. E eu temo que o caminho que o poder público vem trilhando seja esse. Um caminho de padronizar o Carnaval, virar um Carnaval como tem vários por aí.
Essa alegria é o povo retomando o seu lugar de origem que é a rua
E aí eu não acho que tenha estrela nacional que salve o nosso Carnaval deste que é um fracasso fadado, caso esse caminho se perpetue. O que me incomoda e me afeta é a desproporção. O artista de fora é bem-vindo, ele pode somar ou ele pode acontecer em paralelo, mas não em detrimento dos trabalhadores da cultura da cidade. Não cabe.
Me mostra um emburrecimento do poder público para a potencialidade que é o nosso Carnaval, como ele se configurou e se configura.
No mesmo dia que o cantor Bad Bunny fazia história com um show no Super Bowl que defendia a pluralidade e a identidade latino americana, o bloco Circuladô, aqui em BH, ocupou a avenida Afonso Pena com intervenções artísticas que reforçaram a defesa da soberania brasileira. Você enxerga o Carnaval como uma ferramenta de valorização da nossa identidade e de que forma isso se conecta a defesa da nossa soberania? Você acha que o tema deve aparecer bastante nos cortejos deste ano?
Falando muito por mim e pelo meu bloco, que é um bloco totalmente fora do armário, a gente está reivindicando a soberania dos nossos corpos, das nossas identidades, das nossas pluralidades, dos nossos amores, em primeiro lugar. O que a gente se propõe a fazer em Belo Horizonte é ocupar o centro da cidade, a Praça 7, à luz do dia, em um domingo de Carnaval, ou seja, um dia extremamente concorrido e levar as nossas famílias, as nossas significâncias, os nossos desejos para a avenida.
Esse é o carnaval que eu ajudei a plantar, lá atrás, e é esse o carnaval que a gente segue plantando agora, gritando por nós. Gritando pelo nosso país sim, gritando pela nossa cidade, mas também pelos nossos afetos, pelos nossos desejos, pelas nossas fantasias. Desejando que essa fresta, que se abre nesse período carnavalesco, que possibilita tantas interações na base do amor ou da alegria e da celebração, se perpetue ao longo do ano, nesse que é um país do Carnaval.
Essa é a identidade do nosso Brasil, um país democrático, um país aberto ao novo, um país solto, alegre, sorridente, cultural e diverso. Eu acho que isso vai pipocar muito, em relação a manifestações pró soberania ou contra a anistia. Manifestações politizadas a favor das minorias, que de minoria não tem nada, a favor dos pretos, a favor das LGBT+, das mulheres. Porque o nosso Carnaval se configura assim, e é por isso, exatamente, que ele incomoda tanto o poder público e é por isso que eles querem tanto nos silenciar.
No último dia 3, poucos dias antes do carnaval, a Câmara Municipal de Belo Horizonte (CMBH) aprovou em primeiro turno a proposta que restringe a presença de crianças e adolescentes em eventos carnavalescos e artísticos que apresentem conteúdos “inapropriados” para a faixa etária. Como você entende essa medida? E de que forma ela se articula a outros ataques à cultura popular que tem tido grande espaço na Câmara Municipal de BH?
Eu acho que político desocupado, quando não tem o que fazer, eles inventam inimigos. Os inimigos da vez são a drag, o tamborim, o terreiro. Absurdo, inconstitucional, e eu acho que isso por si só já quase mina o debate, porque não há o que se debater. No nosso país já há órgãos reguladores e órgãos que cuidam verdadeiramente das crianças. O Estatuto da Criança e do Adolescente está aí para isso.
Eles usam a gente o tempo inteiro como cortina de fumaça, como desvio de foco do que realmente tem que acontecer. É muito mais fácil proibir crianças no Carnaval do que colocar comida na merenda escolar. Eu aposto que se esse PL fosse um PL para aprovação de contratação de novos professores ou da manutenção de um salário digno para essa galera que faz o corre, ele estaria parado na câmara.
Para mim não passa. É só mais um barulho, um barulho infernal, porque isso traz consequências muito sérias para populações e para pessoas que já são estigmatizadas, como nós, LGBT+. Isso reacende pautas que, inclusive, já deviam estar criminalizadas. Porque de novo contestam os nossos corpos, contestam nossos amores, contestam nossas famílias. Mas nada de novo sobre o sol.
Para finalizar em clima de festa, que blocos você indica no carnaval de BH em 2026 e por que?
Eu vou fazer uma propaganda do meu bloco, venha para o Abalô-caxi, domingo de carnaval, 9 horas, na Praça 7. É um bloco para todas as diversidades e adversidades também. A gente está disposto a construir, somar com todo mundo.
Blocos imperdíveis em BH, vou puxar sardinha para Corte Devassa, que foi meu primeiro bloco. Um bloco de artistas que surge no Cetap, no Palácio das Artes e que ainda tenta fazer um Carnaval menorzinho tradicional. É imperdível, na segunda-feira, 10 horas da manhã, na Rua Sapucaí.
Outros blocos legais: A Roda, Angola de Janga, Magia Negra. Enfim, vários blocos, alguns descentralizados ou menores, mas que são fundamentais para a perpetuação dessa cultura que eu acredito que fez a diferença no Carnaval de BH.
E eu só deixo aqui um pedido ao folião que vem de fora: ao pisar nessa terra, tente entender onde você está pisando, venha com respeito, venha com um jeitinho. Respeitando aqueles que vieram e celebrando a nossa alegria, porque essa alegria que vamos celebrar com mais de seis milhões de pessoas é uma alegria conquistada. Ela é o povo retomando o seu lugar de origem que é a rua. Então festeje muito porque só se faz jus ao Carnaval assim, celebrando.
