Os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, iniciados em 28 de fevereiro, já causaram a morte de ao menos 787 pessoas, incluindo o líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei. Diante disso, o Visões Populares conversa com Rose Martins, internacionalista formada pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e mestra em economia política internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Os Estados Unidos quebram acordos e regras como desejam, se acharem conveniente
“Os países ocidentais não estão preocupados com a vida das mulheres no Irã, embora essa seja a principal bandeira levantada por eles publicamente. Eles miraram uma escola primária e assassinaram mais de 150 meninas iranianas. Não foi um efeito colateral de um ataque, foi um ataque específico, localizado. A escola foi vista como um alvo a ser atingido”, destaca a especialista.
Pesquisadora da geopolítica da Rússia no pós-Guerra Fria e comunicadora nas redes sociais, Martins analisa o estágio atual do conflito, seus desdobramentos regionais e globais, os impactos para o Brasil e os riscos de uma escalada para uma guerra de maiores proporções.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato MG – O que explica o conflito entre Israel, Estados Unidos e Irã?
Rose Martins – Fazendo um resgate histórico importante para entendermos porque esse conflito estourou agora, em 2015, o Irã, junto com os países membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas e a Alemanha, fechou um acordo em torno do seu programa nuclear. Nesse acordo, o Irã fazia várias concessões e se comprometia a não ter um programa nuclear ofensivo. Isso significa não desenvolver armas nucleares táticas e estratégicas e, como costumamos falar de forma popular, não construir a bomba atômica.
O Irã aceitou esse acordo tendo um programa nuclear somente para fins pacíficos e o cumpriu, segundo a própria Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Mas, em 2018, quando Donald Trump chegou ao poder, ele se retirou unilateralmente desses acordos e passou a implementar uma política muito ofensiva de sanções econômicas ao Irã.
Os protestos no Irã do final do ano passado e do início deste ano são, em grande parte, por conta dos problemas econômicos que o Irã sofria devido às sanções impostas pelos Estados Unidos, muitas vezes auxiliados por seus parceiros europeus.
Quando os Estados Unidos se retiraram desse acordo, ficou uma situação meio nebulosa. O Irã ainda formalmente fazia parte, mas uma das partes não estava presente. Com a Guerra dos 12 dias, de junho do ano passado, finalmente, esse acordo deixou de existir, tanto que os europeus passaram a sancionar o Irã novamente, com base no encerramento do acordo.
Nas últimas negociações, o tema seria novamente um acordo em relação ao programa nuclear iraniano e às capacidades do Irã de ter realmente armas nucleares. Os Estados Unidos, mais uma vez, queriam que o Irã fizesse uma série de concessões. O Irã já vinha, ainda que sentado à mesa de negociações, sendo atacado, por exemplo, na guerra dos 12 dias, mas também em outros episódios em que Israel e os Estados Unidos fizeram ataques.
Em abril de 2024, por exemplo, Israel atacou o anexo da embaixada do Irã na Síria e matou generais de alta patente ligados à Guarda Revolucionária iraniana. Ou seja, já havia outros episódios de atrito. Digamos que o Irã já estava escaldado sobre o que deveria negociar neste momento. Mesmo assim, tudo indicava que o Irã estava prestes a fazer concessões, mais uma vez, em torno do seu programa nuclear, para os Estados Unidos.
O fato é que, como ficou demonstrado, os Estados Unidos quebram acordos e regras como desejam, se acharem conveniente. Donald Trump se retirou do acordo de 2015 em 2018, mesmo que o Irã o estivesse cumprindo. Agora, nada iria garantir ao Irã que, fazendo mais concessões em torno de um programa nuclear ofensivo, ele não seria novamente atacado pelos Estados Unidos e por Israel.
E em que pé do conflito nós estamos neste momento?
Muito diferente de outros episódios, o que estamos assistindo agora é o conflito se regionalizando e o Irã demonstrando uma forte capacidade de ataque. O Irã tem debilidades defensivas, o que já ficou claro em outros momentos, inclusive na guerra dos 12 dias. Tem capacidades em relação ao seu sistema de defesa aéreo, mas há questões ligadas à inteligência. Na guerra dos 12 dias, é importante lembrar, os engenheiros nucleares do Irã foram mortos em suas residências. Ou seja, havia infiltrados e informações vazadas.
Nos protestos de dezembro e janeiro, que começaram como protestos legítimos em torno da situação econômica do Irã, que não é fácil, depois ficou comprovado que havia participação da CIA e do Mossad, que é a inteligência de Israel. Então, o Irã tem essas debilidades, mas tem uma capacidade ofensiva, e esse é o pé em que a guerra está agora.
O Irã já atacou bases norte-americanas naquela região, no Kuwait e no Bahrein; atacou a embaixada dos Estados Unidos nos Emirados Árabes, que é considerada território dos Estados Unidos; e parece que atacou uma refinaria da Arábia Saudita.
A história está se desenvolvendo, as coisas estão muito a quente, mas o que podemos dizer de concreto neste momento é: o Irã demonstrou ter capacidade de responder aos ataques dos Estados Unidos. E não somente capacidade, porque muitos analistas já entendiam que o Irã a tinha, mas ele mostrou disposição em responder.
Também há algo altamente simbólico, que foi a morte do aiatolá Khamenei, o líder supremo do Irã. Para eles, isso tem outro significado, o islamismo tem uma questão com o martírio, uma simbologia em torno disso. Quer dizer que eles não estão se sentindo derrotados, mas obviamente é um golpe duro e, portanto, demanda uma resposta dura.
O que temos de concreto neste momento é que o Irã demonstrou disposição e capacidade de impor prejuízos políticos e econômicos aos Estados Unidos e também ao Estado de Israel. Eles demonstraram efetivamente ter capacidade de responder a esses ataques.
Como você vê o posicionamento russo diante do conflito? De que forma outros atores, como a China e a União Europeia, devem se posicionar daqui em diante?
A Rússia não tem envolvimento direto nesse conflito, mas tem relações altamente estratégicas com o Irã. O Irã é um grande fornecedor de drones que a Rússia utiliza, em larga escala, na guerra da Ucrânia; inclusive, drones de tecnologia iraniana, através de um acordo tecnológico, são produzidos dentro da Rússia. Em janeiro do ano passado, Rússia e Irã também fecharam acordos de cooperação em diversas áreas.
O que eles não têm é uma aliança militar que pressuponha defesa mútua, em que se um país for atacado, o outro precisa agir em socorro, como é o caso do acordo que a Rússia tem com a Coreia do Norte. Não é o caso do Irã. O Irã também utiliza sistemas de defesa antiaérea da Rússia. Então, há uma cooperação tecnológica e militar entre os dois países e uma proximidade política muito importante. A Rússia não está totalmente alheia a esse conflito.
Em relação à China, há especulações de que os chineses também têm uma cooperação com o Irã, talvez não tão clara quanto a que estamos assistindo com os russos, sobre sistemas de satélite, além da proximidade política. No caso russo, acho que está mais explícito.
A Rússia tem essa proximidade maior com o Irã, apesar de não estar atuando diretamente, mas existe uma cooperação tecnológica e militar. Quanto aos chineses, o que os analistas militares mais sofisticados dizem é que eles também têm trocas com o Irã.
Os países europeus, como sempre, já saíram, com exceção da Espanha, em defesa das políticas dos Estados Unidos e do Estado de Israel. Emmanuel Macron falou que estava preocupado com o aumento da violência, mas, antes mesmo de o Irã demonstrar essa capacidade de resposta, ele já estava condenando uma resposta iraniana e dizendo que o Irã não deveria atingir as bases dos Estados Unidos na região.
Os europeus, neste momento, agem como parceiros e aliados dessa estratégia dos Estados Unidos, como em outros momentos da história e em outros conflitos que estão se desenrolando, como a guerra da Ucrânia.
A China tem uma relação econômica muito importante com o Irã. Em torno de 80% a 90% de todo o petróleo que o Irã vende é para a China, em moeda local. Lembrando que o Irã é um país altamente sancionado pelos Estados Unidos, inclusive financeiramente, no uso do dólar. O Irã faz parte da Nova Rota da Seda da China e controla o Estreito de Ormuz, por onde passa um terço do petróleo mundial transportado via marítima e 40% de todo o petróleo que a China importa.
Então, o Irã tem uma posição altamente estratégica, já que controla uma passagem em que os chineses têm uma dependência forte para obter energia. E os chineses, como sabemos, são os maiores importadores de petróleo do mundo. O Irã tem uma posição geoestratégica importante para a China.
A grande pergunta dos analistas é: a China e a Rússia vão deixar o Irã cair? No caso chinês, isso significaria dificuldades imediatas de obtenção de energia, o que implica desaceleração econômica interna, problemas inflacionários e todas as consequências de quando o preço da energia sobe internacionalmente. Esse é o quadro. Está muito em aberto ainda; dependerá do nível de escalada para vermos qual é efetivamente a disposição desses atores.
Irã demonstrou disposição e capacidade de impor prejuízos políticos e econômicos aos Estados Unidos
Nas primeiras semanas de 2026 o Irã foi tomado por uma onda de protestos motivados pela situação econômica do país. Os protestos foram reprimidos e, algumas semanas depois, aconteceu este ataque contra o país. Você acredita que as duas situações podem ser relacionadas? Qual é a possibilidade de que os EUA consolidem uma mudança de regime no Irã?
É impossível falar sobre o Irã ou outros países do sistema internacional e sua situação econômica sem colocar no centro o impacto que as sanções dos Estados Unidos têm. Tanto as sanções financeiras, que excluem esses países dos meios de pagamento e financiamento internacional, quanto as sanções econômicas, que os proíbem de fazer comércio não somente com os Estados Unidos, mas com países terceiros.
Eles amarram o país a uma política de sanções que o torna tóxico. Se uma empresa russa faz comércio com o Irã, ela não consegue fazer comércio em dólar ou pode ser sancionada para não fazer comércio com os Estados Unidos. É realmente um sistema que coloca a economia desses países em grande vulnerabilidade; é o caso do Irã, da Venezuela e o caso mais longevo, o cubano, que vive sob um embargo.
No caso do Irã não é diferente. O país vem tentando sobreviver às sanções impostas pelo governo Donald Trump, em 2018, que foram muito severas e despencaram os índices econômicos. Além disso, em 2025, o Irã estava passando por uma crise hídrica muito severa, o que atrapalha os aspectos mais básicos da vida das pessoas, e elas querem respostas.
Além de Donald Trump ter aumentado a pressão sobre o Irã neste segundo governo, o que chamam de “pressão máxima”, com novas rodadas de sanções e ordens executivas, os países europeus que faziam parte do acordo de 2015 — Reino Unido, Alemanha e França — também impuseram mais sanções.
Naquele acordo, caso o Irã não estivesse cumprindo os termos, havia um mecanismo chamado snapback, que significa a volta automática das sanções. Depois da guerra dos 12 dias, esses países, especificamente a Alemanha e o Reino Unido, disseram que o Irã não estava cumprindo o acordo e que as sanções voltariam. Então, houve mais uma camada de pressão para a economia iraniana.
Efetivamente, esses protestos começaram de forma legítima entre a população, que estava descontente com as condições econômicas, entre o final de dezembro e janeiro. Teve muita repressão, é verdade, mas era um cenário extremamente difícil para o próprio governo iraniano.
O Mossad, serviço de inteligência de Israel, disse abertamente que os iranianos deveriam resistir e que eles estavam com os iranianos, não somente em pensamento, mas em campo. Há relatos também de que a CIA estava atuando nesses protestos.
Então, as manifestações começaram a ficar muito violentas, primeiro por parte das pessoas que estavam protestando aliadas a essas inteligências. O governo do Irã teve de dar uma resposta, porque ficou totalmente claro que havia presença estrangeira. Eles não tiveram sucesso. Agora, depois dos ataques, já há nos Estados Unidos uma descrença sobre a possibilidade de promover uma mudança de regime no Irã.
O Irã tem um processo de construção da sua identidade e da sua política, desde a revolução de 1979, que é muito robusto. Podemos ter várias críticas, pois temos costumes e sociedades construídos de forma diferente. Mas a verdade é que eles têm uma coesão social em que a maioria da população apoia o processo da revolução e o governo.
Há também a impressão de que, por falarmos em “líder supremo” e escutarmos que o Irã é uma teocracia, existia aquela figura, de mais de 80 anos, que mandava e desmandava. Mas o Irã tem parlamento, tem uma série de conselhos, tem o exército e a Guarda Revolucionária.
Há uma cadeia política bastante pulverizada e, portanto, não é porque o líder foi assassinado pelas forças dos Estados Unidos e de Israel que não vai existir um processo de transição. Esse processo já está ocorrendo. Inclusive, os registros são de que a sucessão já estava sendo discutida, até porque o Aiatolá Khamenei era um homem idoso.
Justamente por terem vários conselhos políticos e um emaranhado institucional, para muito além do que se vende como uma teocracia ou ditadura, fica muito difícil imaginar que os Estados Unidos conseguirão uma mudança de regime.
Há um tempo, Donald Trump disse que a figura mais viável para uma mudança de regime no Irã seria o herdeiro do Xá, da ditadura anterior à revolução, mas ele não tem apoio social, não era possível uma mudança, já que essa figura mais viável não tinha apoio popular no Irã.
O Irã é uma sociedade muito viva. Recentemente, há um ano, as mulheres iranianas protestaram e conseguiram tirar a obrigatoriedade do hijab. As pessoas são muito conectadas politicamente. O Irã tem grandes universidades, uma produção intensa de engenheiros e acadêmica. Tem um sistema público de saúde muito avançado.
A maioria das pessoas alfabetizadas e com curso superior são mulheres. Elas participam da vida política, mas, como toda sociedade, têm seus problemas. O que não nos cabe é achar que vamos dizer ao Irã o que fazer, e muito menos apoiar que outro Estado queira implementar um governo fantoche ou artificial.
Os países ocidentais não estão preocupados com a vida das mulheres no Irã, embora essa seja a principal bandeira deles. As mulheres iranianas têm seus processos políticos, se manifestam e nós devemos apoiá-las. No entanto, fica a pergunta: será que eles estão tão preocupados com a vida das mulheres iranianas, uma vez que miraram uma escola primária de meninas e assassinaram mais de 150 delas? Não foi um efeito colateral de um ataque, foi um ataque específico, localizado. Aquela escola foi vista como um alvo a ser atingido.
Qual é a finalidade desse tipo de ataque?
É algo que nos assombra muito, porque realmente nos fazemos essa pergunta: por que atacar uma escola de meninas? Eles têm ataques de alta precisão, portanto, o alvo foi escolhido.
O que posso dizer é que são os métodos do sionismo infanticida e dos pedófilos. Em Gaza, desde 7 de outubro de 2023, a maioria das vítimas são mulheres e crianças. São métodos para causar terror, para criar uma situação em que as pessoas fiquem desesperadas e digam: “para não atacarem outra escola, vamos promover grandes protestos e derrubar este governo”.
Eles querem deixar as pessoas desesperadas. Acho que a explicação caminha por aí, porque é assombroso mirarem uma escola primária de meninas. É contraditório e revela a hipocrisia do imperialismo norte-americano, que diz defender os direitos humanos. Eles fazem isso há muito tempo, essa ideia de mudança de regime, de levar a democracia e derrubar governos autoritários para supostamente defender o povo.
Temos uma série de exemplos para dizer que isso é balela e que as ações são guiadas por interesses próprios. É o caso da Líbia, do Afeganistão e do Iraque, países que foram devastados sem que houvesse uma mudança real na vida das pessoas, um regime democrático ou prosperidade econômica. A inteligência norte-americana e o Departamento de Estado e o Pentágono entenderam que essas bandeiras podem convencer a comunidade internacional de que os Estados Unidos têm o direito de agir como a polícia do mundo.
Com Donald Trump, há uma pequena diferença: em alguns momentos ele não está muito interessado nesse tipo de discurso. Ele ataca os países e não gasta muito tempo tentando convencer as pessoas de que os Estados Unidos são um modelo a ser seguido, como o governo Obama fazia.
Muito tem se falado sobre o objetivo interno de Trump ao provocar uma atmosfera de conflito mundial constante, como forma de criar uma ‘cortina de fumaça’, quanto ao caso Epstein. Há análises inclusive apontando que o primeiro-ministro israelense, Netanyahu, usou seu poder dentro da política estadunidense para arrastar os EUA para o conflito. Como você avalia o impacto deste conflito na política norte-americana?
Tendo a ver as coisas por outro lado. Acho que a questão dos arquivos Epstein talvez tenha muito menos peso do que as pessoas imaginam para essa intervenção no Irã. Olho muito mais para a política estrutural dos Estados Unidos e para o processo de retomada da hegemonia plena no sistema internacional.
Eles tiveram de lidar com duas realidades: a reconstrução russa, a partir do início dos anos 2000, e a consolidação da ascensão chinesa, com uma mudança na projeção da política externa, a partir da chegada de Xi Jinping ao poder. Os chineses saíram daquela postura pautada somente pela diplomacia comercial e foram, de forma gradual, se envolvendo em temas internacionais, promovendo a modernização das forças armadas e acelerando seu programa nuclear.
Vejo os ataques à Venezuela e essa guerra contra o Irã como uma forma de maior projeção dos Estados Unidos para a retomada dessa hegemonia e para lidar com a competição com a China. O governo Trump mostrou que a estratégia, diferentemente da dos democratas, não é um confronto duplo com Rússia e China, mas tentar neutralizar a Rússia e lidar diretamente com os chineses.
A disposição para entrar nesse conflito com o Irã e o ataque à Venezuela estão relacionados à estratégia de retomada de hegemonia e de como vão encarar a China. No caso do Irã, já falei sobre a importância do Estreito de Ormuz para a obtenção de petróleo pelos chineses e o que isso significa para a máquina econômica deles. No caso da Venezuela, além do desejo expresso no documento de segurança do final do ano passado de ter maior influência na América do Sul, o país tem as maiores reservas de petróleo do mundo.
A China tinha presença na Venezuela nos setores de energia e telecomunicações, com contratos futuros de petróleo, e a Rússia também participava, inclusive com cooperação militar. A tomada da Venezuela serviria para expulsar esses dois países, e o caso do Irã também tem relação com a China. Acho que esse conflito tem esse fundo estrutural, muito mais do que questões de conjuntura.
Sobre a base de Trump, a base Maga, ele foi eleito com uma plataforma dizendo que não se envolveria em guerras. Há podcasters ligados à extrema direita demonstrando sua insatisfação, pois acham que os Estados Unidos deveriam se voltar para si e recompor sua capacidade industrial para competir tecnologicamente e economicamente com os chineses, em vez de gastar o dinheiro do contribuinte em guerras. Uma das críticas dessa base é que os Estados Unidos estão entrando em uma guerra que é do Estado de Israel.
Nesse núcleo duro, há muitas críticas à relação com Israel, alegando que os Estados Unidos sofrem prejuízos para defender interesses alheios. Acho que isso tem seu peso, mas minha análise é de que os Estados Unidos estão se movendo para deter o poder da China, atacando seus parceiros e fornecedores de petróleo para controlar quem acessa as grandes reservas mundiais. Essa é uma estratégia de longo prazo: dominar militarmente as rotas de energia e decidir quem terá acesso a elas. E sabemos que, para o desenvolvimento de um país, lamentavelmente, o petróleo ainda é fundamental.
Como o Brasil é impactado por esse conflito e como deve ser o nosso posicionamento diplomático?
O posicionamento diplomático é o único possível, pois o Brasil não tem capacidade de intervir, mesmo tendo boas relações com o Irã e fazendo parte dos BRICS. Eu não gosto muito da linguagem diplomática do Itamaraty, acho muito branda. O Itamaraty deveria se posicionar de forma mais dura, não para medir forças com os Estados Unidos, mas pelo fator pedagógico para a população brasileira e para a militância.
Deixar claro que o Brasil condena veementemente a violação de soberania de outro Estado ou que um Estado seja vítima de um ataque tão vil como esse, sem que o Irã tivesse dado qualquer indício de que atacaria os Estados Unidos, como o próprio Pentágono admitiu. Disseram que o governo norte-americano não vai conseguir provar que era um ataque preventivo. A diplomacia brasileira deveria ter uma postura mais enfática de condenação.
O Brasil, neste momento, não pode fazer nada além disso. Mas a situação nos preocupa, pois um terço do petróleo transportado via marítima passa pelo Estreito de Ormuz. Qualquer ataque ou insegurança ali faz subir o preço. Ontem, o petróleo amanheceu 10% mais caro, e isso gera uma reação inflacionária em cadeia.
Essa pode ser uma das estratégias do Irã para infligir danos aos Estados Unidos, já que o mundo inteiro não vai querer que o preço da energia suba tanto. Isso afeta o preço do diesel e de quase todos os produtos, até o pão que você compra fica mais caro. Para o Brasil, a instabilidade é ruim devido aos problemas inflacionários.
Como você enxerga a possibilidade de alastramento do conflito?
Os Estados Unidos criam e destroem regras e acordos conforme seus interesses. Eles não são parceiros confiáveis, e isso ficou claro para o Irã. Retiraram-se de um acordo em que o Irã fez concessões e, anos depois, o país é atacado e seu líder máximo é assassinado. Eles estão em um momento de desejo de retomada da hegemonia plena de forma altamente agressiva. Querem voltar à situação dos anos 90, de um mundo unipolar, onde arbitravam sobre todas as questões internacionais.
O que pode mudar esse quadro são as forças sociais internas dos Estados Unidos. Teremos eleições de meio de mandato e a expectativa é de uma derrota do Partido Republicano. Há especulações de que Trump possa tentar um golpe, mas quem pode realmente alterar o curso da história é o povo norte-americano.
Sobre a guerra ganhar maiores proporções, a regionalização parece já estar ocorrendo. Israel está atacando o Líbano, o Hezbollah está respondendo e o Irã está atacando bases americanas no Kuwait, no Bahrein e, possivelmente, na Arábia Saudita. Os acontecimentos ainda têm muito de propaganda, mas o fato é que o Irã já está respondendo para além de Israel.
No Bahrein, a população foi favorável ao ataque do Irã à base estadunidense local. Isso pode levar a uma situação em que forças populares desses países entrem no conflito. Os Houthis, no Iêmen, também disseram que lutarão ao lado do Irã, para vingar o aiatolá. Esse conflito não está restrito ao Irã e a Israel.
Do ponto de vista global, há analistas que dizem que já vivemos uma Terceira Guerra Mundial, com conflitos travados em territórios de terceiros, como na Ucrânia, onde a Rússia luta contra forças da OTAN, seriam indicativo disso. Sou mais moderada nessa linha, não acho que estejamos em um conflito generalizado de Terceira Guerra Mundial, mas os focos de tensão aumentaram e podemos estar cada dia mais próximos de um enfrentamento direto entre as potências.
