O Brasil de Fato MG entrevistou uma das figuras mais emblemáticas na luta por direitos da população em situação de rua no Brasil. Aos 80 anos, Cristina Bove carrega mais de meio século de militância construída nas ruas, nas comunidades e nos espaços de formulação de políticas públicas.
Uruguaia de origem e brasileira de caminhada, Bove chegou ao país ainda jovem, movida por uma inquietação profunda com a desigualdade social. Desde então, foi parte da construção da ideia de “povo da rua”, em contraposição a termos estigmatizantes, e esteve na linha de frente da organização de catadores e catadoras, da criação da Pastoral de Rua e de iniciativas como a Associação de Catadores de Papel, Papelão e Materiais Reaproveitáveis (Asmare), referência nacional em economia solidária e reciclagem.
Sua trajetória mistura fé, política e ação concreta. Influenciada pela Teologia da Libertação e pelas comunidades eclesiais de base, ela defende uma atuação que vai além da assistência, uma prática construída com o povo, reconhecendo sua dignidade, seu saber e seu protagonismo. Ao longo das décadas, participou da articulação de políticas públicas em Belo Horizonte e no Brasil, incluindo a Política Nacional para a População em Situação de Rua.
Nesta entrevista, ela revisita essa caminhada, relembra episódios de violência e resistência, e reflete sobre temas urgentes, como moradia, justiça social e o papel da sociedade diante da pobreza. O diálogo com Cristina Bove marca mais uma Campanha da Fraternidade, da Igreja Católica, que, em 2026, ocorre sob o tema Fraternidade e Moradia, com o lema “Ele veio morar entre nós”.
Campanha da fraternidade pode ajudar a sociedade a enxergar que a moradia é a base para a dignidade
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato MG – O que mais marcou o início da sua caminhada?
Cristina Bove – Tinha uma questão que me incomodava muito quando era jovem: a injustiça social. Saber que existia uma situação de pobreza e que havia pessoas que realmente não tinham como sobreviver. Eu vim de um lugar social diferente e, quando comecei a conhecer essa realidade, fiquei impactada. Resolvi assumir um compromisso de vida.
Também foi a partir de uma opção religiosa que vim primeiro ao Brasil para conhecer e saber o que estava acontecendo. Acabei ficando; fui me apaixonando por essa história e permaneci.
Saí de Montevidéu, no Uruguai, e fui morar em Recife. Morei em uma casa que acolhia meninos de rua. Era uma casa de porta aberta onde eles podiam ficar o tempo que quisessem. Ali fui conhecendo a realidade da rua. Naquele tempo, havia muita criança na rua, sobretudo no Nordeste.
De que forma a fé e a experiência nas comunidades da igreja influenciaram a sua escolha de atuar diretamente com o chamado “povo da rua”?
Eu conheci uma fraternidade que fazia uma opção diferenciada. Era um grupo de pessoas que assumiam, inclusive, ter um trabalho e se sustentar por ele. Também assumiam não ter bens próprios. Era uma fraternidade que queria ser pobre e viver no meio dos pobres. Foi isso que me impulsionou a querer uma vida religiosa diferenciada, que não estava vinculada a conventos. Era uma vida comum de alguém que se comprometia com o povo. Esse era o principal objetivo: conviver, estar junto e, a partir daí, organizar a vida.
Esse modo de ser, que radicalizava no sentido de não querer bens e de se sustentar pelo próprio trabalho, chamou minha atenção e me fez fazer essa opção. Ao longo do tempo, a caminhada da igreja na América Latina, sob a influência do Concílio Vaticano II, das comunidades eclesiais de base, da opção pelos pobres e da luta pela justiça, foi fortalecendo todo esse processo. Encontramos na bíblia e na vida respostas fundamentais para nos comprometermos.
Como foi a atualização desses movimentos da igreja ao longo do tempo?
O ‘reino de Deus’ aqui e agora nos compromete na luta pela justiça
Temos que reconhecer o encontro que foi feito com a Teologia da Libertação. Acho que ela nos traz respostas fundamentais para atualizarmos o “Reino de Deus” que acontece aqui e agora. Não é um “Reino de Deus” que está longe, mas algo que nos compromete na luta pela justiça. Seja na vida dos profetas que nos questionam e impulsionam, como Isaías, ou no entendimento de que eles abraçaram e protegeram o povo, buscando alternativas e trazendo a certeza de que Deus caminha com os seus.
Deus escuta o clamor do povo da rua. O povo da rua é o povo de Deus que está a caminho de uma libertação
Deus escuta o clamor desse povo. Eu tenho certeza de que Deus escuta o clamor do povo da rua. O povo da rua é o povo de Deus que está a caminho de uma libertação. É um povo sofredor que também é luz porque, pela sua história e modo de viver, anuncia que é possível um outro mundo. Novos céus e nova terra têm que acontecer aqui agora, nesse reinado de Deus.
Havia uma compreensão de que era preciso caminhar junto com o povo da rua e não apenas prestar assistência. Qual é a importância disso?
No final dos anos 1970, morávamos em São Paulo e tínhamos a inquietação de como a população de rua e os catadores de material reciclável poderiam entrar nessa caminhada de libertação, sem serem meros “assistidos”.
Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal de São Paulo, foi muito firme quando nos disse: “Vocês têm que levar esse estilo de comunidades eclesiais também para o centro da cidade; não pode ser só nas periferias ou no campo”. Isso era um desafio urbano, tínhamos que fazer comunidade com o povo.
Isso foi como uma luz. Havia muitas instituições de assistência naquele momento, locais humanizados, mas que não tinham o “ser comunitário”. Nós fechamos tudo isso e, em 1980, fomos para a rua. Recomeçamos o trabalho a partir da rua, fazendo rodas de conversa e estimulando o pessoal a se organizar.
Lembro que o primeiro desafio veio quando o prefeito Jânio Quadros, que tinha a vassourinha que limpava, quis “limpar” os catadores. Até hoje acontece. Começamos a nos organizar para lutar, afirmando que estávamos trabalhando e tínhamos direitos. Fomos fortalecendo o protagonismo. Entendíamos que eles são sujeitos políticos que têm que assumir sua própria história; não somos nós que devemos definir as coisas por eles.
Foi um processo devagar, pois o pessoal precisava acreditar em si mesmo. Muitas vezes havia uma autoculpabilização muito grande. Romper com essa lógica foi trabalhoso. Criamos a Casa de Oração, onde refletíamos a Bíblia e fazíamos essa caminhada. Aos poucos, foram surgindo as organizações para lutar por direitos e por uma vida melhor.
Antes de chamar “povo da rua” ou “pessoas em situação de rua”, havia termos muito pejorativos. Como foi mudar o significado político e humano dessa linguagem?
Naquele tempo, o nome usado era “mendigos”. Romper com isso era essencial. Eles não eram mendigos, eram um povo trabalhador. No final dos anos 1970, houve o desenvolvimento da industrialização e das grandes construções, como Itaipu e a Ponte Rio-Niterói.
O pessoal vinha do Nordeste e do Norte em busca de trabalho. Era um trabalho muitas vezes análogo à escravidão ou de alto risco. Eles contavam sobre os tubulões que desciam quase duzentos metros abaixo da terra com ar comprimido, algo hoje proibido, sem nenhuma segurança. Havia muitas mortes.
Nós fomos reconhecendo que esse êxodo rural trazia trabalhadores. Eles tinham a força do trabalho, não eram mendigos. Estavam em uma situação de mendicância porque perdiam o emprego e não tinham para onde ir; restavam a rua ou os albergues, que eram ainda piores do que os de agora. Ficavam em situação de dependência por obrigação, não por escolha. Outros vinham para a colheita do café ou da laranja, situações esporádicas, e acabavam sem condições de voltar.
Para romper com essa lógica, fizemos muitas caminhadas. Na Casa de Oração, organizamos, inclusive antes do Grito dos Excluídos, a “Missão do Povo”, que saía no dia 7 de setembro para falar à cidade sobre o sofrimento deles. Juntamos muitas pessoas e ficávamos dias na rua em processo de denúncia. Foi um tempo forte de tomada de consciência para descobrir o potencial que eles tinham para lutar.
Quando a senhora chegou a Belo Horizonte, em 1980, encontrou uma realidade marcada pela repressão aos catadores e pela invisibilidade das pessoas de rua. Como foi o processo que levou à criação da Pastoral de Rua e de iniciativas como a ASMARE?
Chegamos a Belo Horizonte com a ideia de desenvolver um trabalho pastoral seguindo os mesmos princípios de São Paulo. Quando chegamos, não havia absolutamente nada: nem albergue, nem abrigo. Os catadores moravam na beira do Rio Arrudas, em grupos de sessenta ou setenta barracos, ou ao longo da Avenida Afonso Pena. Eram como clãs, muitas vezes liderados por mulheres, onde cozinhavam, dormiam e trabalhavam.
Houve uma primeira retirada violenta em uma madrugada. A prefeitura retirou todos os barracos e as pessoas perderam tudo. Quando soubemos, fomos procurá-los e achamos um grupo no viaduto do Calafate. Estavam com frio e fome, mas a dor maior era a injustiça e o preconceito de serem chamados de “vagabundos”. Eles diziam: “Nós estávamos trabalhando, perdemos nossos carrinhos e utensílios”. Tinha gente que tinha perdido até o enxoval da filha que ia casar.
Reunimos apoiadores dos direitos humanos e ajudamos a elaborar uma carta aberta à cidade. Eles diziam quem eram: trabalhadores que estavam ali para melhorar a vida de suas famílias. Foi o início da caminhada dos catadores. A partir dali começou a organização que, após cerca de dois anos, resultou na associação que existe até hoje, com mais de trinta e cinco anos de resistência.
Além disso, houve conquistas institucionais. A senhora participou da construção da Política Nacional para a População em Situação de Rua e do primeiro Restaurante Popular de Belo Horizonte. Quais avanços e desafios ainda permanecem?
A ‘Pop Rua’ é um grupo muito heterogêneo; nem todos catam material reciclável. Começamos a reunir essas pessoas para conversar sobre suas dificuldades. Quando Patrus Ananias (PT) assumiu a Prefeitura de Belo Horizonte e instaurou o Orçamento Participativo, apoiamos o povo da rua para lutar por suas demandas. Assim surgiram as repúblicas, o Centro de Saúde Carlos Chagas e os Centros Pop.
Anos depois, em 2004, houve uma chacina em São Paulo que matou sete pessoas em situação de rua. Estávamos em um festival em Belo Horizonte e discutimos com o ministro da ocasião que algo precisava ser feito. Ele abriu as portas do ministério e começou o processo de elaboração da política nacional.
Levou três anos, porque a invisibilidade era imensa. Mesmo com o desejo político, havia um desconhecimento total da realidade da rua pelos ministérios. Foi preciso discutir com cada pasta, saúde, habitação, trabalho, cultura, para entender que eles são públicos de todas as políticas. O decreto foi assinado pelo presidente Lula em 2009, dando visibilidade a quem antes era visto apenas como alguém sem capacidade de organização.
O que mais te marcou pessoalmente ao longo dessa trajetória?
Uma das coisas que fiz foi viver no meio do povo. Fui catar material, vendi café na rua, vendi bolo em prostíbulos no Recife. Fiz uma imersão. Isso deixa uma marca para o resto da vida. Outro marco foi o primeiro encontro nacional de catadores em Brasília, na UnB. Ver as caravanas chegando do Brasil inteiro, gente do Pará, do Sul, foi muito forte. Eram pessoas simples que viam ali, pela primeira vez, uma luz de esperança.
Mas também há histórias de muita dor. Lembro-me do impacto quando seis pessoas foram envenenadas aqui em Belo Horizonte, próximo à Pampulha. São momentos chocantes que mostram o ódio contra pessoas frágeis que apenas lutam pela vida. Isso levanta uma indignação que nos impulsiona a dar a conhecer a dignidade dessas pessoas.
Por que a Campanha da Fraternidade de 2026 emerge como um pilar importante para discutir a situação de rua?
A casa é o espaço que protege, traz privacidade e permite organizar a vida. Isso não é garantido para a população de rua
É fundamental, pois ao longo dos anos trouxemos um novo olhar. Apoiamos a defesa de ocupações urbanas e percebemos o desejo profundo de cada um de ter uma casa. A casa é a referência; é o espaço que protege, traz privacidade e permite organizar um projeto de vida. Atualmente, isso não é garantido para a população de rua. Pensa-se que para eles basta um albergue ou uma cama, mas isso não realiza ninguém nem ajuda a superar a situação de rua.
A instabilidade e as condições degradadas de muitos abrigos não apoiam o desenvolvimento da pessoa. Nos últimos dez anos, começamos a trabalhar a moradia como a “porta de entrada” das políticas públicas, e não como o estágio final. É a lógica do “Moradia Primeiro”. A pessoa não precisa “ficar bem” ou superar etapas para ganhar uma casa; ela recebe a moradia e, a partir dali, com uma equipe interdisciplinar, faz sua caminhada de saúde ou educação.
Temos o exemplo de uma pessoa que estava fazendo pós-graduação quando foi para a rua; a moradia permitiu que ela finalizasse o curso. Estamos desenvolvendo esse programa com o Ministério Público há três anos. Também apoiamos a Associação Moradia para Todos, organizada pela própria população de rua, que conquista casas definitivas pelo programa Minha Casa, Minha Vida. Essa campanha da fraternidade pode ajudar a sociedade a enxergar que a moradia é a base para a dignidade.
