Em 2025, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou mais de 1,5 mil assassinatos de mulheres por conta da questão de gênero. O número representa o maior em uma década e é parte de uma série que só cresce desde 2015, ano da tipificação do feminicídio no Código Penal.
Se por um lado o dado se deve, em parte, a um maior reconhecimento do crime, demonstrado pelo percentual de feminicídios entre os homicídios dolosos de mulheres, que passou de 9,4% em 2015 para 40,3% em 2024, por outro lado, um fator que pode estar relacionado ao aumento de violência simbólica e física contra as mulheres é o crescimento dos chamados movimentos masculinistas ou red pill.
Esses grupos de homens têm atuado em fóruns de internet, redes sociais e outros canais de comunicação para estimular hierarquias de gênero e ódio contra as mulheres. Alegando que o feminismo e leis de proteção à mulher estariam destruindo a masculinidade, os grupos misóginos cooptam principalmente meninos jovens. É o que explica Bruna Camilo, especialista no tema, ao Visões Populares.
“Existe uma pesquisa que mostra que, em 15 minutos, um perfil completamente novo de um menino de 15 anos, muito jovem, recebe algum conteúdo misógino pelo YouTube. Por que o YouTube está entregando esses conteúdos?”, questiona a pesquisadora.
Ela é formada em ciências do estado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), doutora em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e pesquisadora de gênero, misoginia e políticas públicas. Tendo recentemente focado sua análise no impacto da internet, sua tese de doutorado teve como tema “Masculinismo: misoginia e redes de ódio no contexto da radicalização política no Brasil”.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato MG – Muito tem se falado sobre o crescimento alarmante do número de feminicídios no Brasil. A que você atribui esse crescimento e como isso reflete na vivência das mulheres brasileiras?
Bruna Camilo – Primeiro, é super importante falar que estamos dando nome ao crime, já que, há alguns anos, temos a Lei de Combate ao Feminicídio e a Lei Maria da Penha. Isso nos ajuda muito a compreender o que é o “crime comum”, digamos assim, e o que é o crime contra as mulheres. Então, na medida em que ele é nomeado, de fato, vão aparecer mais notificações.
Mas também não podemos desconsiderar que esse aumento vem muito em relação ao enfrentamento à conquista dos direitos das mulheres. Muito se fala sobre o ressentimento, no sentido de que muitos desses homens não aceitam as mulheres dizerem não. Não aceitam as mulheres questionarem o seu papel na relação, não serem submissas, não serem subordinadas, não quererem mais estar se relacionando. Isso também tem que ser muito considerado.
E, dentro da internet, esse discurso do ressentimento e do ódio contra as mulheres, principalmente contra as mulheres que não querem mais se submeter a uma relação ou situação violenta, se propaga muito rápido. Muitos homens se alimentam dessas notícias de que mais mulheres são mortas e entendem que aqueles homens que cometeram os crimes estão fazendo algum tipo de justiça, porque aquela mulher não se submeteu.
Então, os homens vão bebendo dessas notícias, bebendo de grupos de WhatsApp e Telegram, de redes sociais, desse ódio. E vão se vendo cada vez mais como donos da verdade. A gente tem que entender que essa crescente do feminicídio tem relação com um conjunto de fatores.
Tem relação com a nomeação do crime, mas, ao mesmo tempo, essa crescente diz respeito também ao ressentimento de muitos homens que se alimentam nas redes sociais e nas notícias e se veem no direito de matarem e de agredirem as mulheres. Existe algo que é paralelo e que a gente precisa compreender muito mais: o papel das redes sociais e da internet nisso tudo.
Um dos fatores apontados por especialistas para o aumento da violência contra as mulheres é o surgimentos dos movimentos que se autointitulam masculinistas ou red pill. Qual é a origem e o que defendem esses grupos?
Os movimentos masculinistas são anteriores à internet e, basicamente, são homens que se organizam para pensar no papel que as mulheres têm ocupado na sociedade. Os grupos masculinistas são grupos misóginos, baseados na misoginia, no ressentimento, e que querem, a todo custo e a todo momento, que as mulheres voltem para o lugar da submissão e do sofrimento.
Na ideia do masculinismo, o natural da mulher é ser submissa ao homem. E, na medida em que os direitos das mulheres avançam e que as mulheres começam a questionar o seu papel na sociedade, a masculinidade cai, a masculinidade é ameaçada. Então, para que a masculinidade não continue sendo ameaçada, é necessário, na visão deles, que as mulheres sejam impedidas de avançar.
A lógica do masculinismo é que o mal da sociedade são as mulheres. Também é essa a lógica do movimento Red Pill. Red Pill, traduzido, significa “a pílula vermelha”. No início dos anos 2000, tivemos um filme chamado Matrix, no qual o personagem obteve a opção de tomar a pílula azul (Blue Pill) ou a pílula vermelha (Red Pill), sendo que a pílula azul faria ele permanecer na ignorância da sociedade e a pílula vermelha traria a verdade para a vida dele.
O filme traz uma discussão muito filosófica sobre isso, mas os grupos masculinistas e misóginos, anteriores ao movimento Red Pill, se apropriaram dessa reflexão. Então, o Red Pill antes era um termo do vocabulário dos grupos masculinistas. Ou seja, estar “redpillado” seria “ter conhecido a verdade”. E qual é essa verdade? Para eles, é a de que as mulheres são o mal da sociedade e merecem o lugar de submissão, que o natural da mulher é reproduzir e cuidar do homem.
Daí, muito recentemente, de pouquíssimos anos para cá, o Red Pill se tornou um movimento que é majoritariamente constituído de homens que vendem cursos dentro de canais de YouTube, que fazem podcasts sobre autoajuda para homens, que entendem que o homem precisa ter dinheiro e ser bem-sucedido para conquistar a mulher que quiser.
E essa mulher que ele quer não é a mulher insubordinada, que não aceita as ordens do homem. É a mulher que aceita as ordens do homem, que quer ser dona de casa, ter vários filhos e que quer cuidar do homem. O movimento Red Pill consegue alcançar muitos homens, porque eles estão nos canais do YouTube, nos perfis de Instagram, coordenando grupos de WhatsApp, etc.
Embora muito se fale deles, os Red Pill não são todos os grupos misóginos. Eles estão em alta nesse momento porque estão popularizados, porque estão em todos os lugares. Mas existem os grupos masculinistas que vieram antes, existem os movimentos que estão aí na sociedade e que nem todos estão mais se associando ao Red Pill, inclusive porque têm percebido que muitas pessoas têm entendido o que é misoginia.
Mas eles atuam de uma maneira muito no detalhe, você percebe que são dos movimentos, porque são coaches que vendem cursos, falam que os homens têm que ser bem-sucedidos, ou que não é qualquer mulher que o homem pode se casar. Está bem no detalhe.
Têm também os grupos misóginos que às vezes não se reconhecem como grupo masculinista, não se reconhecem como movimento Red Pill, mas estão alimentando a misoginia nas redes sociais. Então, às vezes, não conseguimos entender e delimitar o que é cada um. Mas, ao fim e ao cabo, todos eles reproduzem a misoginia.
Todos eles alimentam o ressentimento do homem comum, do homem trabalhador, que está indo para o trabalho de ônibus e que escuta algum podcast ou está em algum grupo de WhatsApp em que se fala: “minha mulher pergunta muito, ela diz não, ela não me obedece mais, o que eu faço com ela?”. Então, é isso, infelizmente, o homem trabalhador comum é o que mais está tendo acesso a isso tudo.
Outro dado que tem entrado muito neste debate é o crescimento da “lacuna ideológica de gênero”. Isso significa dizer que as mulheres, principalmente as mais jovens, estão significativamente mais inclinadas a abraçar ideologias progressistas, enquanto os homens demonstram uma tendência conservadora. Como se explica essa lacuna e de que forma ela potencializa ou é potencializada por movimentos misóginos?
É até assustador, porque, por muito tempo, escutamos que, na medida em que as gerações fossem nascendo, elas seriam mais progressistas, entenderiam mais sobre direitos das minorias, entenderiam mais a sociedade. E não, a gente está percebendo uma geração Z que está se tornando mais conservadora do que a geração dos nossos avós, dos nossos bisavós.
E por que isso acontece? É a pergunta de um milhão de reais. Mas, até aqui, o que a gente pode entender? Primeiro, que as meninas têm entendido o acesso ao corpo, direitos sexuais e reprodutivos. Têm entendido que é importante terem autonomia financeira, porque as mulheres ao longo de toda a história foram oprimidas.
Então, é quase natural as mulheres terem avançado nessa lógica, porque cada vez mais queremos a nossa autonomia, queremos a nossa voz. E é impressionante, de uma maneira muito bonita, como, por exemplo, eu me reconheço enquanto feminista com 20 e poucos anos. Hoje, meninas com 10, 11 ou 12 anos já entendem o que é feminismo, já entendem o seu lugar na sociedade. Já conseguem identificar abusos, o que é muito importante, porque possibilita melhor combatermos abusos. As meninas conseguem entender o seu lugar na sociedade.
Entretanto, os meninos estão correndo pelo caminho contrário. A gente sabe também que historicamente os homens violentam as mulheres. Não é colocando de uma maneira polarizada, homens versus mulheres, mas entendendo qual é o papel do homem na sociedade. Também são os homens que majoritariamente agridem as mulheres. São os homens que geralmente colocam as mulheres em situação de violência doméstica.
Então, isso é secularmente o poder do homem na sociedade. Ele é muito mais central que o das mulheres. Na medida em que os direitos das mulheres avançaram, os homens tiveram quase uma crise sobre qual é o papel deles, sendo que eles não podem mais oprimir como antes, já que são expostos hoje, caso oprimam, caso violentem.
Daí, os meninos, que deveriam ser progressistas como as meninas, têm percebido que o lugar deles continua em crise e vai ficar cada vez mais em crise se essas meninas continuarem questionando a sociedade. E como eles descobrem isso? Nos jogos, no Instagram, no Twitter, em canais de YouTube, no videogame, e principalmente nos memes.
O humor é uma porta de entrada para a radicalização. Começa de uma maneira muito sutil com o Pepe the Frog, que é aquele meme de um sapo que é engraçado. Quando você vai ver, o meme começa a ficar um pouco racista, começa a ficar bastante misógino. E os meninos, quando já estão consumindo muito isso, não veem o crime nisso. Eles veem algo que é engraçado, algo que é de direito deles expressarem.
A partir disso, existe muito estupro virtual, existe muito suicídio assistido, cometido pelos meninos. Como isso acontece? Por que os meninos chegam nesse ponto? Porque eles veem que essa crise está acontecendo e os meninos, nesse momento de socialização que é muito importante, entre 13, 14 e 15 anos, estão se vendo deslocados da sociedade.
E é normal, em alguma medida, se sentir deslocado no processo de socialização, com a transformação corporal, transformação de voz. Os meninos, para marcar a sua virilidade e a sua masculinidade, têm que ser de determinada forma, e quando não são de determinada forma, são ainda mais deslocados da sociedade.
Então, nos jogos, nos memes, geralmente por trás de perfis dentro do Discord, por exemplo, são homens mais velhos, que vão cooptando esses meninos para serem radicalizados. E os meninos são a porta de entrada para isso. Primeiro, porque o homem ainda é o centro da sociedade, do patriarcado e da violência. Então, é necessário resgatar essa força.
Segundo, porque os meninos, nessa lógica de socialização e da masculinidade, que é muito fragilizada e muito violenta, precisam se provar enquanto homens viris. Então, a força é uma forma dessa comprovação.
No fim de março, o Senado aprovou por unanimidade o projeto de lei que equipara a misoginia ao racismo e prevê penas maiores para crimes de ódio contra mulheres. Como você avalia essa legislação?
É muito importante a gente falar que têm surgido muitas notícias falsas sobre a Lei de Combate à Misoginia. Há pessoas dizendo que a lei é uma aberração, que vai fazer com que as mulheres não sejam mais empregadas, porque qualquer forma mais grosseira com que ela for tratada pelo seu chefe ou pelo seu companheiro de trabalho, por exemplo, ela vai denunciar como misoginia e a empresa vai sofrer algum tipo de sanção; que as mulheres agora, em relação a qualquer coisa que aconteça, vão denunciar como misoginia. Não é verdade.
A lei é estruturada diretamente sobre o ódio contra as mulheres. E o ódio envolve discurso de ódio, sendo muito bem comprovado. É sobre misoginia no sentido de incentivo a determinadas violências. Então, as mulheres não vão denunciar o homem a qualquer momento. A Lei de Combate à Misoginia tem diretrizes.
Para cada forma de tratamento existe uma lei, porque se for violento, por exemplo, tem uma lei que vai cuidar daquele tratamento violento. Agora, se é um enfrentamento político, se é uma discussão no trabalho, isso é uma forma de tratamento dentro desses espaços. É importante a gente delimitar isso. E outra coisa que é importante delimitar é que a lei é fundamental para, mais uma vez, como eu disse no início da entrevista, nomear o que está acontecendo.
A punição por si só eu não percebo como suficiente. É importante a gente punir, para dizer: “olha, homem, você está fortalecendo o discurso de ódio, você está promovendo violência, você precisa ser punido”. Só que, qual é a educação que aquele homem está recebendo? Ele vai entender que ele está sendo punido porque cometeu um crime? Ou ele vai sair da cadeia e ficar ainda mais revoltado, podendo cometer algum crime contra aquela mulher?
Então, por isso, a gente tem que pensar que, junto com a punição, precisam existir formas de educação. Temos que pensar, por exemplo, na Lei Maria da Penha, onde se fala de promoção de educação nas escolas. Isso já é uma forma de reduzir essa questão da misoginia. A gente tem que educar os os nossos meninos sobre o conceito de consentimento, sobre respeito, sobre acesso a direitos. Mas também chegar nos homens que cometeram algum tipo de misoginia e de crime e acessar a mente desses homens.
Temos que pensar em espaços, em políticas públicas que envolvam assistentes sociais, psicólogos, sociólogos, enfim, um espaço bem transversal e interdisciplinar para compreender o porquê que aquele homem chegou naquele ponto do crime. Para então compreender como vamos desconstruir essa lógica misógina da cabeça desse homem.
Isso passa pela educação, porque se for somente punir, a gente não vai conseguir coibir. A gente tem uma lei de combate ao feminicídio que é super importante, mas as mulheres ainda estão morrendo. Seja porque a gente está conseguindo nomear esses crimes, ou seja porque de fato elas estão morrendo mais, devido a esses homens estarem se alimentando dessas redes de ódio na internet.
A Lei Maria da Penha era uma das leis mais importantes do mundo, mas as mulheres ainda estão sendo agredidas. Ou seja, a lei é importante, não é possível acabar com a lei, é necessário fortalecer essa lei, mas, em paralelo, pensar na educação dos nossos meninos e dos nossos homens, e na educação das meninas também, para identificarem violência e abuso e para terem um local seguro de denúncia.
É importante que as mulheres e meninas continuem sendo educadas a se cuidarem, a perceberem um ambiente seguro e principalmente a denunciarem.
Você enxerga caminhos de combate a essa tendência? Como as famílias, as escolas e, principalmente, o poder público deveriam agir nessa situação?
A gente tem agora o ECA Digital, temos projetos de leis e leis que visam a regulação da internet e o monitoramento das redes sociais. Mas, até que as leis e o ECA Digital consigam de fato se materializar, temos que pensar em outras formas.
A gente conta muito com o poder do Estado. E o Estado tem o poder de conseguir, por exemplo, monitorar canais de YouTube que promovem violência contra as mulheres e misoginia. Então, a gente precisa fazer com que o Estado se mova com relação a isso. Estão acontecendo muitos canais misóginos? É preciso notificar a big tech que está promovendo aquilo, porque a big tech é a que constrói o algoritmo.
Por que os algoritmos têm entregado muito mais misoginia do que a educação em direitos humanos, por exemplo? Existe uma pesquisa que mostra que, em 15 minutos, um perfil completamente novo de um menino de 15 anos, muito jovem, recebe algum conteúdo misógino pelo YouTube.
Por que o YouTube está entregando isso? As big techs não estão sendo questionadas sobre os conteúdos que têm sido entregues para os nossos jovens. E isso é importante que o Estado faça.
Um outro ponto importante é sobre as escolas e as famílias. Vimos na série Adolescência duas coisas importantes. Primeiro, que os pais trabalhavam o dia inteiro e eles não conseguiam perceber a radicalização daquela criança. Por sua vez, a escola estava completamente exausta. Você percebia nos personagens que eles não suportavam mais ter que lidar com a forma como aqueles jovens se comportavam.
Então, é necessário fazer uma divisão, não sobrecarregar totalmente as famílias, porque sabemos que, hoje, o pai e a mãe ou a mãe solo não têm condição de fazer esse monitoramento. Esses responsáveis que precisam de dois ou três empregos não conseguem acompanhar aquele jovem.
É necessário pensar nessas novas configurações de família e como essas famílias têm que tentar sobreviver, diante de todo o cenário capitalista que a gente vive. Nesse sentido, precisamos passar pelo fim da escala 6 por 1.
É impossível que pais, mães e responsáveis trabalhem seis dias por semana e apenas em um dia tenham que dar conta da casa, do cuidado, dos filhos, das filhas, e de toda a sociedade. Temos que pensar, de fato, em uma escala reduzida e sem a redução de salário, porque isso afeta diretamente as famílias. Então, a redução da escala do trabalho diz diretamente sobre a capacidade de perceber como os nossos jovens têm consumido a internet. É importante fazer esse link.
Sobre a escola, precisamos identificar como fazer com que a escola não se sinta sobrecarregada em uma educação que cabe à família. É também sobre a valorização da escola, valorização dos professores e principalmente professoras, porque no ensino básico são majoritariamente mulheres professoras. E existe uma sobrecarga nessas mulheres, no trabalho não remunerado, na economia do cuidado fora daquela escola e também dentro daquela escola.
Temos que pensar a valorização como um todo da educação, a junção, a conexão, a união, da comunidade escolar com a comunidade da família, dos responsáveis. Da forma como está a gente não consegue fazer com que os responsáveis acompanhem esses jovens na internet.
As big techs lucram muito com esse tipo de discurso. Diante disso, qual é a importância da regulação das plataformas para combater a violência contra as mulheres e meninas?
Temos percebido grandes avanços nas discussões dentro dos espaços de poder sobre a regulação da internet. Eu quero acreditar muito que é uma vontade do Estado fazer essa regulação. Só que apenas a vontade política não é o suficiente, porque as big techs geram muito dinheiro e, consequentemente, geram muito lobby.
Lobby para injetar dinheiro para que aquela pauta não seja a do momento. Então, às vezes, as big techs vão colocar dinheiro em alguns parlamentares para fazer com que eles obstruam. Certamente, acontece essa injeção de dinheiro para fazer com que essa discussão não aconteça ou aconteça de uma maneira mais demorada.
Porém, é muito importante que as big techs sejam regulamentadas, porque é lá que está a raiz da radicalização. Hoje a gente vive em uma sociedade completamente conectada, e tudo do virtual vai para o mundo físico. A partir do momento que você regula uma big tech, você começa a controlar qual tipo de conteúdo ela está permitindo que seja construído.
E, infelizmente, a misoginia gera muito lucro, circula um dinheiro muito grande. Além disso, o algoritmo entrega muita misoginia e aquilo vai sendo consumido e, com isso, as pessoas vão ficando mais tempo na rede social. Então, regulamentar a internet e as redes sociais é também fazer com que esse dinheiro diminua. Por isso as big techs não querem.
Regulamentar as redes sociais, punir as big techs com suspensão de canais e suspensão da própria plataforma como um todo, se for necessário, é urgente. A big tech merece punição se não cumprir com as diretrizes.
Mas, para cumprir com as diretrizes, elas têm que avançar. E, para que elas avancem, é necessário que as big techs parem de fazer lobby com os parlamentares. Enquanto elas fazem pressão é porque elas estão recebendo muito dinheiro e esse dinheiro geralmente está vindo de toda a misoginia que é produzida. Mais uma vez, nada está isolado, tudo se liga.
De que forma o fim da escala de trabalho 6 por 1 afetaria as mulheres brasileiras? E porque o impacto é diferente de acordo com o gênero?
A escala 6 por 1, para mim, é a discussão do momento, e talvez seja uma das discussões mais importantes dos últimos tempos, porque diz sobre trabalho e sobre a reprodução social da vida, sobre a economia do cuidado.
A sociedade capitalista que vivemos não quer que o trabalhador e a trabalhadora descansem. Quer que o trabalhador e a trabalhadora trabalhem muito, a ponto de não desenvolver capacidade de elaboração, questionamento, sociabilidade e acesso à cultura. É apenas o lucro.
Quando a gente discute sobre o fim da escala 6 por 1, a gente discute sobre saúde e sobre família, porque as famílias vão se encontrar mais. Discutimos sobre o descanso e sobre questionamento do nosso modelo de sociedade, já que, se temos um momento para descansar a mente, começamos a perceber outras coisas na nossa sociedade, principalmente, no caso das mulheres.
As mulheres hoje vivem nessa escala absurda de exploração e, quando chegam em casa, também são exploradas, porque existe a economia do cuidado. A economia do cuidado são as tarefas de casa que alimentam a engrenagem da sociedade. Nós não estaríamos aqui conversando, se não fosse uma mulher que cuidou da gente.
E essas tarefas são invisibilizadas, ninguém percebe, e, na maioria das vezes, elas não são remuneradas. Então, quando a gente coloca uma mulher com uma redução de escala, por exemplo trabalhando de segunda a sexta e tendo o fim de semana para se cuidar ou cuidar da própria casa, ela vai ter mais tempo.
Ela vai ter mais tempo para se cuidar, para entender a sua casa, para transitar na sua vizinhança e para a cultura. Infelizmente, a redução da jornada não vai acabar com a economia do cuidado. A divisão sexual do trabalho, ou seja, a divisão do que o homem faz na casa e do que a mulher faz na casa, é uma outra discussão que ainda temos que avançar muito mais, porque as mulheres ainda são a maioria nessas tarefas da casa.
Mas, se as mulheres tiverem mais tempo para cuidarem de si, para entenderem essa lógica, vai ser muito importante. Então, o fim da escala 6 por 1 afeta muito a vida das mulheres.
A gente tem que pensar também na paternidade. Por exemplo, o que os homens vão fazer com a redução da escala no fim de semana? Eles vão ter hobby? Eles vão jogar futebol? Eles vão para o bar? Eles vão encontrar os amigos? Não. É aí que entra a nossa discussão sobre a divisão sexual do trabalho. Que esse espaço seja de divisão de toda a família, que seja para cuidar daquele menino que fica o dia inteiro no telefone, porque não tem o que fazer com ele, não tem dinheiro para contratar uma pessoa para cuidar dele, ou a escola não é integral.
Vamos fazer com que o pai olhe para aquele menino, já que, às vezes, o diálogo entre dois homens pode ser melhor. A discussão da redução da escala 6 por 1 não pode vir sozinha. Ela tem que vir com a discussão do cuidado, a discussão da paternidade, a discussão da radicalização dos meninos nas redes, a discussão sobre acesso à cultura e a discussão sobre como as mulheres vão descansar.
