VISÕES POPULARES

Um novo olhar sobre o brincar: ‘Crianças são também sujeitos da mudança social’

I Encontro reuniu grandes nomes do país para discutir o brincar como linguagem essencial da cultura

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“Outro processo que é muito especial: brincar é essencialmente uma cultura do encontro.”, defende Roquinho. | Crédito: Brasil de Fato MG

Minas Gerais sediou, ao longo do mês de junho, o I Encontro Nacional com as Culturas das Infâncias Brasileiras. A programação ocupou diversos territórios no estado, possibilitando intercruzar experiências, reflexões e articulações de quem coloca o brincar no centro das discussões sobre cultura, educação e sociedade.

É sobre esta primeira edição do evento que o Visões Populares conversou com Roque Antônio Soares Júnior, o Roquinho, brincante, educador popular, pesquisador da infância e fundador da Carretel Cultural. Ele foi o idealizador do evento que culminou em um grande encontro de encerramento no último dia 27. 

A proposta defendida nos diversos espaços formativos do Encontro foi enxergar, na infância, a inspiração para a construção de práticas e políticas públicas que ouvem a criança enquanto colaboradora dos processos de construção do mundo em que se sonha viver.

“A base elementar de construção desse encontro, parte do princípio de que a criança é um ser que está no mundo e não flutuando sobre os conflitos, que está inserida nos conflitos e nos contextos ambientais, sociais e culturais de toda ordem”, destaca Júnior.

Confira a entrevista completa: 

Brasil de Fato MG – Como começou o seu envolvimento com a discussão sobre as infâncias? 

Roquinho – Eu sou de Padre Paraíso, baixo Jequitinhonha, onde vivi uma experiência muito forte de formação inicial, de infância. Tive uma liberdade muito grande para circular por um espaço de cidade pequena e também amparada pela segurança que um estado comunitário dá a uma criança e a quem nele está. 

De lá para cá, eu me desenvolvi pensando muito nesse processo inicial de formação e nos processos políticos que esse processo inaugura para quem vive, nos aspectos artísticos, filosóficos, todos eles. Um processo comunitário, um processo de uma infância livre com a natureza presente. 

Tendo isso e tendo me encontrado com outras pessoas fundamentais que também pensavam a infância como inspiração para a construção de diálogos com o mundo, fui afirmando esse instante original de vida como a base para elaborar um pensamento e uma prática no mundo.

Foi realizado o encerramento do I Encontro Nacional com as Culturas das Infâncias Brasileiras, em Igarapé. Do que se tratou o encontro, como ele foi mobilizado e quem foi o público participante?

Esse encontro é fruto da vontade de contar um processo histórico que nasce em Minas Gerais e que depois inspira o Brasil. Um processo que enxerga na infância a inspiração para a construção de práticas de políticas públicas que ouvem a criança como um ser que pode efetivamente colaborar com os processos de construção do mundo que a gente sonha. 

Então, a base elementar de construção desse encontro parte do princípio de que a criança é um ser que está sobre o mundo. Que não flutua ou está para além dos conflitos, mas inserida nos conflitos e nos contextos ambientais, sociais e culturais de toda ordem. Quando a criança expressa, pela sua linguagem, o que ela absorve do mundo (que são os brinquedos e brincadeiras principalmente) ela também expressa o que colhe dessa experiência política no mundo. 

Se ouvimos a criança através dessa expressão dela, também somos capazes de elaborar ou de se inspirar para construir soluções muito singulares para as questões que o mundo nos apresenta. Pensando também que o brincar, como um traço da cultura de um povo, é um traço da identidade desse povo. Quando você revela esse traço, você acaba desenhando um aspecto da identidade desse povo que, muitas vezes, foi desconsiderada. 

Quando enxergamos e compreendemos, de uma maneira total, a nossa identidade, é claro que também somos mais fortes para nos colocar no mundo e encontrar soluções para as questões que o mundo exige de nós. Então, a base elementar é essa: pensar a criança nesse lugar.

O grande objetivo foi revelar um processo que já deu à criança essa condição. Belo Horizonte já foi um lugar que ouviu, de maneira muito especial, as crianças, e construiu através dessa audição respostas políticas para a cidade. A vontade era trazer as pessoas que fizeram parte dessa história para contá-la, experimentar isso de novo, afirmar a criança nesse lugar e experimentar ainda outros aspectos da cultura da infância.

O encontro culminou em um evento de encerramento que contou com diversos painéis e uma rica programação cultural. Como foi este encerramento? Com que acúmulos você entende que este evento se encerra? 

Foi lindo, especialíssimo, porque, em que pese todas as questões, a criança elabora e processa essas experiências sempre em parceria com a alegria. Então, esse encontro teve esse aspecto do processo: a alegria de celebrar as crianças, de aprender com as crianças. E foi um dia de muita alegria. A gente brincou muito com a natureza do lugar, que é um parque ecológico em Igarapé, lindo e recém-inaugurado. 

Começamos o evento com um grande auto de barquinhos da natureza, porque no espaço há lagoas e nascentes. Nós elaboramos esses barquinhos com elementos da natureza, fizemos um cortejo lindo e a soltura desses barquinhos nas águas. 

A Rabiola Casa Escola, que é uma instituição do Jardim Felicidade aqui em Belo Horizonte, elaborou o que eles chamaram de “voos rasantes”, que foram uma série de brincadeiras tradicionais da infância brasileira colocadas à disposição da população que foi chegando: pais, mães, avós e filhos, a família toda presente para brincar junto. Sempre com essa intenção de colocar pessoas de idades diferentes com suas crianças juntas naquele espaço. 

Nós nos desenvolvemos também no sentido de contações de história. Com a Juliana Corrêa, que é uma grande contadora de histórias e pesquisa sobre as histórias que precedem o Brasil, que vêm da África e depois as que acontecem aqui já no território nacional, mas inspiradas por essa ancestralidade; e a Juliana Félix, que fez uma ação específica para os bebês, para acolher a mãe e o pai com seus bebês, crianças bem pequenas. 

A Ana Goebel e a Zi Reis, que são duas artistas muito fortes daqui de Minas, produziram dois painéis gigantes nesse espaço. Um painel que chama a criança que mora no adulto para se manifestar, que nos instiga a pensar que somos adultos, mas que fomos crianças há muito pouco tempo, e se lembrar disso é muito importante para construir o diálogo com a criança de agora. 

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Enfim, um dia lindo que passou ainda por muitas ações e que culminou com a presença do Pereira da Viola e do Dito Rodrigues, que é irmão do Pereira, convidados pela Guê Oliveira. Eles elaboraram um espetáculo específico para esse encontro. Então, Pereira e Dito foram visitar suas infâncias lá em São Julião, como meninos, recuperando coisas da infância deles, muitas brincadeiras cantadas. E nos entregaram um espetáculo divino mesmo, muito especial que a gente viveu e está vivendo até agora, porque ficou reverberando na gente, de tão bonito que foi esse processo.

Qual a importância deste encontro ter acontecido em Minas Gerais? Nosso estado tem destaque quando pensamos nessa pauta da cultura das infâncias? Por quê?

É uma coisa linda que o encontro mostrou para a gente, essa coisa de revisitar a história e de aprender com a história. Nós tentamos fazer assim: revisitar a história e afirmá-la como uma reverberação no presente agora. Então, nós trouxemos sempre pessoas que podiam contar processos, mas pessoas que estão realizando coisas hoje que são frutos desse processo vivido. 

Isso foi muito especial, mas teve um aprendizado que eu considero muito poderoso e que faz de Minas uma referência: Lydia Hortélio é uma mulher brasileira do Sertão da Bahia que, na década de 1960 para 1970, vai para a Europa estudar música. E vendo as crianças de lá, as crianças refugiadas, ela começa a observar que entre aquelas crianças e as crianças do Sertão da Bahia e de Salvador havia algo comum, que era justamente um movimento que o corpo cumpria quando esse corpo brincava. Quando você pula amarelinha, quando você joga cinco marias, quando você pula corda. 

Isso fez com que ela, inclusive, aos poucos, fosse se afastando da música e se dedicando muito mais a observar esse fenômeno maravilhoso, que fomos elaborando, e hoje se reconhece como uma cultura da infância: um acervo de movimentos que o mundo cumpre quando o corpo brinca. 

A maravilha é que, quando Lydia vem a Belo Horizonte, na década de 1980, ela encontra aqui um campo muito fértil, que ela não encontrava em outros lugares. E isso fez de Minas o território inaugural de um processo que nasce dessa percepção que ela traz. 

O que o encontro revelou de maneira maravilhosa é que essa experiência poderosa, política, sensível, delicada e cultural pertenceu, naquele instante original, e foi elaborada, pelo povo das periferias de Belo Horizonte. Isso não pertenceu a outro lugar. 

A sorte é que aos poucos fomos consolidando governos, principalmente o governo do Patrus Ananias (PT), que tinha como princípio a inversão de prioridades, a descentralização das ações. Isso sustentava o governo e permitia que quem estivesse fora de um lugar central também pudesse ser ouvido. E as crianças estavam à margem, então elas puderam também ser ouvidas. 

Mas a maravilha foi perceber que quem construiu esse processo inaugural foi um governo sensível, com a população organizada das periferias de Belo Horizonte, e que esse processo pertence a essa gente, nos pertence. Nós não podemos delegar a ninguém a responsabilidade de construir o futuro e o desenvolvimento dessa ação. Não podemos acreditar que grandes institutos, porque têm dinheiro, porque têm estrutura, podem ser responsáveis por isso.

Não, a responsabilidade continua sendo nossa, continua sendo do povo de Belo Horizonte, do povo do Brasil, que é quem ainda brinca, que é quem ainda conserva seus quintais e quem ainda pode falar disso com propriedade. Então, essa percepção foi muito significativa, muito importante. 

Dentro dessa estrutura de um governo popular com um povo organizado, manifestando o desejo de avançar nesse sentido, algumas pessoas captaram essa conjunção do desejo popular com um governo sensível e começaram a construir políticas públicas aqui em Belo Horizonte. 

No Centro Cultural Lagoa do Nado, por exemplo, instituiu-se uma primeira oficina de brinquedos e brincadeiras, que era regular e era política pública. As ações de diálogo do poder público com comunidades da periferia para construir respostas a questões que essas comunidades enfrentavam eram todas marcadas pelo primeiro contato brincando, em diálogo com as crianças, e depois ascendendo no sentido da organização popular daquele lugar e buscando respostas. 

Depois, Belo Horizonte estabeleceu um centro de referência da cultura da criança e do adolescente, por força da ideia do Gil Amâncio e da percepção desses diálogos. E aqui acontecia, logo depois, o Festival Internacional de Piões, Piorras e Carrapetas, que também celebrava as infâncias. Tendo esse brinquedo como mote, mas que buscava o diálogo com a cidade, que colocava a criança no centro. 

Nasceram também grupos muito importantes, como as Meninas de Sinhá no Alto Vera Cruz, que são frutos desse processo. Depois, cada centro cultural de Belo Horizonte, muitos nascidos por força do orçamento participativo, passou a ter, até hoje, um brincante contratado como brincante na sua estrutura. A Arena da Cultura, que hoje é a Escola Livre de Artes, também é uma escola que tem dentro da sua cadeira de “Memória e Patrimônio”, o curso de brinquedos e brincadeiras. 

Isso faz de Minas um lugar especial nesse sentido. Lydia, que é a grande mentora desse processo, fala que Minas é o lugar que melhor compreendeu e deu vazão às possibilidades que a cultura da infância sugeriu.

O que seria a cultura da infância e como você enxerga a importância do brincar, não só para as crianças, mas para toda a sociedade? 

Nós temos tentado encontrar caminhos para nos organizarmos politicamente e avançarmos nas pautas que são coletivas. Temos buscado encontrar caminhos para a construção de políticas públicas que deem respostas profundas para as questões que enfrentamos. E não ouvir a criança é desperdiçar um potencial muito grande. As crianças, quando brincam, constroem respostas. Vou te dizer, então, o que pode ser a cultura da criança com dois exemplos elementares: 

Brincar é um exercício que a humanidade inteira escolhe. Quando uma criança tem liberdade, aqui ou em qualquer lugar do planeta, o que ela escolhe é brincar. Você sabe disso, eu sei disso e todo mundo sabe que, quando teve liberdade, escolheu brincar. Porque brincar é um processo pedagógico que inaugura, para quem brinca, compreensões profundas a respeito da própria natureza humana, do mundo que cerca essa natureza e, principalmente, dos diálogos essenciais para você consolidar o espírito comunitário. 

Então, brincar é uma pedagogia que, em que pese as complexidades das coisas que ela inaugura, não abre mão de ser parceira da liberdade. O pressuposto dessa cultura do brincar e dessa pedagogia é a liberdade, porque cada um precisa encontrar um caminho e acessar algo que lhe forme na sua identidade. 

O meio pelo qual essa pedagogia acontece é o movimento: é um corpo livre em movimento na direção daquilo que lhe importa. E depois, o fim desse processo, que também é o recomeço, é a alegria de encontrar aquilo que importa e te forma. Então, brincar é uma cultura da humanidade, é uma pedagogia irmã da alegria, parceira da liberdade e que tem o movimento por meio. 

E eu fico pensando o quanto é importante para nós, que queremos criar processos revolucionários de construção do conhecimento, dialogar com o que nos ensinam as crianças nesse campo. Foram elas que elaboraram essa pedagogia, que tem por pressuposto a liberdade, que tem o caminho e o movimento por meio, e que tem a alegria por fim. 

E ainda a natureza por casa, porque, quando você solta uma criança, o que ela quer é viver essa experiência em meio à natureza. Se nós aprendêssemos com as crianças, nós teríamos processos muito mais transformadores e revolucionários quando pensássemos em transmitir o que importa a elas.

Outro processo que é muito especial: brincar é essencialmente uma cultura do encontro. A criança não quer aprender a obedecer, esse é um aspecto maravilhoso do processo. Ela quer aprender processos que vão dar a ela condição de executar o que importa junto com os outros. Então, ela precisa descobrir caminhos que vão lhe permitir executar em conjunto, na coletividade, as ações que importam para elas. 

Por outro lado, para a criança, a disciplina é essencial. Quando vamos brincar, a primeira coisa que fazemos é colocar um “uni, duni, tê, salamê, minguê” e ir para um processo de escolha. Várias outras formas democráticas e políticas estão inseridas nesse processo pedagógico que o brincar propõe à humanidade nova, aos meninos e meninas. Então, é preciso aprender com as crianças nesse sentido. 

E aí eu acho, por exemplo, que o MST está aprendendo, porque a Guê é uma mineira brincante, uma mulher estudiosa desse processo, atenta a esse processo e que tem emprestado ao MST uma reflexão nessa direção. Tem toda uma construção também do processo das cirandas, enfim, lindas, maravilhosas. E o MST tem buscado aprender isso, eu acho maravilhoso. 

Essa interpretação do brincar, a partir de tudo que conversamos até aqui, parece também se relacionar fortemente com uma outra visada sobre a relação ser-humano-natureza. Como se dá essa relação e qual a sua importância diante de um cenário de catástrofe climática como o que enfrentamos hoje?

A criança não pode perder tempo, ela está se formando para ser o adulto que está prometido para ela. Então, ela precisa estar completamente compenetrada e atenta ao que desenvolve. A criança e o ser humano novo sabem que a natureza é uma mãe generosa, ela quer se formar no colo dessa mãe. 

Zefa, que era do Jequitinhonha, uma mulher maravilhosa, dizia assim: “A gente é filho, somos a imagem e semelhança de quem nos criou”. Aí ela mostrava o braço e dizia: “Isso aqui são os capins”, “Isso aqui são os rios”, e aí você vê as veias. “Isso aqui são as fontes. Isso aqui é uma mata”, ela dizia, apontando os olhos e cabelos. 

Eu levei um tempo para perceber que, quando a criança escolhe a natureza como casa dos seus processos formadores, o que ela está buscando, de fato, é o colo dessa mãe original. Viemos da terra e a criança sabe que é impossível se formar para amar profundamente o planeta se não estivermos sobre o planeta. Nós precisamos de contato, precisamos de intimidade, que é o processo pedagógico que a criança constrói, de ter o corpo em movimento na direção do que importa. 

Esse corpo precisa saber o planeta nas suas dimensões mais profundas. Ele precisa conhecer a vida das suas dimensões mais profundas, as vidas ínfimas, que se manifestam de maneira muito pequenininha e a gente quase não vê. Você precisa se encantar e se apaixonar por isso. E você faz isso quando brinca, quando transforma isso em objeto da sua atenção, e isso te ajuda a te formar e migra para dentro de você. 

Depois, quando você diz de tudo isso, você não está falando de nada externo, você já está falando de si mesmo, porque isso veio morar em você. Então, é essa intimidade que a criança propõe na construção da sua relação com o mundo, com a natureza , que eu acho que nós não podemos desconsiderar também. 

Porque nós queremos amar, mas queremos amar à distância. Queremos saber, mas queremos saber sem o calor, não queremos o cheiro. É preciso que nos embrenhemos, como a criança propõe, para que compreendamos que somos parte disso. E quando cuidamos do meio, cuidamos de nós mesmos. Quando cuidamos de nós mesmos, também cuidamos do mundo.

Outra ação do encontro foi a construção coletiva de um mural artístico para a inauguração do Quintal das Infâncias, em uma escola de Betim. O que seria o Quintal das Infâncias e como essa proposta contrasta com a ideia de educação infantil hegemônica e amplamente vivenciada pelas crianças hoje?

Veio o Guilherme Blauth para nos ajudar na construção desse quintal. O Guilherme, há muitos anos, olha para espaços públicos e pensa nos modos de trazer, de forma natural, uma configuração para esses espaços que faça com que eles recebam bem as comunidades que estão no entorno. 

São espaços naturalizados, vêm muitas madeiras de podas da prefeitura e ele constrói brinquedos, espaço para as mães sentarem com os filhos, espaço para as crianças ficarem à vontade. E nós temos pensado que, se você imaginar o que é o material pedagógico de uma escola brasileira, você vai pensar na natureza brasileira e no que nos é ofertado por essa natureza: são as sementes, são as folhas, são os troncos, tudo vivo, tudo orgânico, tudo com textura, com cheiro de Brasil, tudo com vida presente. 

E nós entendemos que isso ensina muito mais do que qualquer coisa plástica. Ainda que haja textura e cores, a natureza é muito mais complexa. Então, é trazer para dentro da escola a sugestão de um quintal brasileiro, onde muitos de nós nos formamos, para que se inspire essa relação da criança com a natureza, umas com as outras, tendo o planeta como chão, e não o cimento. 

A implantação desse espaço se deu em uma creche que se chama Anna Medioli em Betim. E nesse próprio espaço, a Ana Goebel buscou uma inspiração para construir um mural que também expressasse essa ideia, e está lá esse mural junto com o quintal. Foram dois quintais: um interno para receber crianças pequenininhas, de zero a três anos, e um externo que recebe todo mundo. 

Em Igarapé, nós também fizemos dois murais, um que a Ana fez e um que a Zi fez. As imagens são lindas, estão lá para as pessoas chegarem e encontrarem sinais desse processo. E foi esse o processo, com essas duas mulheres incríveis, artistas.

A ideia é que o encontro passe a ser periódico? Qual a perspectiva de continuidade desse debate daqui em diante? 

Nós chamamos de Primeiro Encontro Nacional com as Culturas das Infâncias Brasileiras porque queremos muito que ele aconteça por um tempo, cumpra um papel por um tempo. Eu acho que precisamos acordar a sociedade brasileira, inclusive as pessoas que estão nos seus quintais, para a importância que esses quintais têm. 

As pessoas adultas, nas suas comunidades que ainda brincam, e o quanto é importante que nós, das grandes cidades, prestemos atenção e aprendamos com essas pessoas para retomarmos experiências que, mesmo em ambiente urbano, confirmam em nós o sentido comunitário. Então achamos que há razão para que esse encontro continue acontecendo. 

Editado por: Lucas Wilker

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