Ainda que as Inteligências Artificiais (IAs) estejam comumente associadas aos modelos de chat hoje disponíveis em diversos âmbitos da internet, elas também estão presentes no cotidiano de diversas outras maneiras. Muitas vezes mal compreendidas pelo público em geral, a necessidade de compreender essas ferramentas para além do seu uso mais comum abriu espaço para a entrevista do Visões Populares desta semana.
Além de entender como as IAs funcionam e como se relacionam com a disputa geopolítica entre China e Estados Unidos, a conversa passou pela regulação proposta para essa tecnologia no Brasil e sobre seu impacto na democracia e no processo eleitoral de 2026.
Para tratar do assunto, convidamos Ettore Medeiros, doutor e professor de Comunicação Social na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que tem pesquisado a área de tecnologia e inteligência artificial.
“Existe uma infinidade de possibilidades de fazer com que a gente re-imagine o que que é a inteligência artificial. Hoje a nossa imaginação e o que entendemos por IA está muito restrito ao que as grandes empresas de tecnologia estrangeiras estão oferecendo para nós. E isso é muito ruim porque nós estamos perdendo a nossa possibilidade de imaginar outros futuros com nossas e IAs, a partir das nossas necessidades”, aponta o professor.
Ao longo da sua trajetória acadêmica, ele também investigou, entre outros temas, os estudos de gêneros e sexualidades, plataformas digitais, branding, marketing digital, diversidade e inclusão.
Confira a entrevista completa
Brasil de Fato MG – O que são as Inteligências Artificiais e onde elas se inserem no nosso dia a dia?
Ettore Medeiros – Inteligência artificial é uma área da computação, com o objetivo de fazer com que máquinas desenvolvam habilidades que se assemelham ao que nós, pessoas, gente de carne e osso, seres humanos, conseguimos desenvolver. Seja para reconhecer uma imagem, seja para estabelecer algo que simule uma conversa, ainda que as IAs de chat não estejam conversando, de fato, com a gente.
Existem diferentes tipos de IA, desde as que ficaram mais populares desde 2022, quando começamos a ter interações em forma de chat. Mas muitas outras envolvendo diferentes áreas, e elas já estão presentes na nossa vida muito antes de percebermos. Por exemplo, existe uma inteligência artificial (ou várias) que filtra que tipo de conteúdo vamos receber no nosso feed nas mídias sociais.
Tem as inteligências artificiais generativas, que geram algo, um texto, uma imagem, um vídeo; mas existem outras que, por meio de várias lógicas estatísticas, vão fazer com que determinados conteúdos cheguem para nós ou que façam uma previsão de como o tempo vai estar. A inteligência artificial está na nossa vida há muito mais tempo do que imaginamos, principalmente com os computadores e com os celulares, mas temos falado muito mais delas recentemente por conta dessa popularização do chat.
No início de julho, a Organização das Nações Unidas (ONU) realizou um encontro alertando para os riscos da IA e defendendo a responsabilização das empresas desenvolvedoras. Pensando nos impactos negativos que podem ser gerados por essa tecnologia, quais riscos já são percebidos no processo democrático, seja no Brasil ou em outros lugares do mundo?
Estamos muito conectados ao nosso feed nas mídias sociais, de forma óbvia, constantemente, e isso acontece há muito tempo; não é algo recente. Como comentei, já existem inteligências artificiais que orientam que tipo de conteúdo vamos receber. E o objetivo das grandes empresas de mídias sociais (big techs) é fazer com que passemos o máximo de tempo ali. Ou seja, o modo como a inteligência artificial mostra alguns conteúdos para nós é para que queiramos ficar lá, para que passemos o maior tempo possível deslizando o feed.
Isso já tem uma repercussão muito forte na democracia, porque há um deslocamento: mudamos o modo como interagimos com o mundo, com as pessoas. Hoje recebemos muitos conteúdos de pessoas que pensam como nós, que, muitas vezes, têm o interesse de nos desinformar. Essas câmaras de eco que existem dentro das mídias sociais, ou seja, esses filtros que fazem com que só recebamos os mesmos conteúdos já são moldados pelas inteligências artificiais. Vivemos isso há muito tempo, antes mesmo de 2022.
O que leva a uma menor deliberação, a um esforço menor para lidar com as diferenças e conversar. Politicamente, isso é um problema porque democracia é justamente lidar nem sempre com os mesmos pensamentos, com as mesmas pessoas. Temos diversidade, e o dissenso é muito importante na democracia. Para além disso, que é um pedacinho do que vemos como reflexo das inteligências artificiais na democracia, temos hoje as próprias inteligências artificiais generativas.
Quando pensamos que hoje uma pessoa pode ser reproduzida diretamente (seja candidato, seja fictício) para falar sobre determinadas ideias, isso pode reforçar preconceitos, pode sintonizar-se com discursos de ódio e gerar desinformação sobre pautas que influenciam as eleições e a democracia. Isso é muito nocivo.
Não que não possam existir usos benéficos; existem usos benéficos. Mas algo que me chama muito a atenção é como hoje é muito mais fácil entrar no chat e dizer: “Crie um conteúdo que seja parecido com jornalismo, mas que seja desinformativo, algo relacionado a fake news.” Ou: “Crie um personagem que se pareça com tal pessoa, com tais características, que dirá isso”. Assim, o balanço entre o que é real e o que é fabricado fica mais tênue.
Hoje ainda não há nenhuma regulamentação legal em aplicação que trate das IAs no Brasil. O mais avançado que temos é o PL 2.338/2023, de autoria do Senador Rodrigo Pacheco, que tem como objeto central o desenvolvimento, o fomento e o uso ético e responsável da inteligência artificial no Brasil. Qual a sua avaliação sobre essa regulamentação? Em que pé está a sua tramitação e como ela se compara às regulações hoje em vigência no restante do mundo?
É bem interessante que esse projeto de lei exista no Brasil, é muito importante. Ele se inspira no AI Act, o modelo de legislação da União Europeia, que tem uma lógica de ponderar os diferentes tipos de IA, a partir dos níveis de risco que elas possuem. Há alguns usos que podem ter mais riscos para nossa saúde, bem-estar e para a democracia, e outros que têm menos riscos. É interessante essa abordagem de pensar a partir dos riscos.
A realidade é que há muita coisa que poderia ser melhorada nesse PL. Percebe-se ainda uma dualidade colocada nas discussões que ocorrem no Congresso: ou “vamos inovar e, portanto, precisamos de menor regulamentação, menor responsabilização das empresas de IA”, ou “vamos regular mais”. É como se existisse um paradoxo: temos que avançar na IA, porque isso é importante para a economia, mas não podemos fazer isso com muitas restrições, colocando muitas sanções, porque senão vamos ficar para trás.
Eu acho esse pensamento bem nocivo para o avanço da IA, porque existe um interesse econômico de grandes empresas de tecnologia de que esse PL seja aprovado de uma forma a responsabilizar menos as grandes empresas. Então, é muito importante que a gente tenha essa discussão, levando em conta que vários outros países não têm uma regulamentação ou um projeto de lei para regulamentar IA. Mas a gente vê um lobby muito forte de grandes empresas de tecnologia dentro do Congresso buscando os seus interesses próprios. Vemos mais um interesse econômico e não um interesse social.
As grandes empresas de tecnologia de que eu estou falando aqui são estrangeiras e normalmente são dos Estados Unidos, algumas da China, mas principalmente dos Estados Unidos. A IA não é vilã, não precisa ser vista como algo maléfico, porém o modo como nós estamos desenvolvendo hoje a indústria de IA está se encaminhando para um lugar preocupante.
Mas, se pensarmos em desenvolvimento de modelos abertos, de infraestrutura de IA e de modelos que são brasileiros, que vão capacitar pessoas daqui, e ser usados a partir dos nossos dados, aí sim nós estamos falando sobre benefícios da IA. Só que hoje o modo como o PL está sendo desenvolvido e discutido não está sendo, na minha perspectiva, efetivo quanto a esse lado promissor da IA. Então, na prática, a gente corre o risco de ter esse PL muito esvaziado e ele não cumprir a função a que está se propondo.
Neste vácuo normativo, hoje o que rege o uso de IA no Brasil é a Lei Geral de Proteção de Dados. Pensando específicamente nas eleições, foi lançada uma resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre propaganda eleitoral que regulamenta o uso de IAs nessa eleição. O Tribunal e a Advocacia-Geral da União (AGU) também firmaram um acordo de cooperação técnica para regulamentar e fiscalizar o uso de IA nas campanhas eleitorais. Diante disso, que regras se aplicam à eleição de 2026 quando o assunto é o uso de IAs, ou seja, o que os candidatos podem e não podem fazer com essas ferramentas?
É difícil dizer o que não pode ser feito, porque existem muitas brechas jurídicas e legais. Não temos leis extremamente estruturadas sobre o tema; a gente tem algumas normativas. O que podemos entender é: tome muito cuidado com o tipo de deepfake que você usa, como pessoa candidata.
Já vimos a repercussão em decorrência de existir uma pessoa, que não poderia ser exibida em nenhum lugar, nem mesmo por meio de uma inteligência artificial, e que se está reproduzindo a imagem dela. O cuidado que precisa ser feito é: antes do período das eleições em si, qualquer tipo de produção de deepfake ou de imagens que apresentem uma pessoa candidata tem que ser totalmente freada, nas 72 horas antes, se eu não me engano.
Mas, para mim, eticamente, e em nível de repercussão, eu entendo que isso não deve ser usado de forma nenhuma para representar alguém que existe. Vamos supor: se eu sou uma pessoa candidata, eu vou usar a minha própria imagem, a minha própria voz, e não uma IA que vai fazer a minha reprodução. Porque, quando a gente começa a pensar que as próprias pessoas candidatas se reproduzem por meio de IA, abre-se a brecha de trazer outras pessoas, que são suas concorrentes, também nesse jogo.
Então, eticamente, para mim, é muito simples, tudo bem, você pode usar a inteligência artificial generativa, desde que você esteja posicionando que é uma inteligência artificial generativa; desde que você esteja trabalhando com pessoas que são criadas, que na verdade não existem; e, mais do que isso, que não exista um discurso de ódio e outras questões que já sabemos que são eticamente interessantes.
Ainda temos muito a avançar em nível do que é permitido ou não. O meio jurídico está atrás de como dar conta de algo que está se formando agora e que nós não sabemos ainda como lidar com isso na vida social. Nas eleições mais ainda, que é um contexto totalmente de disputa mesmo: ideológica, política, econômica, de valores.
Algo que é problemático também é que, por vezes, não existe uma pessoa candidata ou a equipe dela que está usando aquilo, mas pessoas eleitoras que estão produzindo conteúdo com a intenção de gerar algum tipo de modificação ou fricção nas eleições. E isso não vale só para IA; é desde você descontextualizar um conteúdo, até trabalhar com desinformação. Ou seja, é algo muito mais amplo.
Na sua visão, de que forma o debate sobre o uso e regulamentação das IAs se relaciona a um debate mais amplo, em voga hoje, no que tange à nossa soberania nacional e à tentativa de interferência estrangeira nas nossas eleições?
Hoje é praticamente impossível falar sobre soberania nacional sem falar sobre soberania digital também. Elas estão conectadas. Vivemos em uma sociedade digitalizada, plataformizada, o que significa que boa parte das tecnologias que estamos usando estão concentradas nas mãos de poucas empresas. E poucas delas são empresas brasileiras, a maioria são empresas estadunidenses, algumas chinesas, algumas de outros lugares da Ásia, mas principalmente estadunidenses.
Quando falamos sobre como essas grandes empresas de tecnologia estrangeiras estão na nossa vida, é em todos os cantos possíveis: desde como existe a gestão pública, ou seja, quais são as grandes empresas de tecnologia, que estão envolvidas na gestão pública brasileira? Microsoft, Grupo Meta, Oracle, Amazon; temos muitas empresas que detêm dados nossos, que são brasileiros, dados sobre nós, cidadãos e cidadãs.
De que forma a propriedade desses dados por grandes empresas é usada? O que é feito com esses dados? Ainda que existam contratos que digam e as grandes empresas de tecnologia afirmem “não usar esses dados para treinar os modelos de IA”, existe um histórico de descumprimento de vários contratos, por parte de grandes empresas de tecnologia estrangeiras.
Mas também vemos esse uso de forma privada. As organizações também fazem isso, não só as organizações públicas ou do terceiro setor; as organizações privadas também fazem uso dessas tecnologias para muita coisa. Quando eu estou nas minhas redes sociais, há coleta de dados ali. Quando eu estou numa conversa de chat com uma IA, também existe coleta. Ou seja, existem muitos dados que podem ser usados diretamente em diferentes esferas, desde dados sobre um país inteiro, sobre o município, até dados de pessoas comuns que podem ser usados para fazer modulação comportamental.
Isso significa algo que já aconteceu nos Estados Unidos nas eleições de 2016: foram coletados vários dados para entender quais eram os valores, as crenças, os medos das pessoas, e isso foi usado para a construção de mensagens, propaganda política, para fazer com que determinada pessoa candidata ganhasse e não outra.
Então as possibilidades de que os nossos dados sejam usados para que tenhamos menos soberania nacional, para que haja mais influência geopolítica aqui, para que os nossos comportamentos sejam modulados ou até mesmo para influenciar dentro das próprias eleições nacionais, também acontece.
Até porque, hoje, o Brasil é um país muito visado por vários outros países estrangeiros. Estamos falando também aqui sobre Estados Unidos, sobre China. Já vemos que o governo federal dos Estados Unidos tem tido posturas de interferência em países da América Latina, inclusive em nível político e direto. E hoje os Estados Unidos também está mirando no Brasil, inclusive com influência política, para que quem interessa a eles ocupe o lugar da presidência, os lugares no Congresso. Isso para que a hegemonia dos Estados Unidos continue globalmente.
A questão é: nós não problematizamos, de forma crítica e frequente, o que nós estamos fazendo com os nossos dados. Isso não é só em nível individual, óbvio que não; isso é uma questão que envolve uma estrutura também. Mas precisamos de soberania nacional e, para isso, nós precisamos ter as nossas infraestruturas tecnológicas, as nossas infraestruturas de IA. A gente tem que fazer com que os nossos dados fiquem aqui e não fora daqui. Nós temos que desenvolver tecnologias que são nossas, que são brasileiras e não só para gestão pública, mas para todo o restante.
A China tem várias posturas que eu acredito serem interessantes, ainda que eu também discorde de outras. Ela tem sido um exemplo nesse nível de soberania nacional aliada à soberania digital: desenvolver mentes, pessoas, tecnologias e infraestruturas para a China, pela China. Nós podemos e devemos nos inspirar nessas iniciativas positivas que são estrangeiras também.
Para além disso, como esse tema das IAs está presente na disputa geopolítica pela hegemonia global, principalmente entre China e EUA? Como esses dois países lidam com o tema?
Então, para que a gente consiga sustentar a indústria de IA do jeito que ela está formada hoje, com grandes empresas de tecnologia concentrando boa parte das IAs, precisa existir muitos dados. Com isso, muitos dados do Sul Global vão para o Norte Global, principalmente para os Estados Unidos.
Precisam ainda ter mão de obra, porque, diferentemente do que muitas pessoas pensam, para treinar um grande modelo de inteligência artificial, não todos, mas esses modelos mais generalistas (ChatGPT, GeminiI, Claude), precisa de gente que vai fazer um trabalho de moderação. Então, tem gente lá fazendo a classificação de se uma imagem é de um celular ou não, avaliando as respostas. E esses trabalhos, normalmente, são muito mal pagos e precarizados. E, normalmente, quem está fazendo esse tipo de função são pessoas aqui do Sul Global, inclusive no Brasil.
É preciso ainda muita água e energia para que essas grandes empresas de tecnologia estrangeiras operem. O Brasil é um país que é conhecido por ter energia “limpa”, o que não significa que não existam riscos ecológicos.
São vários pontos para dizer: existe um interesse muito grande da China e dos Estados Unidos em ocupar outros lugares de diferentes formas, coletando dados e conseguindo entrar no mercado de alguns países, a partir de trabalhos que são precarizados. E, vale lembrar, existem populações que estão mais sujeitas a trabalhos precarizados, como nós aqui.
Em outro aspecto, quando falamos sobre metais críticos, que existem nas terras raras e que ajudam a criar as peças, a infraestrutura que dá conta dos modelos de IA, o Brasil também é um lugar de destaque. Nosso território tem muita terra rara, o segundo país com mais, depois da China, no mundo, segundo o dado que até agora é conhecido.
Ou seja, existe um desejo de manter a hegemonia sobre nós, pensando principalmente nos Estados Unidos e no imperialismo, que busca se aproveitar ao máximo dos outros países. E, óbvio, hoje os Estados Unidos estão perdendo um pouco dessa hegemonia por conta dos avanços tecnológicos, principalmente da China, em robótica e em inteligência artificial. Então, estão basicamente pensando: “Nossa, durante tanto tempo eu fui o império, eu que ditava as regras, e agora tem um país lá da Ásia que tá querendo competir comigo.”
Mas a gente vê duas posturas muito diferentes nesses dois países: enquanto a China parece se voltar mais para dentro, desenvolvendo as suas próprias inteligências artificiais, as suas próprias tecnologias, mas, com certeza, também querendo espalhar isso para o resto do mundo; nos Estados Unidos vimos um movimento mais truculento e muito mais voltado para “preciso atacar esse inimigo” que está crescendo. E não um investimento mais nacional, interno, para que isso se desenvolva para a população, mas para a manutenção de uma hegemonia. Vemos posturas muito truculentas vindas dos Estados Unidos; não que isso não exista em alguma medida na China, mas é muito inferior.
Ou seja, estamos vendo essa disputa, com estratégias diferentes. Só que estamos na globalização, então é impossível pensar em uma independência plena, econômica e até mesmo política. Esse atrito vai continuar e isso vai gerar muitas questões militares, até porque a IA também está sendo alimentada hoje para fins militares, que é outra triste realidade.
Muitas vezes a gente pensa: “Nossa, as pessoas estão só criando vídeos fofinhos de gatinhos, cantando, né?” Não, a IA também está sendo utilizada para fins militares, em armas que são autônomas e que escolhem alvos, inclusive para coleta de dados. Alguém consegue invadir um país, coletar vários dados desse país enquanto o está destruindo para fins de guerra.
Por outro lado, mesmo não sendo neutras, as IAs não são uma tecnologia ruim por si só. Diante disso, que aplicações positivas podem advir das inteligências artificiais?
Já temos várias aplicações muito positivas em muitas áreas, a começar pela área da medicina. Não são todas as aplicações nesta área que são necessariamente positivas, mas hoje existem várias IAs que conseguem processar um número de dados muito, muito, muito grande. O que, de forma individual, não conseguimos fazer. Para diagnósticos ou para identificação de alguma célula que pode ter sofrido alguma mutação, isso já é aplicado na medicina e é algo positivo.
Também vemos como a soberania digital não se restringe só ao que a gente entende por nacional. Uma população específica de um determinado lugar pode desenvolver sua própria inteligência artificial, para que ela consiga resolver problemas ou encontrar oportunidades dentro daquele contexto.
Imaginemos aqui: somos uma pequena comunidade que vive de subsistência e está tendo problemas no solo. De que forma pode existir o desenvolvimento de uma inteligência artificial para que ali seja resolvido algum tipo de problema, para ver o que está causando uma possível (digamos) erosão? O que pode ser feito ali é identificar padrões de solo, identificar padrões de chuva, identificar a umidade do ar; ou seja, existem várias possibilidades.
Algo muito interessante que podemos fazer em nível mais individual é que existem algumas IAs que você pode colocar dentro do seu próprio computador. Então, você não vai precisar usar uma IA que está ligada a uma marca e que está coletando os seus dados.
Vamos supor que eu quero usar aqui uma IA de código aberto, ou seja, que permita que eu entenda como ela funciona de forma mais precisa por ela não ter um sigilo comercial, e meus dados não estão necessariamente sendo coletados para alguma intenção. Então, eu posso fazer uma instalação no meu computador e, com isso, otimizar a minha rotina e cuidar do meu pequeno negócio, ou pensar em otimizar as minhas rotinas de produção.
Ou seja, existem alternativas aos grandes modelos de IA que são gerais e que a sociedade está usando muito. Existe uma infinidade de possibilidades de fazer com que a gente reimagine o que é a inteligência artificial. Hoje, a nossa imaginação e o que a gente entende por inteligência artificial está muito restrita ao que as grandes empresas de tecnologia estrangeiras estão oferecendo para nós
Isso é muito ruim porque estamos perdendo a possibilidade de imaginar outros futuros possíveis a partir das nossas necessidades. E isso requer investimento em tecnologia, informação e em nossa infraestrutura. Para que todas as pessoas minimamente saibam entender como funciona uma IA. E eu não estou dizendo que tenham de entender profundamente linguagens de programação, mas precisam existir modos de fazer com que a população, de forma geral, seja alfabetizada digitalmente e receba um tipo de conhecimento, para que ela própria identifique como pode usar esse conhecimento em prol daquele contexto local. Não precisamos de uma IA que resolva tudo.
As chamadas deepfakes devem estar entre os principais desafios do ambiente digital nas eleições de 2026. Como o eleitor comum pode identificar e se proteger de deepfakes ou outro tipo de desinformação gerado por AÍ nas redes sociais?
É muito comum que eu, que estudo isso, muitas vezes veja um vídeo e não saiba se aquilo foi feito por inteligência artificial ou não. Existem algumas técnicas mais avançadas de computação que vão buscar entender se algo é feito ou não com inteligência artificial. Mas se eu não tenho acesso a elas, o que eu faço?
Aí a gente precisa pensar menos em tecnologia e mais pensar em reflexão crítica. Isso que eu estou vendo parece estar confirmando muito algo em que eu acredito? É algo que parece muito oportuno de estar aparecendo no contexto eleitoral ou no contexto de disputa ideológica, política? Aí a gente precisa arregaçar as mangas e checar.
Eu tenho que ver: existe alguma instituição de checagem de fatos que fez a ponderação se aquilo foi fabricado ou não? De repente existe alguma informação no próprio comentário; alguém aparece dizendo: “Isso aqui é desinformação, isso aqui foi fabricado, tá aqui o link que explica todo esse processo.”
A gente precisa ter essa reflexão, isso requer que a gente saia um pouco dessa lógica de consumo acelerado de conteúdo. Os vídeos curtos já estão aí acelerando a nossa lógica de pensamento. A gente recebe muita informação em pouco tempo. Temos uma saturação enorme de conteúdo na nossa vida. E muitas vezes perdemos a criticidade, a nossa possibilidade de reflexão; aí a gente assume que tudo que a gente está vendo é realidade.
O que a gente não pode perder de perspectiva é: talvez você realmente não entenda se aquele vídeo é fabricado só olhando para ele. Pode ser que você tenha que buscar outras informações para checar. Então, o que eu convido primeiramente é: analise, na medida do possível, algumas coisas no vídeo.
Se, em algum momento, aparece uma mão do nada, ou um rosto que tem um certo padrão e de repente muda o padrão, ou se você vê um movimento muito rápido que parece maquiar os detalhes, porque quando você vai mais devagar consegue ver mais detalhes. Mas, óbvio, já temos inteligências artificiais que conseguem simular o maior realismo.
Mas aí o segundo passo é: duvide, pesquise e se informe. Tome muito cuidado com o viés de confirmação, de você pensar: “Olha, isso faz muito sentido”, e porque confirma uma crença sua. Eu sou uma pessoa um pouco obsessiva nesse sentido: já estou duvidando de muita coisa.
Muitas vezes é real, mas eu vou checar se aquela informação saiu, não necessariamente em grandes veículos, mas em veículos jornalísticos que eu já sei que têm credibilidade. De repente não foi uma pessoa que eu nunca vi na vida que postou um vídeo; foi algum veículo de jornalismo em que eu acredito que fez uma apuração séria e está entendendo se aquilo é real ou não. Então a gente precisa de criticidade, de reflexão crítica mesmo.
