Saúde

Seca contribui para epidemia de dengue, Zika e chikungunya; e afeta população em PE

Mas especialista alerta que "não se pode apontar a seca como única causa", pois há problemas estruturais do saneamento

Brasil de Fato (PE)

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Dados do Levantamento Rápido de Índices para Aedes Aegypit (LIRAa) apontam que 82% dos criadouro do mosquito Aedes na região estão em água armazenada / Ellen Carvalho/Brasil de Fato

Para amenizar os efeitos da seca no Nordeste, o armazenamento de água tem sido uma prática comum. No entanto, dados recentes do Levantamento Rápido de Índices para Aedes Aegypit (LIRAa) nacional de 2015 apontam que o principal tipo de criadouro do mosquito Aedes aegypit na região é a água armazenada (82,5%), ou seja, as más condições deste processo têm colaborado para o aumento da epidemia de dengue, Zika e chikungunya. Na região, há destaque para Permanbuco, que segundo o Boletim de Arboviroses Estadual, tem 91 municípios com risco de surto, 75 em alerta e apenas 15 com nível satisfatório.

Segundo as informações do relatório de arboviroses divulgado pela Secretaria Estadual de Saúde, do início do ano até 16 de abril, foram registrados 59.753 mil notificações de dengue e 9.111 casos confirmados; o que corremponde a um aumento de 13,08% em relação ao mesmo período do ano passado. Também foram calculados 8.716 casos notificados de Zika e 16 confirmados, além de 16.968 casos notificados de Chikungunya e 371 confirmações. 

A gerente de arboviroses da Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco, Claudenice Pontes, explica que cidades com Índice de Infestação Predial (IIP) - cálculo feito pelo número de recipientes onde são encontradas larvas de Aedes aegypti dividido pelo número de imóveis vistoriados e multiplicado por 100 - abaixo de 1% estão no nível satisfatório, entre 1% e 3,9% já é sinal de alerta e maior do que 4% configura-se risco de surto.

“Além desse índice, é importante verificar o Coeficiente de Incidência, que mede o grau de transmissão ativa das doenças. Cidades que estão com esses dois índices elevados, devem receber atenção especial imediatamente”, pontua Claudenice. O município de Brejo da Madres de Deus, localizado na região do agreste pernambucano, é o terceiro município com o maior coeficiente. 

População

Lá moram Edileuza Maria de Andrade e seu pai - e vizinho -, o agricultor Antônio Pedro. Em suas casas, os móveis dividem espaço com as bombonas de armazenamento, pois eles estão sem receber água nas torneiras há, pelo menos, 15 dias. Situação que vai persistir por um tempo, já que a Barragem de Santana II, principal fonte hídrica do município, está com 24% da capacidade total, segundo dados do monitoramento hidrológico diário da Agência Pernambucana de Águas e Clima (APAC), no início de abril.

Não é difícil achar casos de pessoas doentes, com dengue, Zika ou chikungunya na vizinhança. Pela cidade, o que mais se ouve são pessoas reclamando dos sintomas das arboviroses.

“É essa Chikungunya, minha filha, que faz três meses que me pegou”, conta Edileuza. A doença só fez piorar os quadros de artrite e artrose da agricultora de 56 anos. No período mais crítico, conta, ela mal conseguia se vestir sozinha.

Foram duas visitas ao hospital municipal da região. “Chego lá, eles aplicam uma injeção para dor e passam outros medicamentos. Até dá uma aliviada. Mas, depois, as dores voltam”, relata Edileuza, que toma suco de inhame para aliviar o desconforto nas articulações. Dentro de casa, o marido e as duas filhas também foram acometidos.

O agricultor Antônio Pedro, pai de Edileuza, também está doente. Depois da injeção e dos medicamentos dados no hospital, seu quadro tem melhorado. O seu relato é de que todos os seus amigos do sítio estão com a mesma enfermidade.

Graciete da Silva, 70 anos, é uma delas. Ela reclama da perna que não para de doer desde janeiro desse ano. “Cheguei a passar 13 dias sem conseguir sair da cama, com muita dor no corpo, na cabeça e vômito”, declara.

Poder público

A Secretaria de Saúde do município tem agido de forma padrão. Campanhas educativas para chamar a população para combater o mosquito, mutirão de coleta de lixo, carros fumacê e agentes de saúde colocando veneno nos reservatórios de água das casas são algumas das medidas.

“Há o entendimento de que aplicar veneno não é o mais indicado para combater a epidemia. Mas, na situação emergencial em que estamos, é o que se tem feito”, explica Vanessa Cordeiro, secretária de Saúde da localidade. O efetivo de colaboradores no atendimento à população também foi reforçado e, a partir do decreto emergencial baixado pelo prefeito, foi feita a aquisição de medicamentos e outros insumos para atender a comunidade.

Recife é uma das capitais brasileiras em estado de alerta. O surto de microcefalia nos bebês pernambucanos é um outro problema que tem gerado grande preocupação. Várias pesquisas estão sendo desenvolvidas, na tentativa de entender se os casos de microcefalia tem relação com o Zika.

A seca

As famílias do semiárido pernambucano e brasileiro lidam com a escassez de água há muito tempo. E diversas organizações já trabalham com a educação das famílias para a boa gestão da água que conseguem armazenar. “As ações da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) são para que as famílias consigam captar e armazenar a água da chuva corretamente. Ao conquistar as cisternas, a comunidade passa por capacitações e consegue fazer um bom uso do recurso hídrico”, explica o coordenador da ASA Pernambuco, Alexandre Pires.

Uma questão que precisa ser colocada, de acordo com Pires, é a falta de políticas públicas voltadas para o saneamento básico no Brasil. O que é reforçado por Ana Paula, professora de Saúde Coletiva na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). “Não se pode apontar a seca como única causa. Nem passar a responsabilidade apenas para a população. O combate que vem sendo feito há anos para acabar com a epidemia de dengue não tem tido eficácia. É um trabalho voltado para conscientização da população, por meio de ações educativas, mas que não resolve problemas estruturais”, disse.

O Instituto Nacional do Semiárido (INSA) fez um levantamento no qual foi demonstrado que 71% das pessoas que moram nas áreas urbanas dos 1.335 municípios do semiárido brasileiro não contam com rede de esgoto.  “É preciso entender também que saneamento básico é a rede de esgoto, a distribuição de água com regularidade e qualidade e, também, a eliminação dos lixões”, ressalta Ana Paula. De acordo com a Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa), apenas 24% de todo o estado é saneado.

Na sala de comando e controle da Secretaria Estadual de Saúde, o diálogo entre Ministério da Saúde e do Meio Ambiente, junto com as secretarias estadual e municipais, é sobre a necessidade de garantir à população o serviço de saneamento adequado. “Ações emergenciais devem ser feitas, mas o problema do saneamento precisa ser efetivamente solucionado. E isso é algo a longo prazo”, constata Claudenice.

Edição: Simone Freire.