Democracia

Agressão a Letícia Sabatella aponta caráter antidemocrático de ato da direita

“Sinto muito por eles estarem vendo as coisas dessa maneira, com tanto ódio", lamentou a artista, sobre os agressores.

De Curitiba (PR)

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Leticia Sabatella registrou Boletim de Ocorrência por volta das 22h, na 1ª Distrito Policial de Curitiba. Ao seu lado está o advogado Nasser Ahmad Allan. / Joka Madruga/Terra Sem Males

Há menos de um quilômetro de distância, manifestações pró e contra o governo interino de Michel Temer (PMDB) ocuparam simultaneamente o Centro de Curitiba, na tarde deste domingo (31). O ato mobilizado pelo movimento Vem Pra Rua, a favor do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, estava recheado de cartazes e faixas com as frases "Intervenção militar já" e "FFAA salve-nos do comunismo".

O caráter antidemocrático dos cartazes do público tornou-se concreto com a agressão sofrida pela atriz e cantora Letícia Sabatella. A violência ocorreu quando a atriz passava em frente ao Teatro Guaíra, na Praça Santos Andrade, local de encerramento da manifestação. O vídeo publicado pela própria artista no Instagram, uma mulher grita: “Comunista, cria vergonha. Nossa bandeira jamais será vermelha. Sem vergonha, acabou a mamata pra vocês. Chora petista”. Um homem que passa vai em direção à atriz e a chama de “puta”. É possível escutar alguém que diz ao homem: “Isso é misógino”.

Acompanhada pela mãe e por um advogado, a artista registrou Boletim de Ocorrência por volta das 22h, no 1º Distrito Policial da capital. Ao sair da delegacia, Sabatella conversou com jornalistas de veículos de comunicação alternativos, entre eles o Brasil de Fato. “Sinto muito por eles estarem vendo as coisas dessa maneira, com tanto ódio", lamentou.

Sabatella e acompanhada da mãe, no 1º Distrito Policial de Curitiba (Fotos: Foka Madruga, do Terra Sem Males)

“Neste momento tem tantas pessoas que, de algum modo, estão sofrendo consequências desse golpe que está acontecendo no Brasil”, e cita como exemplo injustiças, prisões, mortes de indígenas Guarani Kaiowá e trabalhadores rurais sem-terra.

Para Nasses Ahmad Allan, advogado que acompanhou Sabatella à delegacia, o episódio entra para a lista de casos de intolerância ocorridos no país. “Simplesmente porque ela tomou postura política contrária àquilo que eles pensam. Isso é absoluta intolerância. Mais do que intolerância, é estupidez”, diz o advogado. Segundo Ahmad Allan, os fatos caracterizam crimes contra a honra.

 “São dezenas de pessoas que tentam hostilizá-la e acuá-la, com agressões verbais, e até mesmo físicas”, explica Ahmad Allan, ao afirmar que os vídeos comprovam a violência.

O coletivo de audiovisual Trópicos entrevistou Adriana Baggio, manifestante intervencionista que presenciou a violência contra a artista e diz ter tentado defendê-la de linchamento. “Eu sou contra ela porque é comunista", disse.

Ato Fora Temer

“Acho que as manifestações deles [movimento Vem Pra Rua] no fim deve ter sido muito ruim. A manifestação na Praça do Homem Nú, contra o Temer, foi muito mais amorosa, muito mais acolhedora. Quando eu cheguei lá as pessoas estavam felizes, estavam falando, protestando, comentando. Mas ali [na Santos Andrade] a energia que eles criaram, ninguém fica feliz depois daquilo”, opina Letícia Sabatella sobre o clima dos dois atos.  

Manifestante presente no ato "Fota Temer". (Foto: Gabriel Deitrich) 

A diversidade de cores e formas de manifestação marcaram o ato “Fora Temer”, organizado pelas frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular, com participação massiva de integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto – MTST, pessoas LGBTT e integrantes de movimentos culturais. A bandeira do Brasil também esteve presente, somada ao vermelho e ao colorido presentes nos estandartes e faixas. A manifestação teve início na Praça 19 de Dezembro, às 15h, e seguiu para a Praça Tiradentes, ocupando a Rua Cândido de Abreu.

Ato "Fora Temer" reunir cerca de 3 mil pessoas. (Foto: Gabriel Deitrich) 

Cristiane Oliveira, que trabalha como educadora social com jovens da periferia de Curitiba, e também é militante da Pastoral Afro, afirma a importância da unidade entre vários segmentos. "Para mim, é como se eu tivesse pegado energia e força com as pessoas que estão aqui. Diante de tanta injustiça e exclusão do povo, a gente vem num ato como este se sente fortalecida", garante a professora.

Por uma cultura democrática

Jessica Candal Sata trabalha com audiovisual, faz parte do Conselho Municipal de Cultura e integra o movimento Cultura Resiste, um dos que compuseram a mobilização “Fora Temer”. Ela afirma que, apesar de ter voltado atrás na tentativa de desmanche do Ministério da Cultura, o governo interino não garantirá políticas públicas para uma cultura democrática e popular. Confirmação disso é a dificuldade em dar andamento ao Sistema Nacional da Cultura.

"É como se fosse um SUS da cultura, que era para unificar todas as políticas públicas, para tornar a cultura muito mais democrática. Isso está em andamento, a gente precisa implementar, e com este governo isso não vai acontecer", opina a militante, sobre a política aprovada em 2012, durante primeiro mandato do governo Dilma Rousseff.