Venezuela

Entidades prestam apoio à Venezuela em ato em Brasília

Movimentos demonstram preocupação com avanço do conservadorismo na América Latina

Brasília (DF)

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Entidades foram recebidas pelo ministro conselheiro da Venezuela no Brasil, Gerardo Delgado, a quem foi entregue um manifesto de apoio ao governo de Nicolás Maduro / Cristiane Sampaio/Brasil de Fato

Um grupo de manifestante de 11 entidades realizou na manhã desta quinta-feira (1º) um ato de solidariedade em frente à Embaixada da Venezuela, em Brasília. A ação teve o objetivo de demarcar oposição ao avanço do conservadorismo na América Latina, com destaque para o rechaço ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff, ocorrido nessa quarta-feira (31), e para as iniciativas reacionárias que tentam desestabilizar o governo do presidente venezuelano, Nicolás Maduro.

A iniciativa ocorre no mesmo dia em que grupos de direita realizam atos em Caracas, capital da Venezuela, para cobrar a realização de um referendo revogatório do mandato de Maduro, eleito em 2013. Herdeiro político do ex-presidente Hugo Chávez, que governou o país durante 14 anos, e com mandato até 2019, ele se elegeu com 50,66% dos votos válidos, o equivalente a 7,5 milhões. Uma eleição apertada e protagonizada com o oposicionista Henrique Capriles.

Alvo de cobiça mundial por ter fartas reservas de petróleo, a Venezuela enfrenta problemas na economia e ciclos de escassez de bens de consumo.

"Estamos vivendo um momento muito difícil no mundo, em especial na América Latina, de tentativas de golpes brancos. O novo golpismo não é mais feito com tanques. Ele assumiu uma faceta parlamentar e de desestabilização econômica. Setores da elite econômica trabalham para desestabilizar a economia e depois o ambiente político, aí criam o contexto dos golpes", analisou Yuri Soares, da direção da Central Única dos Trabalhadores (CUT) de Brasília.

Segundo ele, as entidades que fizeram o ato em Brasília temem que a Venezuela tenha um desfecho semelhante ao do Brasil, com a deposição do presidente. "O imperialismo já deu golpe em Honduras e no Paraguai, por exemplo. A elite brasileira se aliou a uma elite imperialista para dar golpe aqui também, tentando dominar o continente. Então, a desestabilização que a Venezuela vive hoje precisa ser vista dentro desse panorama, que conta ainda com a participação de setores da mídia, interessados em comprometer a imagem do governo para neutralizar os setores populares", analisou.

Para a Central de Movimentos Populares (CMP), a simbologia do ato na Embaixada da Venezuela tem um valor de caráter global. "Os povos estão ficando cada vez mais conscientes de que a luta contra o capitalismo tem que ser universal, daí a importância de estarmos aqui unindo forças. Ações como esta são fundamentais neste momento", afirmou Afonso Magalhães, da direção da CMP no Distrito Federal.

Relação Brasil-Venezuela

Na ocasião, o grupo de militantes foi recebido pelo ministro conselheiro da Venezuela no Brasil, Gerardo Delgado, a quem foi entregue um manifesto de rechaço ao avanço do conservadorismo, demonstrando apoio ao governo de Maduro.

Entre as entidades que assinam a nota estão o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), a CMP, a CUT, o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), o Partido do Socialismo e Liberdade (PSOL) e o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).

"Nós nos sentimos muito agradecidos por essa iniciativa, em especial neste momento em que a oposição tenta desestabilizar nosso país. É importante ver que eles [os movimentos e partidos] apoiam nosso governo e nossas instituições, que são legítimas", declarou Delgado, acrescentando ainda que o ato fortalece a fraternidade entre os povos brasileiro e venezuelano.

Questionado sobre como percebe a mediação feita pela mídia tradicional brasileira a respeito da situação da Venezuela, Delgado se disse preocupado. "Há muitos veículos que repetem a todo momento informações que não correspondem à realidade, por isso convido o povo brasileiro a ver também a Telesur e outros meios, porque é preciso conhecer outras opiniões", disse.

O ato de solidariedade das entidades ocorre em meio a uma fissura nas relações diplomáticas entre Brasil e Venezuela, que já estavam abaladas desde o afastamento temporário da presidenta Dilma Rousseff.

Nessa quarta-feira (31), com a consagração do impeachment, o governo de Nicolás Maduro publicou uma nota em que classifica mais uma vez o processo como um "golpe de Estado".

Ele decidiu retirar definitivamente o embaixador venezuelano no Brasil, Alberto Castelar, e "congelar as relações políticas e diplomáticas", conforme informa a nota.

Soberania nacional

Para Pedro César Batista, da Refundação Comunista, que também esteve presente no ato, o contexto atual do Brasil e da Venezuela leva a uma situação de comprometimento da soberania dos dois países.

"A grande ação estratégica de controle no mundo hoje passa pelo desmonte dos Estados nacionais. A CIA, o Pentágono, o governo dos Estados Unidos (EUA) e o pequeno grupo de empresas que controla e decide tudo no mundo têm o objetivo de colocar nos países onde há governos progressistas – Venezuela, Uruguai, Bolívia e Equador, por exemplo – políticos que cumpram o programa neoliberal, tornando esses Estados absolutamente servis aos interesses do grande capital. Nós entendemos que nós é que temos o direito de decidir os nossos destinos, e não os EUA, por isso não aceitamos essa linha política", explicou Batista.

Ele destaca as semelhanças entre os movimentos de direita que vêm se apresentando nas ruas do Brasil e da Venezuela. "Os grupos que hoje estão organizando manifestações em Caracas e querem depor o presidente têm as mesmas características daqueles que promoveram as articulações que levaram ao impeachment de Dilma. Os golpistas de lá são colegas dos golpistas daqui, por isso também a nossa necessidade de demonstrar solidariedade ao processo revolucionário bolivariano da Venezuela", disse.

Recursos naturais

Também preocupado com a situação da América Latina, o MST levanta uma outra faceta da problemática relacionada à interferência de forças e governos conservadores no continente: o comprometimento das riquezas naturais.

"Há um interesse externo, por exemplo, no pré-sal, na bacia aquífera e nas terras rurais, que eles querem entregar de vez para os estrangeiros. Isso já vinha ocorrendo, claro. Não é um processo novo, mas tende a se consolidar ainda mais", salientou Ana Moraes, do coletivo de Relações Internacionais do MST, destacando ainda o interesse norte-americano nas reservas de petróleo da Venezuela.

Para o MST, há ainda uma preocupação com a paralisação das políticas públicas destinadas ao campo. "A entrega das terras rurais no Brasil, por exemplo, traz uma tendência de um novo êxodo rural para as cidades. Está claro que o que eles querem é privatizar o país, incluindo as terras", afirmou Ana Moraes, destacando o caráter antinacional do governo de Michel Temer.

Edição: Camila Rodrigues da Silva