Memória

47 anos da morte de Marighella: o legado do principal opositor da ditadura militar

Militantes de diferentes gerações falam sobre a importância da vida do guerrilheiro, morto em São Paulo (SP) em 1969

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Cartaz do ato em homenagem a Carlos Marighella deste ano / Reprodução

Há exatamente 47 anos, o político, guerrilheiro, escritor e fundador da Ação Libertadora Nacional (ALN), Carlos Marighella, era assassinado na Alameda Casa Branca, na região do centro de São Paulo, em uma emboscada preparada por agentes do Departamento de Ordem Pública e Social (DOPS). Apontado como inimigo público número um da ditadura militar e tendo seu rosto estampado em diversos cartazes de "procurado" pelo Brasil, o guerrilheiro foi morto no dia 4 de novembro de 1969.

Apesar do tempo que se passou, a memória e o legado continuam sendo reivindicado por militantes e movimentos populares atuais. Para Nathaly Santhiago, da direção nacional do Levante Popular da Juventude e da Frente Brasil Popular, é essencial levar em conta a luta do criador da ALN nos dias de hoje. "Para o Levante Popular da Juventude, reivindicar Marighella é reivindicar sua luta, sua resistência e seu exemplo como militante", opinou.

"Ele era um militante diferente dos padrões daquela época, a talvez ainda causa estranhamento. Organizou blocos de carnaval, fez poesia. Para nós do Levante, os detalhes simples de sua trajetória são exemplo fortes e inspiradores, como o fato de ter resistido à prisão com capoeira. Ele conseguiu aglutinar pessoas em torno da esperança de liberdade quando as trevas da ditadura consumiam o país. Ele amou o povo e lutou junto ao povo. Por tudo isso, todo o povo brasileiro deve lembrá-lo e reivindicá-lo", disse a dirigente.

Companheiros

Aton Fon Filho, militante da ALN que também foi detido e torturado pelo DOPS em 1969, e passou quase dez anos no cárcere, afirma que, embora os golpes sejam diferentes, a memória do guerrilheiro continua presente. "A importância que Marighella dava ao trabalho de massas, à organização dos trabalhadores, às mobilizações, à questão da necessidade de fazer a luta prática e não se perder na teorização… Tudo isso são aprendizados importantes e válidos".

Já para Rose Nogueira, jornalista e integrante do Grupo Tortura Nunca Mais, o maior legado que Marighella deixou foi "a luta por um dos maiores direitos humanos: o direito à resistência contra a tirania". Rose também integrou a ALN, tendo sido encarcerada entre novembro de 1969 e julho de 1970, quando dividiu cela com Dilma Rousseff.

"Está na Declaração Universal dos Direitos Humanos, está na Bíblia, na carta de Santo Agostinho, na Carta dos Direitos dos Homens da Revolução Francesa e na de Independência dos EUA, e está na Constituição Brasileira de 1988: todo homem tem direito à resistência contra a tirania. Ele fez isso magistralmente durante toda a vida dele de diversas maneiras. Como homem, como parlamentar, como oposição, como militante do partido comunista, como fundador da ALN. Ele amou profundamente o povo brasileiro e detestou a tirania, então o legado humano dele é muito grande, profundo e universal. Ele exerceu isso em toda a vida dele, durante vários tipos de tirania", afirmou.

Companheira

A militante comunista e feminista Clara Charf, ex-militante do PCB e viúva de Marighella, destacou, em entrevista para o Brasil de Fato publicada em 2014, o lado humano do guerrilheiro. "Era muito difícil (viver naquela época). Tínhamos que viver com o nome trocado. E não tínhamos muito recurso, tinha que ser tudo contado. Tinha que ter muito cuidado para não deixar pistas, não sermos reconhecidos", contou.

"Mas o dia-a-dia com o Marighella era muito bom. Na vida em comum, dividíamos tudo. As coisas pesadas ele fazia, e as coisas mais leves, eu fazia. Uma coisa pesada era passar o escovão no chão, por exemplo. O escovão era um negócio pesado pra chuchu, então ele fazia isso. E ele não sabia passar roupa, então quem fazia isso era eu. E ele resolveu que, enquanto eu passava roupa, ele ia ler alguma coisa em voz alta para mim. 'Em vez de você passar sozinha sem ouvir nada, você vai ouvindo as coisas que eu vou ler', dizia. Ele sempre foi muito solidário. Podia ter muitos defeitos, como todo mundo tem, mas era incapaz de ver você fazendo uma coisa e ficar de braço cruzado. Isso foi uma grande lição", lembrou Clara.

Nesta sexta-feira, como tradição, foi realizado o ato "Homenagem ao Comandante Marighella - Assassinado em 1969", às 10h30 na Alameda Casa Branca, em frente ao local onde Marighella foi assassinado. 

História

Baiano e descendentes de escravos por parte de mãe, Carlos Marighella cursava engenharia civil na Escola Politécnica da Bahia quando, aos 18 anos, entrou para o Partido Comunista. Foi preso pela primeira vez em 1932 por escrever e divulgar um poema com críticas ao interventor da Bahia, Juracy Magalhães. Em 1936, mudou-se para São Paulo com o objetivo de reorganizar PCB no estado.

Marighella foi preso outras vezes pelo governo de Getúlio Vargas e chegou a viver no presídio de Fernando de Noronha por três anos, onde os presos se organizavam politicamente em divisão igualitária de tarefas e chegaram até mesmo a criar uma Universidade Popular, onde Marighella ensinou filosofia.

Eleito deputado constituinte em 1945, após o apoio do Partido Comunista ao Estado Novo no contexto da Segunda Guerra Mundial, o guerrilheiro chegou a dirigir uma revista teórica do partido Problemas, quando novamente voltou à clandestinidade, com a perseguição do governo de Eurico Gaspar Dutra, empossado em 1946, ao PCB. Nessa época conheceu Clara Charf, militante comunista e feminista que foi sua segunda esposa e companheira até o fim da vida.

Marighella continuou atuando no partido entre 1949 e 1954, apesar de incomodar a direção partidária por ser considerado excessivamente esquerdista. Participou da organização da "Greve dos Cem Mil", em 1953, e da campanha "O Petróleo é Nosso", além de ter viajado para a China e para a União Soviética por razões políticas.

Em 1964, logo após o golpe militar, Marighella foi baleado e preso por 80 dias em um cinema da Tijuca, no Rio de Janeiro (RJ). Após ser liberado, ele publicou os livros Por que resisti à prisão e A Crise Brasileira, nos quais pregava a luta armada com base na aliança entre operários e camponeses.

Em 1967, Marighella foi expulso do PCB por participar da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), em Cuba. No mesmo ano, fundou a Ação Libertadora Nacional (ALN), grupo político que preconizava a luta armada.

Atuou por dois anos na organização, participando de diversas ações armadas para adquirir fundos para a construção do partido e influenciando profundamente o movimento estudantil.

Em 1969, junto com o Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8), a ALN protagonizou o sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, que foi trocado por quinze presos políticos.

Edição: Camila Rodrigues da Silva