Entrevista

Stedile: "Não é só uma ofensiva da direita. É uma falha do velho estado burguês"

Para o coordenador nacional do MST, temos que pensar em outro tipo de estado e outras formas de democracia participativa

Il Manifesto | Itália

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Para participando do I Encontro Mundial de Movimentos Populares, em 2014 / Reprodução

Desde quarta-feira (2) até sábado, o Vaticano é cenário do III Encontro Mundial de Movimentos Populares com o Papa Francisco. Esta é a primeira vez que o encontro se realiza em Italia, congregando milhes de homens e mulheres de todo o mundo comprometidos com as lutas populares.

Em dialogo com Il Manifesto, de Italia, o dirigente do Movimentos dos Trabalhadores Sem Terra (MST), parabenizou o processo permanente de diálogo e destacou o papel fundamental do lidera da igreja católica na promoção de debates para construir coletivamente possíveis caminhos para afrontar a crise económica, politico, social e ambiental contemporânea.

Confira a entrevista dada ao jornal Il Manifesto:

Il Manifesto - Qual é o objetivo do III Encontro dos Movimentos Populares?

João Pedro Stedile - Desde que Francisco assumiu o pontificado, ele manifestou de diversas formas a sua vontade de construiu junto aos movimentos populares, aos trabalhadores excluídos, aos povos tradicionais, indígenas, pessoas de todas as etnias e religiões. Com isso, temos construído um processo de permanente diálogo para analisar os dilemas da humanidade que afetam à maioria da população.

:: III Encontro Mundial de Movimentos Populares discute problemas da contemporaneidade

 

Realizamos um primeiro encontro em outubro do 2014. Depois daquele, teve uma tendência latino-americana. O segundo foi maior, em agosto do 2015, na Bolívia. E agora, continuamos com o terceiro, reunindo mais de 200 companheiros de todos os continentes.

Agora avançaremos para debater temas importantes para a humanidade que afetam a todos, como a democracia burguesa hipócrita, que nem respeita a vontade da população, a apropriação privada dos dos bens comuns da natureza, e os refugiado em todo o mundo.

Desse diálogo frutífero, sempre tiramos conclusões, sínteses coletivas, que aporta nos debates políticos das nossas bases sociais sobre os graves problemas que temos no mundo, e que, infelizmente, são os mesmos em todas as partes. Pensamos quais são as causas e o que devemos fazer para enfrentá-los.

O tema do meio ambiente é central. Se, no caso do Brasil, abre-se ainda mais as licenças para o agronegócio, por outro aumentam o número de ambientalistas e lutadores perseguidos e mortos…

Sim, no primeiro encontro tivemos a presença de Berta Cáceres, que entregou um longo documento ao Papa falando das agressões do capital ao meio ambiente e aos povos indígenas em toda América Central. Mas ela não participará deste encontro, porque foi assassinada. E tem outros ameaçados pelos empresários e os seus governos em diversos países, que não poderão estar presentes. Por isso, com certeza vamos debater com maior profundidade sobre os crimes ambientais que se repetem em todo o mundo.

E porque aumentaram? Porque no tempo de crise do capitalismo, as grande corporações aumentaram suas pressões sobre a apropriação rápida e privada dos bens da natureza, porque é a forma mais rápida de tirar lucros extraordinários, pela enorme diferença entre o custo da extração (valor de trabalho) e o preço de mercado, de bens que são raros. Neste sentido, no primeiro encontro já avançamos muito nas reflexões e a encíclica Laudato Si, recolhe essas reflexões comuns na doutrina cristã, mas também nas reflexões sobre o meio ambiente e os movimentos populares. Essa encíclica é o nosso principal instrumento de conscientização e debate em todo o mundo. Francisco conseguiu fazer uma sínteses sobre os problemas, que nenhum pensador de esquerda tinha feito antes.

Desafortunadamente, muitas coisas tem mudado após do segundo encontro. Como tem sido a organização do encontro em Roma?

Esse é o tema da democracia hipócrita e as falências dos estados. Agora, vamos aprofundando o tema. Não é só uma onda de ofensiva da direita. É uma falha do velho estado burguês, criado pela burguesia industrial na Europa no século 18, que agora não funciona nem para satisfazer os interesses do capital financeiro.

As eleições não respeitam a vontade popular, porque o voto é manipulado pela televisão, pelo dinheiro das empresas, pela corrupção, e a consequência tem sido o ceticismo político das massas.

Temos um longo caminho pela frente, mas temos que pensar outro tipo de estado, outras formas de democracia participativa, popular. Para isso, temos convidado a esposa de Sanders, dos Estados Unidos, e a Pepe Mujica, para que debatam conosco neste Terceiro Encontro.

No bicentenário da Argentina, o Papa enviou uma mensagem “bolivariana”. Como analisa o tema da Pátria Grande neste encontro? Que opina do diálogo do Vaticano na Venezuela?

O Papa Francisco conhece muito bem América Latina, desde os tempos em que ajudava a coordenar os encontros do Celam. Inclusive no último, realizado no Brasil, ele foi o coordenador da redação do documento final. Acho que ele tem um compromisso fundamental, que procura no evangelho, junto aos pobres e aos trabalhadores. E ele sabe que as maiorias em todo o continente continuam exploradas por uma minoria, o 1% de capitalistas, agora subordinados aos interesses das empresas transacionais e dos bancos estrangeiros. Por isso, sempre se posiciona a favor dos trabalhadores e contra as grandes corporações.

Acho que, além das contradições do estado do Vaticano, que tem que manter boas relações com os demais estados, o Papa sabe o que está acontecendo na Venezuela. Ali tem uma disputa de quem fica com o lucro do petróleo; se os investimentos sociais para o povo vão ser continuados ou se voltarão a priorizar interesses de uma minoria.

O país vive uma grave crise econômica, como o resto do continente, desde México até Chile. E todos os modelos econômicos adotados nas ultimas décadas estão em crise. Eu acho positivo que o Papa tenha tido uma posição favorável à negociação no caso de Venezuela, porque a direita quer a guerra, quer derrubar ao governo, como já fizeram em Honduras, no Paraguai e no Brasil, com os golpes institucionais. Ou pela manipulação mediática, como fazem no México, Guatemala, Panamá, Peru, Colômbia, Argentina, Chile… para citar alguns casos.

E como está sendo a lutas dos movimentos populares no Brasil e na América Latina como um todo?

O Brasil vive uma grave crise econômica, política e ambiental, como todo o continente. Diante disso, os governos subordinados aos interesses dos Estados Unidos e as suas empresas estão impondo políticas ainda mais aprofundadas no neoliberalismo, que significa tirar os direitos conquistados pelos trabalhadores, apropriar-se recursos públicos do orçamento, reduzindo ao mínimo a receita em gastos sociais, como saúde e educação, apropriar-se dos recursos naturais e implementar políticas de repressão diante das mobilizações.

Mas, no Brasil e em todas partes, a sociedade está reagindo. Ainda estamos resistindo. Estamos vivendo um refluxo do movimento de massa em todo o continente, mas acho que, pelas condições objetivas da situação política, que os problemas vão agravar e que, antes do imaginado, a classe trabalhadora e a juventude irá às ruas, não só para protestos, também para exigir novos modelos de política econômica, novos programas, novos governos.

Estamos tratando de conscientizar as pessoas, organizar os movimentos populares para que lutem, e para que, no futuro próximo, possamos ver um reascendo do movimentos de massas, tanto no Brasil como no resto dos países do continente que sofrem com o neoliberalismo. Que a juventude comece a se movimentar e que já tenhamos milhares de escolas y universidades ocupadas pelos estudantes, isso nos anima.

Tradução: María Julia Giménez