Ocupações

Estudantes desocupam UFPR, mas vão a Brasília protestar contra a PEC 55

A estimativa é de que 30 ônibus partiram do Parará para Brasília para participar de protesto contra a PEC 55

Curitba

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"A vida acadêmica vai ter mais significado a partir de agora", diz Magda Zani Silva, estudante do segundo ano de Pedagogia da UFPR / Carlos Ruggi

Neste sábado (26), após 32 dias de ocupação, estudantes da Universidade Federal do Paraná (UFPR) deixaram os oito prédios ocupados. Entre as dezenas que saíram dos prédios Dom Pedro I e Dom Pedro II, ao lado da Reitoria da instituição, a maioria se organizava para embarcar nas caravanas rumo a Brasília, onde haverá um ato nacional contra a Proposta da Emenda à Constituição (PEC 55), que pretende congelar os gastos públicos por duas décadas, e a MP 746 – a Medida Provisória da reforma do ensino médio.

A estimativa é de que cerca de 30 ônibus partiram do Parará para a capital federal, segundo informações de centrais sindicais. A caravana reúne estudantes secundaristas, universitários, trabalhadores de diversas categorias e de movimentos populares. A votação da PEC no Senado está prevista para esta terça-feira (29).

Em carta lida por cinco estudantes da Reitoria no momento da desocupação, os ocupantes garantem a continuidade da greve estudantil, deflagrada em assembleia com mais de mil estudantes no dia 26 de outubro. Nesta segunda-feira (28), houve piquete e mobilizações em diversos setores da universidade.

A partir da assembleia do dia 26, as ocupações da UFPR passaram a se articular por meio de comando de greve, por grupos de Whatsaap e por uma página conjunta no Facebook. Magda Zani Silva, estudante do segundo ano de Pedagogia e uma das ocupantes do Prédio Dom Pedro I, explica que diariamente havia publicação do calendário das atividades das ocupações.


(Foto: Carlos Ruggi)

Novo significado

"Eu acho que a vida acadêmica vai ter mais significado a partir de agora". É a expectativa da estudante de pedagogia Magda Zani Silva sobre o futuro da universidade pós-ocupações. Ela fala em uma ressignificação do ambiente acadêmico por te visto pessoas, entre estudantes e professores, se somando ao objetivo de protestar contra a retirada de direitos importa pelo governo federal. Além disso, reforça a presença majoritária de mulheres no movimento.

“Esse novo significado vale para o nosso setor em especial, porque o nosso curso era visto como o feminino, das professorinhas, das tias. E conseguimos articular muita gente. Várias pessoas vieram perguntar de onde surgiu, com era a organização", relata a futura pedagoga, que aponta os estudantes secundaristas como principais motivadores da luta na universidade.

Ao longo dos 32 dias de ocupação do Dom Pedro I, os estudantes se revezavam na organização e manutenção do espaço, com a mobilização de oficinas e aulas públicas. Magda estava entre as ocupantes que reorganizou a rotina para se somar à luta. “Eu ia trabalhar de tarde e dormia na ocupação. Quase não passei em casa nesses dias”, conta a jovem.

Ganhos para futuras lutas

As desocupações dos prédios da UFPR, de certa maneira, concluem um período histórico de resistência estudantil no Paraná. Monica Ribeiro, professora do Setor de Educação e coordenadora do Observatório do Ensino Médio da UFPR, se emociona ao fazer um balanço do que forma as “51 noites mal dormidas”, desde a ocupação das primeiras escolas, em São José dos Pinhais. "Hoje marca 51 dias de porta de escola, de menina mandando áudio pelo Whatsaap gritando que o diretor estava estourando a porta, privando de água e de luz, MLB [Movimento Brasil Livre] indo para a porta com movimento de desocupação".

Para a pesquisadora, tanto secundaristas quanto universitários tiveram o papel fundamental de dar visibilidade ao conjunto de medidas do governo federal contra a população brasileira, para além da PEC 55 e da MP do ensino médio. "O grande ganho político foi a formação de uma geração inteira que percebeu, como eles mesmos dizem, que a luta muda a vida".


(Foto: Carlos Ruggi)

No contato intenso com as ocupações secundaristas, a professora percebeu o desprendimento dos adolescentes ao defenderam algo de interesse maior, para além de questões individuais, se colocando no “lugar do outro”: "Os meninos do ensino médio que ocuparam as escolas me disseram uma coisa fantástica. Eles não estavam ali por causa deles, por que até que a MP entrasse em prática eles já estariam formado. Eles se arriscaram como se arriscaram, enfrentando diretor de escola, em nome do outro. Essa alteridade é tudo que o mundo precisa”.

Na avaliação de Monica Ribeiro, o ganho político não é imediato, mas marca uma geração inteira e será visto pela história e lembrado no futuro, quando os retrocessos serão sentidos por toda a população. "A PEC vai passar com Brasília tomada. Eles trancados lá dentro aprovando, e o povo na rua dizendo não. Esse é o ganho político. É o registro histórico de que tudo está passando, mas está passando por cima do povo", garante.