AGROTÓXICOS

Bhopal, a tragédia que ainda está acontecendo

Triste é saber que tudo isso poderia ser evitado

Recife

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Allan Tygel é integrante do Comitê de Luta contra os Agrotóxicos em Pernambuco. / Arquivo pessoal

Três de dezembro de 1984. Um vento refrescante da meia-noite soprava na cidade de Bhopal, localizada na região central da Índia. Da fábrica de agrotóxicos Union Carbide, saia uma nuvem fina de vapor da torre mais alta, e em pouco tempo a cidade estava coberta pela neblina tóxica.

Naquele momento, ninguém sabia o que estava acontecendo. Pessoas vomitavam de forma incontrolável, entravam em convulsão e caiam mortas.

No total, cerca de 3.000 pessoas morreram na hora. Nos meses subsequentes, calcula-se a morte de 15.000 pessoas. Mais de 300.000 pessoas foram intoxicadas, e atualmente de 2 a 3 pessoas morrem por semana ainda em decorrência do desastre de Bhopal.

Desde então, lembramos em 3 de dezembro o Dia Mundial de Luta Contra os Agrotóxicos.

No Brasil, por sorte nunca tivemos um desastre como o de Bhopal. Mas isso não significa que nossa situação seja boa.

O Ministério da Saúde registrou quase 40.000 intoxicações por agrotóxicos entre 2007 e 2014. Isso sem contar os casos em que os agrotóxicos provocam doenças crônicas, como o câncer, que não são computadas, e uma taxa altíssima de intoxicações agudas que não são registradas. Bhopal também é aqui.

Os agrotóxicos no Brasil provocam muitos problemas. Intoxicam os trabalhadores das fábricas, intoxicam os agricultores que aplicam os venenos, e sobretudo, intoxicam a todos nós, que colocamos estes alimentos na mesa diariamente.

Triste é saber que tudo isso poderia ser evitado. O uso de agrotóxicos no Brasil tem um motivo bem claro: produzir soja, milho, algodão, eucalipto e cana para exportação. Para sustentar este modelo, precisa sim, e de muito agrotóxico.

Mas para produzir comida de verdade, não. Basta organizar um espaço de produção bem diversificado, juntar diversas plantas, manter o solo vivo com adubos orgânicos e cuidar da terra com carinho.

Basta dar terra para quem trabalha na terra, e dar condições – educação, saúde, agroindústria – para quem vive no campo poder produzir alimentos saudáveis. E com os incentivos certos, esse alimento pode chegar na cidade a um preço que toda a população pode comprar.

Esse é o projeto da agroecologia. E neste dia 3 de dezembro, afirmarmos em alto em bom som: é preciso investir na agroecologia para que não haja mais nenhum Bhopal no mundo!