Integração

Desafios sociais dos Brics unem movimentos populares

Defesa das riquezas naturais e críticas a megaeventos são pautas comuns dos movimentos e organizações

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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Protestos na África, convocados pela Via Campesina, mobilizam centenas de pessoas na luta pela terra e em defesa da natureza / Divulgação

Desde 2006, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, nações em desenvolvimetno que integram os Brics, estimulam uma agenda de cooperação entre os países do bloco. Movimentos populares e organizações sociais destes países também unem esforços para articular lutas conjuntas para propor alternativas à crise sistêmica do capitalismo.

Marina dos Santos, da coordenação da Via Campesina na América do Sul, defende que uma das principais tarefas dos movimentos populares será investir nas lutas sociais e na integração dos povos que compõem os Brics. “Nossa luta é antissistema, em defesa da natureza, especialmente da terra e da água, que devem estar a serviço da humanidade e não nas mãos de poucas empresas que exploram esses recursos”, ressalta. A Via Campesina é uma organização internacional que reúne mais de 200 movimentos populares, em 90 países. "Nós temos uma forte presença em países da África e Ásia, com uma agenda comum de mobilizações”, complementa.

O Dia da Alimentação, comemorado em 17 de outubro, é uma das datas mais importantes para os movimentos populares que integram a Via Campesina. “Amplas marchas e protestos são realizados contra empresas transnacionais, como a Bayer, que comprou a Monsanto. Essas companhias fazem de tudo para controlar a produção de alimentos no mundo”, conta Marina.

Megaeventos e trabalhos precários também são uma pauta comum

Os movimentos também acumularam outras lutas comuns nos países dos Brics, conforme destaca Ana Saggioro, pesquisadora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). “É interessante ver que os países do Brics hospedaram grandes eventos nos últimos anos. Portanto, a luta que questiona os megaeventos é uma pauta comum entre eles, assim como os protestos contra projetos de grandes proporções, que exploram o trabalhador e causam impactos ambientais”, destaca a professora de Relações Internacionais.

Na questão social, a pesquisadora avalia que os cinco países ainda precisam superar problemas que foram agravados a partir da década de 90, especialmente nos casos de Rússia e China. “Esses dois países, que eram socialistas, tiveram suas políticas sociais desmontadas por um capitalismo muito agressivo”, aponta.

A professora explica ainda que no caso da Índia, onde as taxas de pobrezas são elevadas, eclodiram intensos protestos contra os problemas sociais. Manifestações que denunciam os baixos salários e condições precárias dos trabalhadores também acontecem na África, onde a atuação dos movimentos populares é crescente.

Futuro do Brasil no Brics

As cinco nações acabam de consolidar o mais ambicioso projeto do bloco: a criação do Novo Banco do Desenvolvimento. O Banco dos Brics, como é chamado, é um contraponto ao Fundo Monetário Internacional (FMI), instituição com sede em Washington, nos Estados Unidos.

Os dois primeiros empréstimos serão concedidos à China e à Índia. Em um dos projetos os chineses vão desenvolver um parque de energia eólica costeira e terá investimento de US$ 280 milhões. Já na Índia, serão US$ 350 milhões para um projeto de estradas. Pelo menos 15 projetos foram aprovados e serão financiados com até US$2,5 bi em 2017.

No momento em que o Novo Banco do Desenvolvimento oferece possibilidades de financiamento de projetos que poderiam gerar empregos, o governo de Michel Temer (PMDB) emite sinais contraditórios sobre o posicionamento do país em relação aos Brics.

Por um lado, o atual ministro das Relações Exteriores deixa claro em vários discursos que a prioridade da diplomacia brasileira serão os Estados Unidos e a União Europeia. Mas, por outro, mantém conselheiros nomeados em gestões petistas no acompanhamento das demandas dos Brics. 

"Embora as relações com os Brics não sejam prioritária da política externa brasileira, o ministro José Serra manteve os mesmos conselheiros indicados por Dilma, na delegação que representa do Brasil nos Brics", informa a pesquisadora Ana Saggioro, da UFRRJ. 

Isso mostra, segundo ela, que apesar do discurso político mais alinhado com os Estados Unidos, e menos com o Brics, o governo Temer ainda não mudou as relações com o bloco. “Talvez por ser candidato à Presidência, o ministro José Serra precisa fazer um discurso político para agradar a alguns setores da sociedade, mas na hora da aplicação, a prática está sendo muito parecida à política que já estava sendo implementada em governos petistas”, explica a professora de Relações Internacionais da UERJ, Miriam Gomes Saraiva. 

Edição: Vivian Virissimo