Protesto

Movimentos populares repudiam ataque da polícia militar ao campus da UFRJ

Sob o comando do governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) polícia militar reprime manifestantes e ataca universidade

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ) |
Campus de Ciências Sociais da UFRJ sofre ataque da PM em dia de protesto contra a reforma da Previdência
Campus de Ciências Sociais da UFRJ sofre ataque da PM em dia de protesto contra a reforma da Previdência - IFCS

Autoridades, movimentos populares e organizações políticas divulgaram, nesta terça-feira (21), notas de repúdio condenando o ataque contra o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) e de História (IH) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), realizado pelo Batalhão de Choque da Polícia Militar no dia 15 de março. Depois do protesto contra a reforma da Previdência, manifestantes pacíficos foram reprimidos de forma violenta nas proximidades do IFCS, até que em determinado momento a polícia atacou o próprio campus da UFRJ.

Um vídeo divulgado pela imprensa na última terça (21), mostra o momento exato em que a PM lança bombas de gás lacrimogênio e de efeito moral dentro das instalações do IFCS:

“Se já era inaceitável a repressão a trabalhadores e estudantes no exercício do livre direito de manifestação, o fato foi agravado com o ataque ao espaço universitário. Tristes tempos em que policiais violavam as universidades permanecem ainda em nossas memórias”, diz a nota divulgada pela direção do IFCS e IH.

Em nota de repúdio assinada por 89 movimentos populares, associações sindicais e centrais de trabalhadores, deputados estaduais, federais e vereadores, organizações e autoridades criticaram a violência da PM do Rio de Janeiro, comandada pelo governador Luiz Fernando Pezão.

“Causou-nos especial repulsa a invasão dos Institutos de Filosofia e Ciências Sociais e de História, da UFRJ. No interior do prédio federal, onde manifestantes perseguidos e violentamente agredidos pela Polícia Militar do Rio de Janeiro buscaram refúgio, os órgãos de segurança do estado detonaram bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo”, apontou a nota.

Essa não é a primeira vez que o campus foi atacado em tempos de democracia. Durante as Jornadas de Junho de 2013, a PM, na época comandada pelo então governador Sérgio Cabral, também atuou contra manifestantes que se refugiaram no interior do prédio da UFRJ. Na ocasião, a ação da PM foi amplamente criticada pela sociedade, juristas, movimentos populares, partidos políticos e outras organizações.

O diretor do IFCS, Marco Aurélio Santana, afirmou que se tratou de “um ataque inaceitável que violou o espaço universitário e contra pessoas que estavam pacificamente na porta do prédio na hora do jantar. Providências cabíveis em diferentes esferas já começam a ser tomadas. A PM precisa apurar de forma rigorosa o ocorrido”.

Para o diretor, esse tipo de violência é um ataque à democracia: "ações deste tipo ao espaço universitário não são bom sinal de saúde democrática. O ataque tem uma clara mensagem em se tratando de um espaço democrático que tem acolhido os movimentos sociais. Não se pode aceitar o processo de criminalização e repressão aos movimentos sociais. Nosso prédio é bastante simbólico, talvez por isso este ataque. Atacar a universidade é atacar o livre pensamento, o conhecimento, a democracia", destacou Marco Aurélio Santana.

Guarda municipal também age com violência

Homens da Guarda municipal do Rio de Janeiro, sob o comando do prefeito Marcelo Crivella (PRB) também quebraram a perna da professora Mônica Lima, de 50 anos, durante repressão no final do protesto do dia 15 de março.

Testemunhas contam que a professora teria sido insultada por guardas municipais. Ela começou a discutir com um deles até que recebeu um chute e teve fratura exposta em uma das pernas. As testemunhas afirmam ainda que os guardas responsáveis não prestaram socorro e a professora foi levada por manifestantes para Hospital Souza Aguiar onde recebeu atendimento.

O Brasil de Fato apurou que por falta de médicos no hospital municipal, que sofreu cortes no orçamento promovidos pelo novo prefeito, a paciente ainda não foi operada. Somente no domingo ela conseguiu uma vaga na enfermaria da Ortopedia.

Confira a nota na íntegra:

NOTA CONJUNTA DE SOLIDARIEDADE AO IFCS E DE REPÚDIO À VIOLÊNCIA POLICIAL

Na última quarta-feira, dia 15/03, mais de um milhão de pessoas foram às ruas de todo país dizer não à reforma da previdência social que o governo golpista de Michel Temer tenta impor às trabalhadoras e aos trabalhadores brasileiros.

Outras pautas deram unidade ao belo ato realizado por organizações políticas, movimentos populares, entidades sindicais e da sociedade civil e lutadores e lutadoras do povo. Somos contra a reforma trabalhista, a entrega do patrimônio e das riquezas nacionais a grupos privados – nacionais e estrangeiros –, em especial, o pré-sal. Fomos enérgicos ao dizer que não serão retirados conquistas e direitos históricos da classe trabalhadora.

No Rio de Janeiro, o ato nacional foi engrossado por servidoras e servidores públicos, usuários dos serviços públicos de água, luz e transporte, trabalhadoras e trabalhadoras que lutam contra a destruição da economia fluminense e contra as medidas de austeridade fiscal e de ataques de direitos levadas a cabo por Pezão e Picciani, ambos do PMDB.

Repressão

Mais uma vez as forças públicas de segurança, ao invés de assegurar o direito constitucional de livre manifestação, agiram com covardia e brutalidade. Agrediram manifestantes, espancaram e perseguiram transeuntes. A repressão foi tão violenta, que presenciamos o caso de uma professora que foi agredida a ponto de ter sua perna fraturada, sendo submetida a uma cirurgia de emergência.

Chamou-nos atenção, depois de encerrado o ato, a violência praticada contra pessoas que circulavam pela Cinelândia, independente de terem participado ou não da manifestação.

Causou-nos especial repulsa a invasão dos Institutos de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) e de História (IH), da UFRJ. No interior do prédio federal, onde manifestantes perseguidos e violentamente agredidos pela Polícia Militar do Rio de Janeiro buscaram refúgio, os órgãos de segurança do estado detonaram bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo.

Infelizmente, a invasão do IFCS e do IH não é algo inédito. Nas lutas travadas em 2013, a polícia militar (PM) do Rio de Janeiro já havia invadido a unidade acadêmica, reeditando práticas abomináveis da ditadura militar. O prédio histórico da UFRJ, no Largo de São Francisco, é não só um espaço de produção e difusão de conhecimento, mas de referência e debate político para movimentos populares, organizações políticas e para a militância que entende que é possível construir uma universidade pública articulada com as lutas e com os interesses populares.

Denunciamos a tentativa de controle militarizado das diferenças e das reivindicações políticas. Essa atitude aponta para a acelerada subversão da ordem constitucional e para total destruição do Estado democrático e de direito. Tais práticas – cotidianas nas favelas e periferias – estão sendo tomadas para garantir a implementação de um pacote econômico e político que um governo federal ilegal, ilegítimo, antidemocrático e antinacional impõe goela abaixo do povo brasileiro.

Solidarizamo-nos com a comunidade acadêmica da UFRJ e, em particular, do IFCS e do IH. O IFCS e sua comunidade já resistiram ao arbítrio e à violência de uma ditadura militar. Certamente, com apoio do povo em luta, resistirá a mais essa investida do Estado de exceção em que hoje vivemos.

Manifestamos nosso apoio às direções dos dois Institutos. Exigimos a responsabilização dos comandantes das guarnições que perpetraram tal violência, assim como do comandante da PM, do secretário estadual de segurança e do governador, a quem cabe o comando das forças de segurança.

Assinam a nota:

1. Articulação Brasileira de Gays – ArtGay
2. Articulação de Esquerda – AE
3. Articulação de Mulheres Brasileiras – AMB
4. Associação de Docentes do CEFET-RJ
5. Associação de Docentes da UENF
6. Associação de Docentes da UERJ
7. Associação de Docentes da UFF
8. Associação de Docentes da UFRJ
9. Associação de Docentes da UNIRIO
10. Associação de Docentes da UFRRJ
11. Associação de Docentes da UNESP
12. Brigadas Populares
13. Campanha Ocupa Dops RJ
14. Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil - CTB
15. Central Nacional LGBT
16. Central Única dos Trabalhadores – CUT-RJ
17. Científicos y Universitarios Buenos Aires
18. Coletivo Articulação Popular
19. Coletivo Movimento Popular de Favelas
20. Coletivo RJ Memória, Verdade e Justiça
21. Coletivo Rosa-Zumbi
22. Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da ALERJ
23. Consulta Popular
24. DCE UERJ
25. DCE UFRJ
26. Democracia Socialista
27. Deputada Estadual Enfermeira Rejane - PCdoB
28. Deputada Estadual Zeidan - PT
29. Deputado Estadual Eliomar Coelho - PSOL
30. Deputado Estadual Flávio Serafini - PSOL
31. Deputado Estadual Gilberto Palmares - PT
32. Deputado Estadual Marcelo Freixo - PSOL
33. Deputado Estadual Waldeck Carneiro - PT
34. Deputada Federal Benedita da Silva - PT
35. Deputado Federal Chico Alencar - PSOL
36. Deputado Federal Glauber Braga – PSOL
37. Deputada Federal Jandira Feghali - PCdoB
38. Deputado Federal Wadih Damous - PT
39. Federação de Favelas do Estado do Rio de Janeiro - FAFERJ
40. [email protected] e [email protected] SP - DH, Memória, Verdade e Justiça
41. Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça RJ
42. FÓRUM DAS SEIS entidades sindicais de trabalhadores docentes e técnico-administrativos, e entidades estudantis da UNESP, USP, UNICAMP e Centro Paula Souza
43. Fórum de Saúde RJ
44. Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação - FNDC
45. Frente Brasil Popular
46. Frente Povo Sem Medo
47. Instituto PACS
48. Intersindical
49. Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social
50. Juventude da Articulação de Esquerda - JAE
51. Kizomba
52. Levante Popular da Juventude
53. Liga Brasileira de Lésbicas - LBL
54. Marcha Mundial de Mulheres - MMM
55. Movimento de Luta nos bairros Vilas e Favelas – MLB
56. Movimento de Mulheres Olga Benário
57. Movimento dos Atingidos por Barragem - MAB
58. Movimento dos Pequenos Agricultores - MPA
59. Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra - MST
60. Movimento Luta de Classes – MLC
61. Movimento por uma Alternativa Independente Socialista - MAIS
62. Movimentos dos Trabalhadores Sem-Teto - MTST
63. #partidA Feminista
64. Partido Comunista Brasileiro - PCB
65. Partido Comunista do Brasil - PCdoB
66. Partido dos Trabalhadores - PT
67. Partido Socialismo e Liberdade – PSOL
68. Rede Jubileu Sul
69. RUA - Juventude Anticapitalista
70. Senador Lindbergh Farias – PT
71. SEPE – Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação - RJ
72. Setorial LGBT da CMP Brasil
73. Setorial LGBT do PT

74. SINTTUFRJ
75. UNEAFRO - RJ
76. União Brasileira de Mulheres - UBM
77. União dá Juventude Rebelião - UJR
78. União da Juventude Socialista – UJS
79. União Nacional dos Estudantes – UNE
80. União de Negras e Negros pela Igualdade - UNEGRO
81. União Estadual dos Estudantes - UEE/RJ
82. Unidade Popular pelo Socialismo-UP
83. Vereador Brizola Neto - PSOL
84. Vereador David Miranda – PSOL
85. Vereador Leonardo Giordano – PCdoB (Niterói)
86. Vereador Reimont Otoni - PT
87. Vereador Tarcisio Motta - PSOL
88. Vereadora Luciana Novaes - PT
89. Vereadora Marielle Franco - PSOL

Edição: Vanessa Martina Silva