Sem-terra

Sobreviventes de massacre lidam com marcas físicas, psicológicas e sociais

Após 21 anos da chacina em Eldorado dos Carajás (PA), trabalhadores relembram o dia 17 de abril

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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No local onde as mortes ocorreram, no trecho conhecido como Curva do S da PA-275, sem-terra fazem homenagens às vítimas do massacre / Marcelo Cruz/Brasil de Fato

Radioagência Brasil de Fato produziu uma série sobre os 21 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás. No dia 17 de abril de 1996, foram assassinados 21 sem-terra em uma ação da Polícia Militar do estado do Pará para desobstruir um trecho da rodovia PA-275, que estava ocupada por trabalhadores para reivindicar reforma agrária. No primeiro capítulo, publicado no sábado (15), foram mostradas as lembranças de quem sobreviveu à chacina. No capítulo dois, serão apresentadas as marcas físicas, psicológicas e sociais que ainda estão presentes no cotidiano dos sobreviventes.  

Confira o segundo capítulo:

José Carlos Agarito, de 38 anos, vive com uma bala alojada na cabeça que provoca fortes dores.

"Hoje eu não posso trabalhar. Eu não posso pegar uma enxada, pegar uma foice. Eu não posso fazer serviço nenhum. Eu não posso baixar a cabeça. Eu não posso ter alegria, eu não posso ter raiva", relatou.

Um movimento com a cabeça livrou José Carlos de ser atingido por um tiro fatal durante a chacina promovida pela Polícia Militar do Pará, há 21 anos. Ele é um dos sobreviventes do Massacre de Eldorado dos Carajás, que vitimou 21 pessoas ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, e deixou 69 feridos em 17 de abril de 1996.

Elas faziam uma marcha numa rodovia no sul do estado para pressionar a realização da reforma agrária. Mas a resposta do governo estadual, de Almir Gabriel, do PSDB, foi em forma de violência.

Hoje, duas décadas depois do massacre e sem tratamento de saúde específico ou indenizações do estado que cobrissem esses custos, os sobreviventes lidam com as consequências físicas e psicológicas daquele 17 de abril.

"É uma coisa que a gente nunca esquece. Pode estar na festa, na igreja, pode estar onde for. É uma coisa que nunca sai da cabeça da gente. Até hoje a gente se lembra as pancadas da bala, a zoada, o grito dos companheiros da gente pedindo ajuda", relembra José Carlos.

De acordo com a associação de vítimas e sobreviventes do Massacre de Eldorado dos Carajás, 50 pessoas foram indenizadas e 25 ainda aguardam o benefício.

Josimar Freitas, de 53 anos, já não costuma nadar porque a dormência e as câimbras que sente na perna em que levou um tiro tornam o lazer perigoso. Hoje, ele coordena Associação dos Sobreviventes, Dependentes, Viúvas do Massacre de Eldorado dos Carajás e Conflitos Agrários do Pará.

"Esse ferimento na minha perna até hoje tem problema. Eu tenho uma dormência, dá câimbra. Não posso andar muito a pé. Não posso nadar, pescar, que eu gostava. Então eu tenho, carrego essa sequela para o resto da vida", apontou.

Marlene Paixão, de 35 anos, deixou de participar de protestos porque “ficou medrosa e os nervos não ajudam”. Para ela, os impactos são menos visíveis, mas não deixam de incomodar.

"Na hora que eu vejo sangue eu me lembro, da perna do tio e daquele povo. Era muito sangue que a gente pisava nas poças de sangue. Eu não posso ver sangue. Eu não mato galinha, porque eu não tenho coragem. Antes eu matava. Se não tiver alguém em casa para matar uma galinha, eu não como, não, porque não tenho coragem. Eu vi muito sangue nesse dia. Acho que a pior coisa que eu vi na vida foi aquilo ali", relatou.

O médico de família, Bruno Pedralva, integrante da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares, explica que grandes traumas como este de Eldorado dos Carajás trazem sérias consequências na saúde física e mental.

"Traumas e um estresse tão grande como esse que ocorreu em Eldorado dos Carajás, as pessoas sofrem consequências na saúde física e mental. Existem vários tipos de sofrimento mental, depressão, ansiedade. Essas situações impactam também na saúde orgânica. Essas pessoas podem ter doenças relacionados ao coração, hipertensão, diabetes", explicou.

A superação dos traumas esbarra em questões de desigualdade social, segundo o médico.

"Naturalmente, essas pessoas, em função desse tipo de tragédia, não tem melhorias reais nas suas condições de vida. Então imagino que, em Eldorado dos Carajás, os trabalhadores ainda lutem pela terra, por crédito, ainda lutam para melhorar as suas condições concretas de vida. Renda, acesso à terra, ao lazer, aos serviços de saúde é fundamental para a saúde das pessoas. Imagino que a luta dessas famílias ainda continua e se a gente não resolver os problemas reais da vida dessas pessoas, não garantir assistência à saúde digna com profissionais necessários, não só médicos, mas também psicólogos, terapeutas ocupacionais para superar o trauma não vai ter o que cure, não vai ter consolo que resolva", avaliou.

Para Francinete dos Santos, de 60 anos, ainda é difícil relembrar a imagem do marido, Robson Vitor Sobrinho, assassinado no massacre. Ela teve que criar a filha sozinha e, após dez anos da morte do marido, recebeu 20 mil reais de indenização do estado.

"Ele pegou três tiro. Ele pegou um tiro na fonte que saiu do outro lado, pegou um no braço e outro no abdômen. Só o que eu vi quando eu peguei ele. Ele tinha o cabelo grande, cortaram os cabelos dele. E nas costas estava em carne viva, não tira couro, não. Acho que devido terem arrastado ele na pista. Ele estava era morto já", relatou.

Dois comandantes das tropas que atuaram no Massacre de Eldorado dos Carajás estão presos. Os policiais de patentes inferiores também foram a julgamento, mas acabaram todos absolvidos.

O massacre foi um caso típico de impunidade, como explica José Batista Afonso, advogado da Comissão Pastoral da Terra que foi assistente de acusação no julgamento.

"A posição política do Ministério Público à época de não investigar os principais responsáveis pelo massacre que foram as autoridades que deram a ordem para desobstrução da rodovia, que foi o então governador do estado, Almir Gabriel; o então secretário de Segurança Pública, Paulo Sette Câmara; e o então comandante da Polícia Militar, Fabiano Lopes. Esses foram isentados do processo de investigação, não foram indiciados e, consequentemente, não foram denunciados. Restou, então, a tentativa de responsabilizar os 155 policiais que participaram da ação, ou seja, nessa cadeia de comando, desde o início ela foi quebrada", avaliou.

A falta de punição dos envolvidos faz com que episódios de violência no campo se repitam em outras regiões do país. Com elementos com cenário parecidos de Carajás.

Emboscada, policiais militares, sem-terra, tiros, tese de confronto e apenas trabalhadores mortos. Foi assim que dois trabalhadores rurais do MST foram mortos no Acampamento Dom Tomás Balduíno, no Paraná, em 7 de abril do ano passado.

"Tantos outros movimentos que ocorreram no Brasil foram tratados a ferro e a fogo pelo estado, mas, mesmo assim, esse mesmo uso da violência nunca conseguiu sufocar, impor uma derrota ao movimento camponês. O movimento sempre conseguiu passar por esses momentos difíceis e se manter na luta. Manter a luta pela reforma agrária, a luta pela conquista da terra como uma das prioridades", acrescentou Afonso.

Há onze anos, as 694 famílias sobreviventes que hoje vivem no assentamento 17 de abril participam de um ato ecumênico na curva do “S”, onde ocorreu o massacre. O acampamento Pedagógico da Juventude " Oziel Alves Pereira" acontece em memória às vítimas da chacina.

Radiodocumentário “Feridas abertas: 21 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás”. Capítulo 2: Cicatrizes físicas, emocionais e sociais.

Reportagem: Camila Maciel e Maura Silva

Roteiro: Camila Maciel

Edição: Beatriz Pasqualino

Produção e locução: Anelize Moreira

Operação de áudio e sonorização: André Paroche e Jorge Mayer

Apoio: Julia Dolce, Nadine Nascimento e Victor Tineo.

Esta é uma produção da Radioagência Brasil de Fato.

 

Edição: Anelize Moreira