Venezuela

Rede de intelectuais critica nota de pensadores de esquerda contra governo Maduro

A avaliação da articulação é de que as críticas estão descoladas da realidade e do atual momento venezuelano

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Encontro da Rede de Intelectuais Artistas e Movimentos Sociais em Defesa da Humanidade em Caracas / Alba Ciudad

Em resposta ao grupo de intelectuais de esquerda que recentemente lançou a nota “Chamado internacional urgente para deter a escalada de violência na Venezuela”, a Rede de Intelectuais, Artistas e Movimentos Sociais em Defesa da Humanidade questiona: “quem acusará os acusadores”?. A reflexão é feita em referência às críticas realizadas ao governo venezuelano que, no entendimento da rede, estão deslocadas da realidade do país sul-americano.

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Isso porque a conclusão a que chegam os intelectuais que assinam a primeira carta é de que há um “único e inaudito responsável pela violência: o Estado e o governo bolivariano”. “Justamente aqueles que insistem em uma estratégia de paz”, ressaltam os integrantes da Rede.

Ainda com relação a isso, os integrantes da Rede questionam: “o que deveriam ter feito, segundo estes intelectuais, Fidel Castro e os revolucionários cubanos diante da invasão da Playa Girón? Iniciar um diálogo com diplomatas inexistentes, enquanto as bombas caíam na Bahia dos Porcos? Enfrentar os fuzis dos mercenários com cédulas eleitorais? Apresentar uma petição ante à OEA?”.

Leia a íntegra da nota:

Quem acusará os acusadores?

Resposta à petição de intelectuais contra o processo bolivariano na Venezuela

Sob a implícita fórmula do "eu acuso", algumas horas antes da reunião da OEA em que seria discutida, mais uma vez, a intervenção na Venezuela, centenas de intelectuais e acadêmicos latino-americanos, europeus e norte-americanos assinaram uma petição denominada "Chamado internacional urgente para deter a escalada de violência na Venezuela". A petição constitui toda uma declaração de princípios e posicionamentos em relação à conjuntura bolivariana, elaborando diagnósticos, atribuindo responsabilidades e apontando uma saída para a crise instaurada no país.

Não atacaremos a inteligência e a moral dos assinantes (alguns considerados "sagrados" no mundo acadêmico) questionando seus compromissos políticos ou suas competências interpretativas. Assumiremos cada afirmação da petição como aquilo que é, uma tese errônea sobre o processo bolivariano na Venezuela. Como tal, vamos submeter a carta à análise, colocando que os acusadores podem e devem ser acusados. Também os intelectuais, além de pontificar dentro da torre de marfim acadêmica, deverão dar conta de seus erros e acertos neste dramático impasse continental, que poderá significar tanto o encerramento conservador de um ciclo político em ascensão ou a cessação prévia a uma segunda onda progressista e de esquerda na região. Uma derrota das classes populares latino-americanas respingará na classe intelectual na sua presidência orgânica, na sua incapacidade pedagógica ou na falta de inteligência no momento de emitir juízos certeiros.

O conceito de uma "guerra da quarta geração"ou "guerra de baixa intensidade", é muito mais uma hipérbole para assinalar a intensidade de uma conjuntura específica. É, ao contrário, uma descrição de toda uma estratégia de insurreição do imperialismo norte-americano para roer a jóia mais dura da coroa: a perseverança da revolução venezuelana que, como a revolução cubana, ofende às aspirações norte-americanas para o fundo do seu quintal. Ainda mais se considerarmos a importância econômica e geopolítica da Venezuela para o governo de Donald Trump. Está expressa a capacidade venezuelana de unir as experiências progressistas e de esquerda e colocá-las em prática até o limite do possível com uma audaciosa política de integração latino-americana, bem como seu controle sobre importantes recursos estratégicos caros aos projetos de desenvolvimento dos países centrais, como o petróleo e a biodiversidade nacional. Só a Venezuela, responsável por este novo ciclo histórico, pode, com a sua queda, selar seu encerramento irremediável. Assim entendem os Estados Unidos, ao contrário do que parecem ter entendido alguns dos nossos acadêmicos mais prestigiados.

A Venezuela parece estar na dolorosa passagem entre duas das etapas analisadas por Antonio Gramsci nas suas análises sobre a correlação de forças (ou seja, a análise do grau de organização, autoconsciência e homogeneidade alcançados por grupos sociais antagônicos). Faz tempo que a Venezuela se deslocou de um momento meramente econômico-corporativo para um momento político, com a formação de uma identidade popular comum para o conjunto das classes populares (o chavismo) e com sua confrontação global às classes dominantes.

O falido golpe de estado de 2002, a greve petroleira desbaratada e a assunção de um socialismo no século XXI assinalam esta rota. Agora, este momento político sustentando até 2013, e o conseguinte empate hegemônico entre blocos sociais, começou a desmoronar com a morte de Hugo Chávez e se consumiu com o fechamento do cerco internacional com a derrota do kirchnerismo na Argentina e com o golpe institucional que destituiu Dilma Rousseff no Brasil. O terceiro momento analisado por Antonio Gramsci, o inevitável momento político-militar que se precipita, foi, paradoxalmente, alcançado não só pela radicalização endógena do chavismo, mas pela reação violenta da direita local e transnacional disposta ao mais baixo revanchismo.

Agora, analisar esse momento político-militar de forma madura implica considerar que as guarimbas da oposição, o assassinato de lideranças chavistas no campo e na cidade, a infiltração incessante de paramilitares colombianos, a formação de milícias bolivarianas, o fortalecimento da ala militar encarnada em Diosdado Cabello e o patrulhamento militar das costas venezuelanas por potências emergentes, são muito mais do que um testemunho do transbordamento da paixão caribenha.

São, por outro lado, sintomas de toda uma etapa que merece categorias de análise específicas, para entender a radicalização militarista do imperialismo norte-americano no sua longa, mas irrefreável, decadência global. Na nossa opinião, ignorar a dimensão desse processo leva a análises superficiais que intuem avaliações autoritárias, supostos autogolpes, ou militarizações ociosas da classe política dos governos latino-americanos. Sempre sob a ótica de intelectuais propensos a descrever um "déficit" democrático nestas latitudes, sempre a partir de concepções eurocêntricas e consideradas "universais" sobre o que deve ser democrático. Evidentemente, há um processo de militarização e aumento da violência, mas que está longe de ser o resultado de fatores internos, esta militarização é permanentemente induzida pela ameaça imperialista em todos os seus níveis (diplomático, político, econômico, militar, midiático, financeiro). Ou por acaso devemos enumerar os golpes de estado em Honduras, Paraguai e Brasil que antecedem o presente ataque? De nada servem as teorias grosseiras sobre dois demônios para analisar as causas da violência venezuelana: ou o que significa então a "origem complexa e compartilhada da violência" assinalada pela petição? Ou a identificação, aparentemente simétrica, de "extremistas" de direita e totalitários de esquerda, que redunda ao finalizar o texto com a indicação de um único e inaudito responsável pela violência: o Estado e o governo bolivariano. Justamente aqueles que insistem em uma estratégia de paz. O que deveriam ter feito, segundo estes intelectuais, Fidel Castro e os revolucionários cubanos diante da invasão da Playa Girón?  Iniciar um diálogo com diplomáticos inexistentes enquanto as bombas caíam na Bahía de Cochinos? Enfrentar os fuzis dos mercenários com cédulas eleitorais? Apresentar uma petição ante à OEA?

A mais elementar análise crítica precisará ter a capacidade de separar o joio do trigo, de distinguir a violência fundante da mera violência reativa das classes e dos governos populares, e de entender, como Antonio Gramsci, que não há resolução pacífica ou democrática (no sentido estritamente liberal do termo) à luta de classes.

Cedo ou tarde as classes dominantes, em sua impotência eleitoral, acudirão a golpes brandos comandados por corporações judiciais ou midiáticas, e, quando esses se tornem inúteis, farão soar novamente "la hora de la espada", com golpes militares. Por isso, a pretensa visão "mais além da polarização", essa tentativa vã de de escrutinar uma realidade límpida por trás da névoa de uma luta política sem trégua é impossível.

Se trata, novamente com Gramsci, de "tomar partido", o que não significa apoiar cegamente um processo político ou a sua eventual condição, mas escolher o campo desde o qual enunciam as críticas e desde o qual cumprem as tarefas específicas da práxis intelectual.

O intelectual "orgânico" não é um modelo de intelectual de esquerda, mas o único modelo no sentido estrito: isto é, aquele que reflexiona em conjunto, sem a mediação de pedestais, com os sujeitos populares organizados. Não deixa de ser sugestivo que uma petição assinada por acadêmicos de tão alto nível prescinda das mais fundamentais categorias de análise do arsenal político crítico, caindo por terra a tentativa de fundar uma caracterização certeira sobre o processo bolivariano. Nem classes sociais, nem dependência estrutural, nem tampouco o imperialismo são mencionados na carta, enquanto estas são ferramentas que qualquer pessoa comum da Venezuela tem incorporada ao seu vocabulário político, o que constitui outra face do processo de democratização (e da socialização do poder) radical. Encontramos na petição uma fetichização notável da democracia em seus formatos liberais. Por que, a partir de qual outra concepção de democracia é possível julgar como antidemocrático um processo que combate uma Assembléia Legislativa em desacato por juramentar deputados eleitos de maneira fraudulenta, e que tentou, sem ter atribuições constitucionais para isso, destituir quatro vezes o presidente Maduro - o que sem dúvidas constituem tentativas de golpe de Estado - e que, no entanto, é mantida em pleno funcionamento? De onde se intui uma avaliação antidemocrática em um processo que ainda mobiliza ativamente milhares de pessoas e que sustenta e amplia elementos democráticos qualitativos como são as comunidades e os conselhos comunitários? Onde estão os elementos autoritários de um governo que responde à agressão institucional e à violência das ruas com uma convocatória de Constituinte que leve adiante a radicalidade de um processo estancado por causa do assédio externo e dos erros internos? Voltar a historicizar a democracia, separar o ideal das suas imperfeitas realizações institucionais, desfetichizar seus elementos formais e compreender suas novas modalidades emergentes, resulta imprescindível para não se tornar presa de uma valorização liberal e, em suma, colonial, sobre o que é democrático. Acreditamos que nem sequer é possível criticar o processo bolivariano a partir de uma visão liberal consequente que, como nenhum outro projeto, soube aprofundar e radicalizar a democracia liberal formal com mecanismos de consulta, plebiscitos e revogatórios absolutamente inéditos. Não há democracia universal, pura,  à margem da história e à margem das determinações classistas, nacionais, étnicas e de gênero da luta política. Há, ou haverá democracia dos trabalhadores, dos camponeses, dos pobres, dos indígenas, dos negros, dos estudantes, dos migrantes, dos aposentados, das mulheres. E esta só será conquistada quando os interesses das classes populares se impuserem: de qual modo se dará, se será por métodos consuetudinários ou violentos, por via eleitoral ou por uma violenta guerra civil, decidirão sempre os que têm tudo a perder, mas também os que tem tudo a ganhar na Venezuela e no conjunto da Nossa América.

Assinaturas de adesão devem ser enviadas a: [email protected]

Edição: Vanessa Martina Silva