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Perfil | E quando nem o Estado apoia a educação?

Câmara Municipal de Curitiba aprovou projetos de lei prejudiciais a professores e demais servidores municipais

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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“Eu não tinha nada na minha mochila além de documentos e meu celular. A atuação da polícia foi desproporcional”, disse Elisângela / Arquivo pessoal

A professora de educação infantil Elisângela Camargo Ribeiro da Silva, que atua no CMEI Jardim Alegre, retornou ao trabalho na última semana após um período de atestado médico, em decorrência de complicações da rinite e da sinusite crônica. No dia 26, uma segunda-feira difícil e dolorosa para quem atua no serviço público municipal, Elisângela desmaiou sob o efeito do gás lacrimogêneo e do spray de pimenta que tentavam barrá-la na luta por seus direitos em uma ação violenta da Polícia Militar.

Como se não bastasse a aprovação de um pacote de medidas que retira direitos históricos da categoria, o prefeito Rafael Greca (PMN) não fez questão de expressar qualquer solidariedade com os trabalhadores que prestam serviço à população da cidade em que governa: sob seu comando, a PM avançou contra os sete mil manifestantes reunidos em frente a Ópera de Arame, onde a votação acontecia, sob disparos de balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo, spray de pimenta e até mesmo cães policiais.

Após dois dias, com a vivacidade típica de quem tem amor pelas crianças e dialoga com os pequenos todos os dias, diz que se sente melhor; mas ainda conta sua história com a voz anasalada de um nariz obstruído pelas agressões. No alto da coxa, sustenta um hematoma causado por um tiro de bala de borracha.

“Eu não tinha nada na minha mochila além de documentos e meu celular”, recorda Elisângela. “A atuação da polícia foi desproporcional”.

Realidade nos Cmei

Enquanto Greca corta o Plano de Carreira dos professores de educação infantil e contrata coffee breaks à francesa para o dia a dia em seu gabinete – entre exigências como carpaccio de frutas e tomate seco – a realidade nos Cmei é de estrutura carente de recursos. “Para tomarmos café na escola precisamos nos organizar por conta. Cada um de nós leva sua contribuição de um quilo de pó, todos os meses”, relata Elisângela.

A professora mora com a família em Colombo. Tem dois filhos – o Bruno, de sete anos, e o Eduardo, de 14, que têm um bom desempenho na escola e cumprem suas tarefas com bastante independência, fruto de uma educação atenta da mãe. “Ensinar é a única profissão que se escolhe por amor. Falta muito para que tenhamos boas condições de trabalho. O que move uma pessoa a ser professora, em condições tão difíceis, é o amor que se tem pela profissão”.

Após 15 anos de trajetória no ensino, Elisângela define a segunda-feira, 26 de março, como o dia mais triste da sua carreira.

Os números da violência

Elisângela não foi a única agredida no ato contra o pacotaço. A Secretaria de Segurança Pública apontou um total de 24 feridos – 14 policiais e dez manifestantes. Sindicatos, porém, contestam esse número e assinalam que houve três pessoas gravemente feridas, dez feridos e inúmeros casos de escoriações e de mal estar causado pela emanação do gás lacrimogêneo.

Edição: Ednubia Ghisi