LUTA

Mesmo dividido, o muaythai segue crescendo no Brasil

Arte marcial tailandesa ganha adeptos em todas as classes, idades e gêneros

Brasil de Fato | Recife (PE)

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O esporte cresceu muito nos últimos anos / CBMTT

Acredita-se que o muaythai é praticado há mais de mil anos no sudoeste asiático. A arte marcial, posteriormente inserida no contexto militar, teria sido utilizada em conflitos com outros povos em disputas por território. A luta tem raízes ligadas à arte marcial chinesa “wushu” – ou Kung Fu – o que explicaria a manutenção de alguns rituais do muaythai que remetem ao budismo. Desenvolvida ao logo dos séculos no Reino do Sião, onde hoje fica a Tailândia, a luta se modificou, passando pelo muay khad chek, que daria origem ao muay boran e, posteriormente, ao muaythai, que nos últimos 40 anos tem atraído um crescente número de adeptos no Brasil.

Uma das praticantes é a estudante Ana Beatriz Santos, de 21 anos. Ela pratica o esporte cinco noites por semana, de segunda a sexta. “Eu queria fazer boxe, mas quando me mudei para Petrolina uma amiga me apresentou o muaythai. Na primeira aula já me encantei”, recorda Beatriz. “O boxe só usa os punhos, mas no muaythai eu trabalho também os golpes com membros inferiores”, afirma. O termo “muay” se refere a artes marciais, enquanto “thai” vem de Tailândia. O esporte também é conhecido como a arte das oito armas, já que os lutadores usam os punhos, canelas e, principalmente, os cotovelos e joelhos.

Em Petrolina, a estudante já está há dois anos na equipe Thai Kombat, com sede em Juazeiro, Bahia. Beatriz já está no terceiro nível, ou “3º khan”. Diferente das artes marciais que sinalizam o nível do lutador através da faixa na cintura, o muaythai utiliza uma corda trançada, o “prajied”, que fica amarrada ao braço esquerdo. Além de uma maior resistência física, Santos vê o esporte como “terapia”. “É o muaythai que me acalma após um dia puxado na faculdade. Faço porque realmente gosto, porque me sinto bem. É benéfico para a minha saúde física e mental”, acredita.

A procura pelo esporte no Brasil foi potencializada com o sucesso do brasileiro Anderson Silva na franquia Ultimate Fight Championship (UFC), principal realizadora de eventos de artes marciais mistas (MMA). No topo do ranking dos pesos-médios, Silva venceu muitos adversários com golpes de muaythai, uma das artes marciais que pratica.

Mas, segundo o superintendente técnico da Confederação Brasileira de Muaythai Tradicional (CBMTT), Carlos Camacho, muitos professores vendem aulas de muaythai para atrair alunos, mas oferecem aulas de outros esportes, como kick boxing. “Há décadas se pratica o kick boxing e, agora, o muay aeróbico, para pessoas que querem fazer uma atividade física associada à arte marcial, mas com um aspecto mais leve, voltada para o condicionamento físico”, diz. “E existe o muaythai, onde se aprende e se aplica todas as técnicas tradicionais do muaythai para competições e para o ensino”, diferencia Camacho.

Ele ressalta que a popularização do esporte foi acompanhada do crescimento do número de “professores” não capacitados. “O esporte é difundido, as pessoas querem praticá-lo, mas muitas acabam enganadas e praticando outro esporte que não é o muaythai”. Segundo Camacho, os alunos devem se informar se as academias estão filiadas às federações estaduais. A CBMTT reúne federações estaduais de 22 estados.



No Brasil cerca de 20 entidades reivindicam para o status de representante do esporte no país. Algumas fundadas por lutadores históricos, como a Confederação Brasileira de Muaythai (CBMT). Outras tantas incluem no nome o kick boxing e o boxe tailandês.

Camacho diz não ter como saber o número de academias que vendem aulas de muaythai. “Deve haver, em média, algumas centenas de locais em cada estado oferecendo aulas de muaythai corretamente, mas haverá o triplo dando aulas de maneira errada”, acredita. Mas ainda assim a popularização tende a trazer frutos. “O muaythai bem desenvolvido é fantástico. Tem filosofia, respeito, um ritual. Ele agrega valores não só na parte física, mas moral e espiritual”.

Já Rafael Augusto, 31, pratica o esporte desde os 18 anos e recorda que no início o esporte, apesar de usar o mesmo nome, era diferente. “Eu praticava kick boxing, assim como a maioria das pessoas, mas os professores diziam que era muaythai”, afirma. Ele coloca o crescimento da CBMTT e a parceria desta com a Federação Internacional de Muaythai Amador (IFMA) como um “divisor de águas”. “Foi em 2010 que começamos esse aprendizado da maneira correta de treinar, ensinar e trabalhar o muaythai”, afirma Augusto, que em 2012 fundou a equipe Bangkhab de muaythai, “com uma turma de poucos alunos, num quarto pequeno, no Vasco da Gama”, na zona norte do Recife.

Como professor da equipe – ou “kru yai” – e também presidente da Federação Pernambucana (FPMTT), Rafael Augusto pode dimensionar o crescimento do esporte principalmente na Região Metropolitana. “Nos últimos dois anos estamos sentindo esse crescimento num ritmo mais acelerado”, diz. Além de diversos bairros no Recife, também há locais de treinamento de muaythai tradicional em Abreu e Lima, Paulista, Jaboatão dos Guararapes, Olinda e Camaragibe.

A estudante Laura Martins, de 16 anos, é uma das que se iniciaram no muaythai recentemente. Ela treina duas noites por semana há aproximadamente três meses. “Sempre tive vontade de praticar artes marciais. Quando vi que a academia onde faço musculação iria oferecer muaythai, resolvi tentar e gostei”, afirma Martins. “Ganhei mais resistência, força e disposição no dia a dia”, afirma a estudante, que destaca ainda o valor do respeito na prática da arte marcial. Recentemente Laura passou pelo “kuen kru”, a cerimônia de aceitação na equipe Bangkhab, sendo reconhecida agora como uma praticante de muaythai, ou “nakmuay”, e recebendo seu primeiro prajied, o de cor branca, referente ao 1º “khan”.

O presidente da Federação Pernambucana, Rafael Augusto, destaca a prática do esporte como benéfico para o controle de taxas como a de hipertensão arterial, glicose e colesterol. “E para as crianças a arte marcial estimula a coordenação motora para um crescimento saudável, além do desenvolvimento do raciocínio rápido”. Como professor, Augusto também vê o respeito pelo próximo como valor principal do praticante do muaythai. “É importante a construção de valores no local de treinamento, coom o respeito aos colegas, ao professor e àquilo que ele está fazendo”.



Além do respeito, valores como a excelência, a honra, o respeito às tradições e o “fai play” (jogo limpo ou espírito esportivo) estão sendo reforçados internacionalmente pela Federação Internacional (IFMA) principalmente desde dezembro de 2016, quando o muaythai obteve reconhecimento provisório do Comitê Olímpico Internacional (COI) como esporte olímpico. O reconhecimento provisório dura três anos e, se obtido o reconhecimento definitivo, o muaythai passa a aspirar tornar-se uma modalidade nas olimpíadas a partir de 2024.

Para os que quiserem praticar e competir até as Olimpíadas, a CBMTT afirma que o calendário anual de competições tem mais de 80 torneios, entre estaduais, regionais, nacionais e alguns internacionais que ofertam vaga aos vencedores dos torneios nacionais. Mas Camacho alerta aos campeonatos organizados por instituições sem reconhecimento. “Para realizar um evento você precisa ter um corpo de árbitros especializados, atletas com avaliações de saúde em dia, um mínimo de duas ambulâncias com UTI móvel, entre outras coisas. É preciso ter cuidado com campeonatos de 'fundo de quintal' que colocam pessoas para se baterem. O muaythai não é isso”, alerta.

Outras modalidades esportivas derivam do muaythai ou têm uma mesma raiz, a exemplo do “krabi krabong”, arte marcial que utiliza bastões e espadas curvas. Já o “muay aeróbico”, muito comum em grandes centros fitness, busca a queima de gordura através de circuitos e movimentos de luta com membros inferiores e superiores. E há ainda o “muay talay”, uma forma de diversão comum nas festas tailandesas, com os oponentes equilibrados num poste tentando derrubar o adversário na água.

Muaythai no Brasil

Não se sabe ao certo quando a arte marcial milenar muaythai chegou em terras tupiniquins. Muitos, incluindo a CBMT, reconhecem Nélio Naja como o lutador que trouxe o esporte ao Brasil, mas isso não é unanimidade. Para Camacho, o que Naja lutava não era muaythai. “No fim da década de 1970 Nélio Naja disse ter ido à Tailândia aprendeu o muaythai. Não se sabe se é verídico, porque o que praticávamos até 2006 aqui no Brasil era uma mistura de taekwondo com boxe, usando regras do kick boxing. Isso não é muaythai”, afirma Camacho. Mas para muitos Naja, assim como Flávio Molina, Wellington Narany, o fundador da CBMT Luiz Alves, entre outros, são os precursores do esporte no Brasil.

No ano de 2006 foi realizado o 1º Congresso Mundial de Muaythai, na Tailândia, com o objetivo de padronizar o esporte internacionalmente, visto que as formas curriculares eram diversas de um país para outro. “O Governo Real da Tailândia, percebendo o crescimento do esporte no planeta e com a possibilidade de se tornar uma modalidade olímpica, reuniu os mestres do país para criar um currículo técnico, que virou um padrão mundial”, afirma. O superintendente técnico da CBMTT afirma que foi nessa ocasião em que aprendeu “de verdade” o muaythai tradicional, “com sua nomenclatura e história”. “Desde então temos implantado o trabalho de padronização do esporte no Brasil, através da CBMTT”, defende. Segundo ele, todas as federações estaduais e academias filiadas têm seguido as normas da IFMA.

Pela apuração da reportagem nos sites e documentos das principais instituições internacionais do esporte, como o Conselho Mundial de Muaythai (WMC) e a Federação Internacional de Muaythai Amador (IFMA), a CBMTT é a única brasileira reconhecida por estas instituições. A IFMA, inclusive, é a instituição reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) para tratar do muaythai internacionalmente. E presidenta da CBMTT, Ingrid Jost, é conselheira executiva da IFMA. O Brasil de Fato entrou em contato com a CBMT, mas não obteve resposta.

Edição: Monyse Ravena