América Latina

Busca por paz e diálogo leva venezuelanos a votar na Assembleia Constituinte

Processo transcorre com tranquilidade no país, apesar de problemas pontuais, pontua reitora do CNE

Brasil de Fato | Caracas (Venezuela)

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Apesar do chamado da oposição ao boicote, venezuelanos vão às urnas / Leonardo Fernandes

Desde as primeiras horas da manhã desse domingo, os eleitores começaram a chegar aos centros de votação na capital venezuelana. Quase 20 milhões de pessoas estão aptas a votar, mas o voto na Venezuela não é obrigatório.

Na região centro-oeste da cidade, o clima era de tranquilidade. Lívia Ataque, 55 anos, costureira, afirmou que o processo eletrônico foi simples e que levou menos de 10 segundos para completar o voto. Ataque destacou ainda o clima cívico da região onde vive: “Pelo menos de onde eu venho está tudo tranquilo, em paz, as pessoas estão contentes”.

O internacionalista Celso Alejandro ressaltou que votar foi simples e que todo o processo demorou cerca de um minuto e meio. “Vivo na comunidade e vim a pé votar. No trajeto encontrei vizinhos que também vinham votar. Me surpreendi por encontrá-los porque não sabia que estavam apoiando o processo constituinte”.

O governo da Venezuela determinou a gratuidade do sistema de metrô na capital e habilitou linhas de ônibus para garantir o transporte dos eleitores aos centros eleitorais, tal como ocorre em dias de votação.

Do outro lado da cidade, na região sul, milhares de pessoas foram votar no complexo do Poliedro. O local, chamado de centro de contingência, foi habilitado pelas autoridades eleitorais para garantir votação de pessoas que residam em áreas onde há protestos e bloqueios de vias públicas. Nele estão informações eleitoral de todos os outros centros do município.

Edi Barra, motorista, diz que foi votar para “dar uma oportunidade ao governo para que tome ciência de que não queremos mais essas trancas [vias trancadas] e violência”. Ele acredita que a Constituinte “pode trazer a paz e um diálogo com outros camaradas” e faz um chamado à oposição: “basta de tanta indiferença. A Venezuela é para todos, não para uma pessoa só. Na Venezuela, cabemos todos”.

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Essa percepção é compartilhada por Jeanine Decan. Ela destaca que as mulheres são as que mais têm sofrido com a violência da oposição: “desde que começou a guerra econômica, nós temos sido violentadas. Não temos absorventes, leite para as crianças. Isso afeta sobretudo as mulheres e por isso venho exercer meu direito ao voto. Não ao fascismo. Sim ao voto. Vamos buscar a paz, a solidariedade e fazer respeitar nossos direitos humanos”, diz.

A busca pela pacificação do país também moveu e estudante Tania León. Ela conta que já foi impedida de levar os filhos para a escola porque as vias de acesso estavam bloqueadas pela oposição. “Fomos testemunhas de fatos muito terríveis. Esse é um chamado para que construamos a paz. É conversando que nos entendemos”, ressalta.

Garantia ao voto

O Ministério Público, através de uma determinação de sua vice procuradora, Katherine Haringhton, anuciu a ativação de um disque-denúncia para o registro de irregularidades durante o processo de votação.

Em uma breve coletiva de imprensa em frente ao museu Andrés Bello, localizado na região central de Parque Carabobo, a reitora do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), Socorro Hernandez, ressaltou que ocorreram alguns problemas, principalmente nos estados Amazonas e Delta. De acordo com ela, se tratou de complicações na comunicação dos centros eleitorais, “que sempre existiram”, ressalta.

Com relação à segurança do processo, ela destacou que “há alguns problemas gerados pela violência, mas já dissemos em outras oportunidades: estamos garantindo através de todos os mecanismos disponíveis que todos os cidadãos possam exercer o seu direito ao voto”, disse sem dar mais detalhes sobre as ocorrências ou sobre o nível de participação até o momento.

Os centros de votação ficarão abertos até às 18h (horário de Caracas — 19h no horário de Brasília), mas o CNE determina que as sessões devem seguir abertas enquanto houver eleitores nas filas.

Nesse domingo, serão eleitos os 545 deputados e deputadas constituintes que terão a tarefa de redigir uma nova constituição para o país. A instalação da Assembleia Nacional Constituinte acontece no próximo dia 3 de agosto. Ainda não está definido o prazo para a conclusão dos trabalhos.

A nova Constituição ainda terá que ser referendada pelo voto popular.

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Edição: Vanessa Martina Silva