Entrevista

Agroecologia gera renda e emancipação para mulheres, diz Kelli Mafort, do MST

O modelo agroecológico de produção de alimentos se opõe à lógica do agronegócio, disse a dirigente

Brasil de Fato | Lapa (PR)

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A agroecologiapara dá visibilidade à contribuição efetiva das mulheres na produção de alimentos saudáveis, diz Kelli Mafort. / Leandro Taques

O modelo agroecológico de produção de alimentos se opõe à lógica do agronegócio. Não utiliza agrotóxicos, aposta no cultivo diversificado e com preservação do meio ambiente. No entanto, para além dos diferenciais na produção, a agroecologia vem acompanhada de relações humanas igualitárias e sem discriminação, o que inclui as questões de gênero. A afirmação é da integrante da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Kelli Mafort, uma das referências do Movimento quando o assunto são as relações de gênero. 

Confira a entrevista com concedida pela militante ao Brasil de Fato Paraná:

BdF: Se compararmos a lógica de produção do agronegócio e da agroecologia, qual a principal mudança com relação ao papel das mulheres?

Kelly Mafort: O campo brasileiro é hegemonizado por esse modelo do agronegócio, da mineração, do hidronegócio. Nesse modelo hegemônico, a presença masculina é mais forte. Também tem forte a presença das empresas transnacionais e tudo que gira em torno disso. Claro que também existem algumas mulheres com força dentro desse espaço, como a ex-ministra da Agricultura Kátia Abreu. Já as mulheres ligadas à agroecologia, à pequena agricultura, seja em comunidades indígenas, quilombolas, a sem-terra assentada, pequena produtora, elas estão dentro daquilo que seria contra-hegemônico no campo e do agronegócio.

A realidade dessas mulheres é muito distinta. Tem a questão da desigualdade de gênero presente nos dois casos, mas tem situações de classes sociais muito distintas. Em relação à agroecologia, tem vários desafios a serem enfrentados em relação à participação efetiva das mulheres. Isso com relação à economia desses espaços, à visibilidade do trabalho feminismo, que se desenvolvem muito em áreas de assentamento, quilombolas, indígenas, e que nem sempre são considerados trabalho. Mas, a agroecologia faz avançar as condições de autonomia das mulheres do campo.

Há uma divisão sexual do trabalho nas experiências de agroecologia?

Sim, está presente essa divisão sexual do trabalho também nesses espaços. Mas a agroecologia provoca também um repensar para além da matriz de produção, que avança sobre as relações dos homens e das mulheres com a natureza e também sobre as próprias relações de gênero. Temos visto boas iniciativas de novas relações de gênero a partir dos processos de agroecologia e agrofloresta. Isso porque a agroecologia parte muito da diversidade da alimentação dos próprios agricultores.

É a primeira coisa que muda, a comida e a alimentação das próprias pessoas que produzem, do entorno e da família. Muda a forma de produção e comercialização, e a mulher tem um papel muito importante. Por isso a agroecologia ajuda que o trabalho das mulheres se visibilize e ganhe espaço na sociedade.

Isso tem a ver com a divisão entre o trabalho na horta e para o consumo familiar, em geral feito pelas mulheres, e do plantio da roça, feito pelos homens?

Exatamente. A agroecologia é um processo integrado. Então não há pequena e grande produção. Por isso essa dicotomia desaparece. Por exemplo, a agrofloresta, que é uma das possibilidades da agroecologia, possibilita a participação de mulheres, homens e jovens. Ela é o próprio quintal, é a grande produção também, por estar integrada. Esse universo da agroecologia é super importante para a própria emancipação da mulher e para enxergar mais a contribuição efetiva que as mulheres dão na produção.

Em geral, no campo, esse trabalho no quintal, na horta, a criação dos pequenos animais, do pomar, entra para a mesa das famílias, mas nem sempre é contabilizado o valor econômico que tem. Quando a gente pensa na renda de uma família, contamos aquilo que produz e vende, mas aquilo que ela deixa de comprar também tem um valor econômico muito grande, e nessa produção encontramos muito o trabalho das mulheres.

Na minha opinião, a agroecologia tem um potencial enorme das próprias relações de gênero e na emancipação das mulheres. Para nós é inconcebível que uma pessoa pratique agroecologia como uma questão de produção, fale desses princípios, mas espanque sua companheira, faça cantadas, assédio, ou coisas do tipo. O que nós temos provocado é que haja uma mudança nesse patamar, e acho que a agroecologia é uma aliada nesse processo.

A violência contra as mulheres camponesas têm índices preocupantes, como o MST tem enfrentado essa realidade?

A gente sabe que a violência pode ser física, emocional, patrimonial, e isso está presente em toda a sociedade, no campo e na cidade. Infelizmente, os equipamentos públicos, as próprias políticas não estão preparadas para atender esse demanda, de uma forma geral. Mas estão ainda menos preparadas para atender essa realidade do campo. Por exemplo, os mecanismos públicos de denúncia, seja o 180, ou mesmo a delegacia da mulher, não se aplica muito à realidade do campo.  Não há delegacia da mulher em cidades pequenas. Para usar o 180, o telefone em municípios do interior muitas vezes não funciona.

A forma de a mulher fazer esse tipo de denúncia, de buscar acolhimento, casa de abrigo, é muito mais difícil no interior do país. O que a gente tem procurado fazer são mecanismo de controle dentro das comunidades. Temos processos através do Setor de Gênero do MST. Fazemos rodas de conversa com as mulheres para que elas contem os processos de violência, pois somente com outras mulheres é que elas se sentem acolhidas, com confiança. E vamos criando as condições para poder inibir os comportamentos violentos.

O nosso balanço tem sido muito positivo, de que tem sido muito eficiente. Não é só a criminalização de quem comete a violência, que cabe em alguns casos, mas é também um processo de reeducação sobre como os homens reproduzem essa estrutura machista, violentam as próprias companheiras, alguém da família ou próximos a elas. Na realidade eles estão reproduzindo uma sociedade que é extremamente desigual.

Como as mulheres do campo têm sido impactadas pela crise brasileira?

São inúmeros os exemplos, pois esses processos de mudanças na economia estão vinculados a retomada a um avanço conservador, que, de alguma forma, a luta das mulheres, dos LGBT, dos negros e negras, tinha ajudado a fazer refluir. Estamos vivendo algo muito preocupante na sociedade brasileira.

Seja a retomada da discussão do estatuto do nascituro, seja a questão de mudanças no estatuto do desarmamento, até o tema da previdência, que afeta diretamente as mulheres, porque no caso dos rurais a gente perde a condição de segurado especial. Na proposta atual, homens e mulheres teriam que contribuir pra isso.

Essa contribuição social, que antes era feita numa condição de segurado especial de toda a família, seria agora para um membro da família. Pela sociedade machista, provavelmente esse membro vai ser o homem. Achamos que muitas mulheres trabalhadoras vão regredir na sua condição. Outra discussão que nos preocupa é a de tratar gênero como ideologia, que é uma grande mentira, vinculada às ideias da “escola sem partido”. Nós estamos num processo de enfrentamento a tudo isso.

O 8 de março é um dia de luta e resistência das mulheres do campo. Nós temos feito lutas importantes nesse período junto com mulheres urbanas também e acreditamos que é possível alterar essa situação. Mas que é preciso ter muita organização, formação entre as companheiras e muita luta para alterar esse cenário.

Edição: Redação