Pioneira

Ana Maria Primavesi, pioneira da agroecologia no Brasil, completa 97 anos

Entre seus ensinamentos, agrônoma trouxe o conceito de solo como organismo vivo

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Engenheira agrônoma e escritora Ana Maria Primavesi em sessão de autógrafos na II Feira Nacional da Reforma Agrária / Julia Dolce

Aos 97 anos, completados nesta terça-feira, Ana Maria Primavesi traz em sua história de vida um legado rico no campo da agroecologia no Brasil. Nascida na Áustria, é formada em engenharia agrônoma e chegou a ser presa em um campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial. 

Nas terras tropicais brasileiras, aplicou seus conhecimentos e criou conceitos. Um deles é o de solo como organismo vivo, relembra a filha dela, Carin Primavesi: 

“O legado dela em primeiro lugar é que o solo tropical é diferente do solo de clima temperado e trabalhando corretamente eu posso trabalhar esse solo pra ele ficar saudável. Ele tem que ser vivo e ele tendo essa vida, é essa vida que vai mobilizar os nutrientes que a planta precisa", diz.

O conceito de solo como organismo vivo é compreender as necessidades da terra e fornecer a ela o que de fato precisa. Carin explica que trabalhando desta forma, é gerado um equilíbrio que afastam as pragas da plantação. 

“Então a gente vai ter solo sadio, planta sadia e homem sadio. Agora, no momento que, por alguma prática incorreta do solo, eu mato essa vida no solo, então a vida não consegue mais nutrir a planta, a planta fica doente. Planta doente é atacada porque não forma substâncias completas, é atacada por praga", relata Carin.

O talento para cuidar do solo tropical reflete a formação acadêmica de Primavesi. A universidade austríaca em que se formou era a única no mundo que trabalhava com todos os tipos de terra. 

Para Nívia Regina, da Direção Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), olhar o solo como elemento vivo mudou a relação dos assentados com as plantações:

“Ela cumpriu um papel de aproximar, superar essa fragmentação na relação do ser humano e a natureza, dando ênfase na questão do solo", pontua. 

Nívea ressalta ainda que as contribuições de Primavesi também tiveram grande impacto na agricultura familiar brasileira:

“Ela compreendia o papel e a importância da agricultura familiar camponesa, no trabalho com o solo, no manejo com o solo, percebendo, principalmente, que nos solos tropicais há uma presença enorme de organismos vivos na qual a sua intenção, a todo momento, foi que cada um de nós percebamos que esses organismos precisavam ser tratados e sempre em movimento", diz.

Primavesi atuou como professora da Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul e foi também responsável por organizar o primeiro curso de pós-graduação em agricultura orgânica. As obras dela estão reunidas em uma coleção lançada pela editora Expressão Popular. 

Base de todo o pensamento da agrônoma, Primavesi veio para nos ensinar que “a vida depende do solo”.

 

Edição: Camila Salmazio