Recessão

Falar em recuperação da economia é "otimismo exagerado", avalia Leda Paulani

Economista participou de debate com Marcio Pochmann; para o professor, imprensa tem comprado versão eufórica do governo

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Para Leda Paulani, é "praticamente impossível" o PIB brasileiro alcançar 1% em 2017 / Marcos Santos/USP Imagens

Os economistas Leda Paulani e Marcio Pochmann avaliam que ainda é cedo para afirmar que a melhora dos últimos indicadores econômicos do país representa, de fato, a recuperação da economia. 

Ambos estiveram, nesta quarta-feira (18), em um debate no Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, em São Paulo (SP).

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a economia brasileira avançou 0,2% no segundo trimestre de 2017, em comparação com os três primeiros meses do ano. Com dois anos seguidos de recessão, o Produto Interno Bruto (PIB) do país acumula queda de 7,2%.

Paulani, que é professora da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP), afirma que é um "otimismo exagerado" considerar que houve crescimento da economia por causa dos últimos dados divulgados pelo IBGE. De acordo com a economista, os próprios técnicos do instituto consideram que há crescimento quando o índice ultrapassa 0,5%. 

Ela pondera que é necessário qualificar estes dados. Segundo Paulani, o crescimento notado no último trimestre foi puxado por fatores pontuais: as supersafras da agricultura — cujo desempenho, maior dos últimos 20 anos, chegou a crescer 13,4% — e o crescimento do consumo das famílias devido ao saque dos recursos  das contas inativas do FGTS. 

"Isso é o que a gente chama em economia de um ganho once and for all. Ou seja, que você tem aquela vez, você não vai ter no trimestre que vem nem no outro uma injeção dessas de recursos que possa sustentar isso."

A professora afirma ainda que é "praticamente impossível" o PIB alcançar 1% em 2017, projeção de crescimento que algumas consultorias têm apresentado. Ela calcula que, para tanto, o país teria que crescer 2% no segundo e no terceiro trimestre, consecutivamente.

"Quando você olha para os indicadores mais importantes que são, por exemplo, os indicadores de investimentos, eles mostraram uma regressão muito forte ainda, tem uma queda de 1,6% no investimento. E o investimento é o que dá autonomia para o crescimento", pondera.

Já Pochmann, que ministra aulas no Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), pontua que a economia deixou de cair, o que não significa, necessariamente, o fim da recessão.

"Há dados que são positivos, como são aqueles que resultam do comércio externo. O Brasil vem tendo um saldo comercial positivo, que significa dizer que tem tido sucesso nas exportações. Mas, por outro lado, parte significativa desse saldo comercial resulta da baixa demanda da economia por importados", explica.

Além disso, o economista afirma que não há sinais efetivos que apontam crescimento para o setor do comércio e indústria. Segundo Pochmann, há "muito mais propaganda" do que, de fato, referências concretas de que o país está saindo da recessão. 

"O jornalismo brasileiro termina fazendo parte dessa torcida para apresentar dados positivos sobre a economia. Não temos tido uma imprensa crítica, que polemize e aprofunde justamente o tema econômico", critica Pochmann.

O debate que contou com a presença de Leda Paulani e Marcio Pochmann fez parte da programação da Semana Nacional pela Democratização da Comunicação

Edição: Mauro Ramos