Ciência

Coluna | Sobre os ombros dos gigantes

Temos uma falsa ideia que a ciência é algo feito por poucas pessoas, mas ela é necessariamente uma construção coletiva

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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As grandes descobertas de Newton só foram possíveis pois outros antes dele fizeram importantes esforços / Reprodução

“Se vi mais longe foi por estar sobre os ombros de gigantes”. Com essa bela frase o físico Isaac Newton ilustrou uma característica muito importante da ciência: que ela é necessariamente uma construção coletiva.

Temos uma falsa ideia que a ciência é algo feito por poucas pessoas, gênios superespeciais capazes de grandes descobertas impossíveis para os seres humanos normais. Mas, ao olharmos para o desenvolvimento científico, percebemos que não é bem assim que a coisa funciona.

Com sua modesta frase Newton quis dizer que suas grandes descobertas só foram possíveis pois outros antes dele fizeram importantes esforços. Ou seja, a ciência nunca parte do zero. Uma pesquisa científica sempre se apoia sobre outras anteriores para avançar. E, com o passar do tempo, com os séculos que a ciência acumula de idade, esse senso de coletividade tende a se acentuar cada vez mais.

Charles Darwin é sempre lembrado como o grande descobridor da seleção natural, o mecanismo pelo qual a evolução biológica ocorre. Mas, você sabia que Alfred Wallace, outro cientista contemporâneo de Darwin, chegou às mesmas conclusões que ele de forma independente? Ou seja, as grandes descobertas dependem muito menos das genialidades individuais e muito mais do desenvolvimento histórico e do acúmulo de conhecimento coletivo da humanidade.

Peguemos o importante trabalho de 2016 sobre as ondas gravitacionais já citado nesta coluna como exemplo. Nesse artigo foram necessárias três páginas para listar todos os autores que participaram da pesquisa. Isso mesmo! Foram mais de mil pesquisadores envolvidos, de cerca de vinte países!

A comunidade científica hoje é um imenso grupo de pessoas espalhado por todo o planeta. Um coletivo que coopera, dialoga, critica e discorda. Quando uma nova pesquisa é publicada ela só ganha peso se os demais pesquisadores daquela área validarem os seus resultados. Se aquilo for replicado, citado e discutido pelos demais.

Portanto, a qualidade da ciência produzida em um país não se deve à sorte ou à genialidade de algumas pessoas. O principal está no quanto é investido em educação, ciência e tecnologia. No quanto a sociedade prioriza essas áreas.

Em tempos em que o governo golpista de Temer corta investimentos e extingue o Ministério da Ciência e Tecnologia, podemos parafrasear Newton e traçar uma triste estimativa para o Brasil. Se nossa visão é mais curta é porque estamos sobre os ombros de anões.

Um abraço e até a próxima!

 

*Renan Santos é professor de biologia da rede estadual de Minas Gerais

Edição: Frederico Santana