ORGANIZAÇÃO

Editorial: Um Projeto Popular para o Brasil

Trabalhar pela unidade contra os inimigos do povo é a primeira tarefa fundamental

Brasil de Fato | Recife (PE)

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O Brasil que aí está nasce da ganância acumulada pela classe dominante. / Vinícius Sobreira/Brasil de Fato

Nosso país vive uma crise de destino que se estende desde o período da redemocratização. Trata-se do embate decisivo entre a nação e a não-nação, um país soberano que entrega seu destino nas mãos de seu povo ou um país para um pequeno punhado de ricos associados ao estrangeiro. Eis a polarização decisiva dos dias atuais, um confronto entre dois países antagônicos que já não podem coexistir.

O Brasil que aí está nasce da ganância acumulada pela classe dominante. Ela aprendeu desde cedo o quanto é vantajoso associar-se aos donos do dinheiro no mundo. Uma classe dominante que não se identifica com seu povo nem com sua nação. Povo, aliás, na linguagem dominada pela submissão, adquire ares pejorativos: “aquele povo”, o “povão”, etc. 

Isso diz muito do significado do povo brasileiro que se constrói pela identidade dos de baixo, da cultura feita pela resistência da classe trabalhadora desde as senzalas às favelas de hoje. Se trata de transformar a capacidade inventiva, o gingado, o punho levantado, a capacidade de nosso povo quebrar correntes, em projeto de poder. Para sobreviver à miséria gerada pelo capitalismo selvagem praticado no Brasil, nosso povo tem de se reinventar todos os dias. 

A capacidade inventiva, a diversidade cultural e étnica, a resistência e a criatividade do povo brasileiro são a matéria mais perigosa de nossa rebeldia. Construir a entrada desse povo na história, a capacidade de quem vive e constrói esse país assumir o comando, segue sendo o principal desafio de quem quer mudar o Brasil. Para isso, a esquerda deve renovar pensamento e prática.

Os últimos 13 anos que antecederam o golpe de Estado que levou Temer ao poder provam duas coisas: em primeiro lugar, que governos identificados com os mais pobres trazem possibilidades de sonhar futuros melhores. De outro lado, esses governos provaram também que, sem priorizar a organização popular como principal força de sustentação, não há como avançar nas mudanças.

É necessário ter sempre no horizonte o objetivo central de colocar o conjunto do poder nas mãos do povo brasileiro. Percebemos amargamente, com o golpe, que esse era o objetivo que nos faltou. 

Para os que empregam suas vidas para construir desde as precárias condições atuais a possibilidade futura da mudança, os tempos não serão fáceis. Superar o fosso criado entre a classe trabalhadora e as organizações populares e sindicais é a primeira e decisiva tarefa. É para isso que precisamos revisar nossas práticas e concepções. Trabalhar pela unidade contra os inimigos do povo é a primeira tarefa fundamental.

A partir disso, é preciso repisar o barro onde vivemos, saber ouvir e aprender com as trabalhadoras e trabalhadores, com suas experiências, com sua memória, com sua resistência, é um bom ponto de partida. Subordinar a disputa institucional ao crescimento da organização autônoma de nosso povo é outro ponto chave. Construir a força social organizada de nosso povo exige refundar a esquerda. E refundar a esquerda é passo necessário para refundar o Brasil.

Edição: Monyse Ravena