SOBERANIA

Caravana movimenta Sertão do Itaparica em defesa da Chesf e do rio São Francisco

Frente Brasil Popular mobiliza 6 municípios da região e culmina com ato com 3 mil pessoas em defesa das águas

Brasil de Fato | Petrolândia (PE)

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Protesto contra a privatização da Chesf e em defesa do rio São Francisco reuniu cerca de 3 mil pessoas em Petrolândia. / Vinícius Sobreira/Brasil de Fato Pernambuco

Entre os dias 5 e 15 deste mês a região do Sertão do Itaparica viveu movimentação política atípica. A Caravana Popular em Defesa da Democracia e do São Francisco passou por algumas cidades da região convocando a população e as entidades para o Fórum Social em Defesa das Águas, realizado na última sexta-feira (15), na cidade de Petrolândia.

Durante 11 dias a Caravana, organizada pela Frente Brasil Popular, passou pelas cidades de Jatobá, Itacuruba, Ibimirim, Inajá, Floresta e Petrolândia, se reunindo com sindicatos, dioceses e organizações da sociedade civil para construir comitês municipais da Frente Brasil Popular e, claro, usando muita cultura – através do teatro, música e poesia – para dialogar com a população sobre a importância de defender o Rio São Francisco contra a privatização da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), além de debater os impactos da reforma da previdência proposta pelo governo golpista de Michel Temer.

Do dia 5 ao 9 um grupo de aproximadamente 20 jovens participou de estudos e oficinas de Agitação e Propaganda, forma de divulgar ideias através de elementos da arte e cultura populares, facilitando a compreensão por parte da população e massificando um projeto ou ideologia. Esse grupo formou a Brigada de AgitProp Maria Paraíba e, em seguida, se dividiu em duas frentes de trabalho: uma delas circulou pelos bairros e comunidades de Petrolândia e participou da ocupação da hidrelétrica Luiz Gonzaga, enquanto a outra foi realizar trabalhos similares nas cidades da região, ambas mobilizando a população para participarem do Fórum Social em Defesa das Águas.

Morador da cidade de Floresta e fundador do Instituto Cultural Raízes, o educador Libânio Neto avalia que a Caravana foi fundamental no processo de mobilização e articulação para o Fórum. “A Caravana proporcionou o diálogo e o estímulo à reflexão sobre o momento atual, não apenas sobre a privatização da Chesf, mas também sobre as lutas contra a reforma da previdência e demais retrocessos patrocinados pelo governo golpista”, diz Libânio. Ele considera que a gestão não-eleita do Governo Federal tem como finalidade prioritária retirar direitos sociais e trabalhistas da população, além de entregar o patrimônio e riquezas nacionais e estratégicas para o empresariado internacional.





A militante da Pastoral da Juventude Rural (PJR) Paula Souza, do município de Jatobá, considera que a passagem da Caravana na região traz um saldo muito positivo. “Ela possibilitou a articulação das forças no território e, a partir disso, pode-se pensar o envolvimento e participação ativa dos movimentos e das pastorais, tanto a nível regional como a nível nacional”, diz Paula.

Na cidade de Petrolândia, a educadora Adriana Gomes comemora a passagem da Caravana pelo município. “Considero de suma importância o trabalho feito em Petrolândia – agora pela segunda vez, já que em 2016 a Caravana também passou por aqui. É importante não só para Petrolândia, mas para toda a região. É como uma grande ‘sacodida’”, diz a professora. Ela destaca ainda o trabalho feito pela Brigada Maria Paraíba. “Essa ação da Brigada e da Caravana da Democracia contribui para a formação política, para o despertar enquanto movimento que todos precisamos nos mexer, nos organizar”.

Libânio Neto concorda, avaliando ainda que a passagem da Caravana deu nova dinâmica na cidade e uma oportunidade de reflexão para a organização política local. “É fundamental trazer essa discussão para a região. A partir da Frente, trazida pela Caravana, as forças sociais locais estarão dialogando e se integrando melhor com as pautas e planos de lutas nacionais”, diz. “A Caravana deixou um exemplo positivo de outros formatos de mobilização que podem ser desenvolvidos aqui na região, incorporando esse potencial das forças sociais locais”, completa. O educador destaca ainda a importância dessa experiência para fortalecer a unidade das forças sociais nos enfrentamentos do ano de 2018. “As forças sociais precisam ter clareza e unidade para retomarmos a reconstrução do estado democrático e que priorize as classes sociais menos favorecidas”.

Cícero Henrique, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Ibimirim, destaca a importância da população se somar às lutas nesse momento. “Não existe dignidade sem a determinação e o querer de um povo”, diz o trabalhador rural. O sindicalista pontua ainda que a união, neste momento, é um valor fundamental para quem sonha com um país mais justo. “Ou nos unimos para lutar, ou morremos todos abraçados. O recado que damos ao povo brasileiro é esse: lutar é necessário, permanecer na luta é mais do que necessário, sobreviver a todas as dificuldades só com união, força, coragem e muita fé”, diz Cícero.

Nesse sentido, Adriana Gomes avalia que a defesa da Chesf precisa ser pauta central para organizar as lutas nas cidades da região. “Uma possível privatização vai atingir em cheio os 12 municípios da região do Itaparica, já que temos muitos projetos de irrigação que dependem da Chesf nos nossos municípios. E é isso que traz desenvolvimento e mantém a economia da região”, pontua.







Para a construção de todo o processo, destaca Paula Souza, “foi fundamental a iniciativa da Diocese de Floresta, que por meio das pastorais sociais pensou a construção do Fórum Social em Defesa das Águas e do Rio São Francisco. E a partir disso conseguimos a unificação dos movimentos e pastorais sociais”, avalia a militante da PJR. Ela também destaca a organização da Brigada. “A juventude traz esse convite de uma forma diferente através da Brigada Maria Paraíba. E nada disso seria possível sem a unidade das forças sociais e da Diocese”, conclui.

Após passar por outros 5 municípios da região os grupos se reencontraram em Petrolândia. E a sexta-feira começou cedo. Construído pela Frente Brasil Popular e pela Dioceses de Floresta, a ato teve início com um cortejo às 8h da manhã, saindo do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município, passou pelo centro e caminhou pela orla, até descerem à área de banho, onde pescadores artesanais chegaram das águas trazendo a imagem de São Francisco.

Povos indígenas e quilombolas da região, além de milhares de trabalhadores rurais moradores dos municípios vizinhos, também participaram do ato às margens do rio. Em seguida as cerca de 3 mil pessoas caminharam por toda a orla, passando novamente pelo Centro e se direcionando à casa de shows Velho Chico, onde houve um ato político com a presença de deputados estaduais.



Unidade pela Chesf

Apesar de nas eleições mais recentes o Partido Socialista Brasileiro (PSB) estar em campo oposto ao da maioria das organizações da sociedade civil presentes no ato, na mesa estavam lado a lado em defesa do Rio São Francisco. Participaram do ato os deputados estaduais Isaltino Nascimento (PSB), líder do governo Paulo Câmara na Assembleia Legislativa; Lucas Ramos (PSB) e até o deputado Rodrigo Novaes (PSD), parlamentar de direita e assumidamente a favor das privatizações no plano nacional, mas contra a privatização da Chesf.

Nos discursos, muitas críticas ao também pernambucano ministro de Minas e Energia, Fernando Bezerra Coelho Filho (PMDB), que aliás é natural da cidade de Petrolina, também banhada pelo Velho Chico. O Ministério de Minas e Energia está conduzindo o processo de leilão da Eletrobrás e, consequentemente, da Chesf, o que rendeu a Fernando Filho a alcunha de “traidor” não apenas dos sertanejos, mas de todos os pernambucanos e nordestinos.

O ato teve ainda a participação da prefeita Janielma Rodrigues (PSB), além de lideranças sindicais, como o presidente da Federação dos Trabalhadores da Agricultura de Pernambuco (FETAPE) Doriel Barros; o presidente da Central Única dos Trabalhadores de Pernambuco (CUT-PE) Carlos Veras; a Secretária Operativa da Frente Brasil Popular no estado, Gleisa Campigotto; e o membro da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) João Petro Stédile. No turno da tarde Stédile e o frei beneditino Marcelo Barros facilitaram um espaço de debate com a militância chamado Diálogo dos Movimentos Sociais com o Papa.

A CARAVANA NÃO MORREU – Em 2016 a Caravana Popular em Defesa da Democracia teve início em Petrolina e se encerrou no Recife, passando por um total de 12 cidades. Mas esta segunda etapa da Caravana da Democracia está sendo realizada regionalmente. A primeira região foi a do Sertão do Itaparica. Mas no início de 2018 devem ocorrer Caravanas noutras regiões de Pernambuco, começando pela Região Metropolitana do Recife.

Edição: Monyse Ravena