Ouro

Garimpeiros artesanais têm condições de vida afetadas por mineradora transnacional

Projeto da canadense Belo Sun foi suspenso pela Justiça, mas famílias locais já sentem os impactos

Brasil de Fato - Belém (PA)

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Após a canadense Belo Sun ter comprado os melhores lotes da região, a produção de Silva caiu drasticamente / Reprodução / EBC

“A nossa vida sempre foi independente antes da mineradora, porque a gente tinha condição de trabalhar por conta, éramos autônomos, trabalhávamos por conta própria, não deu pra gente enricar, mas deu pra gente sustentar a família, criar os filhos; depois que a empresa se instalou, nossas atividades acabaram”.

A frase é de Francisco Pereira da Silva, 59 anos, garimpeiro artesanal e morador da Vila Ressaca, no município de Senador José Porfírio, município onde a mineradora canadense Belo Sun Mineração pretende instalar uma mina de ouro a céu aberto. 

A transnacional pretende extrair cerca de cinco toneladas de ouro por ano no prazo mínimo de 12 anos. A licença de instalação do projeto está suspensa por determinação da justiça.

Silva fala sobre seu sonho, o mesmo de milhares de garimpeiros artesanais que construíram a história de Serra Pelada, a tão desejada montanha de ouro que atraiu homens de diversas parte do Brasil que deixaram para atrás famílias e empregos, no início da década de 1980.

“Sempre foi o meu sonho trabalhar com ouro porque a gente passa até vinte dias sem produzir, mas no dia em que você produz, você arrecada todo aquele tempo que você passou sem produção; acontece que em uma hora você ganha o que você perdeu em um ou dois meses, então o objetivo da gente é esse correr atrás do ouro”.

A história da Serra Pelada, no sudeste do Pará, tem extenso registro em livros, jornais e documentários, como o filme Serra Pelada - A Lenda da Montanha de Ouro. Na época, a notícia percorreu o país como rastilho de pólvora e em poucos meses a montanha com cobertura vegetal virou uma cratera com homens enfileirados como formigas. 

Atualmente, a cratera em Serra Pelada deu lugar a um grande lago. A mira agora está em Senador José Porfírio. Silva chegou na Vila Ressaca na década de 1980. A comunidade fica nas proximidades da Volta Grande do Xingu, área onde a mineradora canadense quer instalar o projeto de mesmo nome, a 50 Km de Altamira.

Silva mora sozinho, mas tem duas filhas que ainda dependem dele. Ele e outros moradores do município participaram do seminário As Veias Abertas do Xingu, realizado em Belém (PA), na quinta-feira (11). Antes de a empresa se instalar na cidade, ele garimpava, por semana, de 20 a 40 gramas de ouro. Depois que a mineradora comprou as melhores "bocas”, locais onde se extrai o minério, ele passou a extrair não mais de quatro a cinco gramas por semana, o que apenas garante sua sobrevivência.

A transnacional mineradora afirma que realizou contratos de compra e venda de posses com os ocupantes de lotes e/ou fazendas de interesse para instalação do Projeto Volta Grande, seguindo os parâmetros legais.

Edição: Mauro Ramos