22 de março

Opinião | Celebrando o Dia Mundial da Água pela luta das mulheres, suas guardiãs

Com suas ações, essas mulheres conseguiram chamar a atenção para a privatização da água e suas consequências

Brasil de Fato | Zurique (Suíça)

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A ação contou com 600 militantes em mais um ato da Jornada Nacional de Luta das Mulheres / MST/Reprodução

“Eu nunca retive as águas do Nilo, eu nunca impedi o curso das águas, eu nunca poluí o Nilo.”

Inscrição Faraônica no Vale dos Reis, Ramsés III (1194 a.C.? – 1163 a.C.?)

Celebra-se nesta quinta-feira, 22 de março, o Dia Mundial da Água. Diante do quadro geral de poluição e descaso com esse bem natural, diante da ofensiva do capital na tentativa de se apropriar de reservas de água em todo o mundo com o objetivo de obter lucro, celebrar este dia é celebrar, sobretudo, a resistência de todos que lutam pela sua  preservação.

Neste sentido, a ocupação da sede do engarrafamento da Nestlé, na cidade de São Lourenço (MG), realizada por mulheres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) nessa terça-feira (20), espalhando-se depois em várias outras ocupações semelhantes pelo Brasil – como a desta quinta-feira (22) em área da Coca-Cola, em Taguatinga (DF), por militantes da Via Campesina –, foi um ato fundamental que merece todo o nosso apoio e respeito.

Com suas ações, essas mulheres conseguiram não só chamar a atenção para o problema da privatização da água, mas também lembraram que são as mulheres as que mais sofrem, em todo o mundo, com a falta de água e com a dura tarefa de buscar e carregar água, frequentemente por quilômetros, todos os dias.

Em um comunicado, a Nestlé lamentou "danos" a sua propriedade que teriam sido causados durante a ocupação. Curiosamente, a Nestlé nunca lamentou os danos muito maiores causados por ela própria ao Parque de Águas de São Lourenço e ao seu patrimônio histórico. Basta lembrar que o fontanário original da Fonte Oriente – de onde sai a água engarrafada e vendida como água São Lourenço – às vésperas de completar 100 anos, foi demolido pela Nestlé por se encontrar onde a empresa decidiu construir o muro de proteção de suas instalações de engarrafamento.

Um simples passeio pelo parque hoje é suficiente para observar as inúmeras rachaduras espalhadas pelo chão e pelas paredes de outros fontanários, indicação clara de que algo não vai bem ali. O parque parece estar literalmente afundando.

O delicado sistema que a natureza levou milhões de anos para produzir e que permite que numa área reduzida surjam diversas fontes de água mineral com qualidades diferentes, talvez tenha sofrido danos irreversíveis. Se este for o caso, quem pagará por eles? E, tratando-se de danos a um sistema que a natureza levou milhões de anos para criar, como pagar? Que valor atribuir a uma maravilha da natureza?

É justamente para proteger outros lugares assim, espalhados por todo o Brasil e por todo o mundo, que devemos celebrar a resistência dos que lutam pela água como um direito humano, um bem público e, sobretudo, como o mais precioso bem da natureza, a base e a condição mesma para toda a vida.

Há que celebrar a água para além da visão hegemônica do capitalismo, que vê na água apenas mais um recurso natural, uma mercadoria. Há que celebrar a água como ÁGUA, defender, contra a visão redutora do capitalismo, outras visões possíveis e necessárias da água.

A citação acima de uma inscrição no Vale dos Reis, do tempo do faraó Ramsés III, expressa o que parece ter sido uma visão comum de todos os povos antigos: um profundo respeito pela água. Na Bíblia e no Corão há várias referências à água como um dom divino. Ainda mais, a reverência pela água é um elemento comum a todas as religiões.

No entanto, atualmente, que governante ou que autoridade de que país poderia repetir estas palavras de Ramsés III? Do Egito antigo até hoje a humanidade fez progressos inegáveis, mas algo fundamental parece ter sido perdido, uma forma de relação com a natureza da qual brotava, espontaneamente, entre outras reações emocionais, este profundo respeito pela água.

Recuperar esta relação é a tarefa fundamental de nosso tempo, pois precisamos de uma outra maneira de ser e de estar no mundo para nos contrapor ao modo de ser e à forma de consciência criados pelo capitalismo, pois este não é apenas um sistema econômico exterior à consciência humana, mas uma forma de consciência que foi criada e desenvolvida historicamente como condição para a implementação do próprio sistema. 

Como apontam historiadoras feministas como Silvia Federici, em Calibã e a Bruxa, e Carolyn Merchant, em The Death of Nature, alguns fenômenos estão intrinsecamente ligados à gênese e ao desenvolvimento da economia capitalista:

- a perda de uma visão orgânica, vital, da natureza, permitindo que apareça em seu lugar uma visão mecanicista, fundamental para facilitar a manipulação da natureza e sua transformação em mercadoria;

- a perseguição até o assassinato de grupos que resistem a esta mudança e que incorporem, aos olhos da mentalidade capitalista ascendente e de sua nova visão de mundo, os valores e saberes "antigos", orgânicos, tradicionais. Como explica Silvia Federici, estes grupos foram principalmente compostos de mulheres: a "caça às bruxas", que condenou milhares de mulheres à morte na fogueira em praticamente toda a Europa durante décadas, é um fenômeno paralelo e contemporâneo à grande revolução científica e ao desenvolvimento do capitalismo mercantil.

Assim, feminicídio e capitalismo estão intrinsecamente relacionados. Para Carolyn Merchant, a violência contra a mulher é um fenômeno ligado à violenta exploração da própria Terra.

A água, elemento essencialmente feminino, é transformada, pela mentalidade patriarcal capitalista, em recurso a ser explorado, comercializado e aviltado.

Diante disso, o ato das mulheres do MST pode ser então agora visto de uma outra maneira, mais profunda, que aponta para uma dimensão muito maior, parte de uma outra história,  de uma longa tradição de resistência, de outros saberes e de uma outra forma de estar no mundo.

Neste Dia Mundial da Água, há que celebrar a água e a coragem, permanente, de suas guardiãs.

*Franklin Frederick é ativista ambiental.

Edição: Vivian Fernandes