Saúde

Justiça do Pará determina que Hydro pague exames a moradores de comunidades afetadas

Os exames de sangue, urina e soro irão verificar se os moradores estão contaminados por substâncias tóxicas

Belém (PA)

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Os moradores serão selecionados por meio de um sorteio e deve abranger diferentes faixas etárias / Lilian Campelo

A Justiça do Pará determinou que a empresa Hydro Alunorte pague as despesas de 17 tipos de exames para moradores atingidos pelo derramamento de rejeitos químicos em Barcarena. Os exames serão realizados em 300 pessoas e os resultados servirão de amostragem.

A decisão foi assinada na segunda-feira (22) pelo juiz Raimundo Santana da 5ª Vara de Fazenda Pública de Belém e acata a ação civil coletiva movida pela Associação dos Caboclos, Indígenas e Quilombolas da Amazônia (Cainquiama).

As 300 pessoas devem abranger diferentes faixas etárias, desde crianças a partir dos cinco anos de idade, até idosos em idade avançada. Para a amostra, os moradores serão selecionados por meio de um sorteio a cargo da própria associação.

A presidenta da Cainquiama, Maria do Socorro Costa Silva, moradora da comunidade quilombola de Burajuba, relata que apresenta diversos problemas de saúde, como fortes dores no estômago, na cabeça e falta de ar. Ela também começou a perceber que sua memória não é mais a mesma: “Quando estou em reunião de repente esqueço do que estava falando”.

Maria do Socorro conta que o Laboratório de Química Analítica e Ambiental (LAQUANAM) da Universidade Federal do Pará (UFPA) analisou amostras dos cabelos dos membros das comunidades atingidas. No resultado havia a presença de chumbo. 

“Eu também já fiz exames de cabelo da Universidade Federal pela LAQUANAM, da professora Simone, e as primeiras amostras, o resultado do laudo, ela já me disse que tem chumbo. Isso é o que está fora [do corpo], e o que está por dentro? Por isso, esses exames serão muito importantes", opina.

Em nota, a Hydro informou que ainda não foi notificada pela Justiça sobre a decisão e que primeiro analisará o caso antes de se pronunciar.

A pesquisa divulgada em 2004 pela UFPA verificou que comunidades Vila Nova, Burajuba e Distrito Industrial são as três localidades que apresentaram nível muito alto de chumbo.

Rosilda Santos, moradora da comunidade Bom Futuro reclama que as pessoas que não tem condições financeiras para comprar água ainda estão vulneráveis a possíveis contaminações: “A nossa água não serve mais, não dá mais para tomar. Quem tem dinheiro compra água mineral, quem não tem toma água do poço”, sentencia.

A Justiça do Pará determinou que a empresa Hydro Alunorte distribuísse água potável para as comunidades impactadas, mas Rosilda afirma que ela, as filhas e outras lideranças que “batem de frente com a Prefeitura e com a empresa, não recebem água”.

Em nota, a Prefeitura de Barcarena afirmou que desconhece a denúncia e que os moradores “necessitados” das comunidades de Bom Futuro, Vila Nova e Burajuba estão recebendo água potável regularmente. Segundo comunicado, “mais de 1.700 famílias já foram atendidas”. A reportagem também procurou a Hydro sobre o assunto, mas não teve resposta.

Os exames realizados nos moradores irão analisar se há presença de substâncias como mercúrio, chumbo, cádmio, arsênico, cobre, cromo, níquel, alumínio e zinco no sangue, urina e outros líquidos corporais dos moradores. Ainda segundo a determinação da Justiça, os exames laboratoriais devem ser realizados pelo Instituto Evandro Chagas, que será notificado em até cinco dias.

Edição: Camila Salmazio