Teatro

Peça-rebelião “Revolta Lilith” aborda desobediência das mulheres ao longo dos tempos

Espetáculo inspirado na luta social encerra a temporada no dia 1º de abril em São Paulo

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Produção independente começou durante a encenação de "Roza" e as manifestações populares de 2013 / Divulgação

No meio de um quarteirão da rua Três Rios, no tradicional bairro do Bom Retiro, no centro antigo de São Paulo, está a “Casa do Povo”, um histórico espaço de resistência e arte fundado por judeus progressistas fugidos do holocausto.

A casa se destaca pelas grandes portas de vidro, largas escadas e janelas. O neon vermelho no teto da entrada dá vida a frase “Assim elas comemoram a vitória” que passará sobre as cabeças que ousarem cruzar por ali. A instalação é da israelense Yael Bartana. A sentença remete a comemoração da vitória do levante de Varsóvia e já havia passado pela casa na época, mas inscrita no masculino e foi devidamente ajustada pela artista.

Depois de enfrentar as escadas, no último andar você se deparará com um ritual de bruxaria também chamado de teatro. Ali, um grupo de mulheres decidiu conceber, pesquisar, produzir e apresentar um espetáculo por seus próprios meios, sem medo de fogueiras ou julgamentos. “Revolta Lilith” é o nome da peça que sai em busca da primeira mulher que também nasceu do pó, antes de Eva, e foi renegada e expulsa do paraíso. A temporada termina no dia 1º de abril, com sessões às 20h. O preço do ingresso varia entre R$ 10 e R$ 30.

Aliás, renegada e expulsa na versão oficial dos homens que contaram sua história, porque aqui, Lilith, a primeira mulher, decide por sua conta e risco fugir desse lugar sufocante chamado paraíso para vagar pela história, seja sendo cultuada como uma deusa, seja produzindo revoltas e rebeliões.

Entre isso tudo duas das atrizes/autoras da peça, Martha Kiss Perrone e Lowri Evans cederam seu valioso tempo para conversar sobre a concepção, o fazer e o sentido desse espetáculo de rebeldia e aproveitaram também para falar sobre teatro, o atual momento político e a luta das mulheres:

ROSA LUXEMBURGO ENCONTRA AS ESCOLAS OCUPADAS

A vontade de fazer essa peça nasce atravessada por esse contexto político de levantes e manifestações de mulheres pelo mundo. Antes de “Revolta Lilith” nós fizemos “Roza” e a gente fala muito de “peça-ato”, “peça-manifestação”, “peça-rebelião” porque fazer peça também é fazer luta. A experiência de fazer uma peça é uma experiência diária de organização coletiva, de pensar modos de produção e criação. É sobre falar de alguma coisa e convocar mundos, mas é sobre o próprio fazer e o encontro. O teatro é uma arte feita coletivamente, uma arte do encontro com o público e isso sempre é um acontecimento, ele está ligado à cidade e portanto com as lutas da cidade. Enquanto produzíamos e apresentávamos o “Roza” a gente se encontrava com as lutas que aconteciam e muitas diziam respeito às mulheres. O primeiro ensaio aberto que fizemos foi para o MST durante um encontro de mulheres da América Latina. Fomos para Berlim pesquisar, chegamos lá em busca da Rosa Luxemburgo no dia 13 de junho de 2013 e foi uma coisa alucinante por que eu falei “eu vim até Berlim procurar a Rosa e encontrar os traços da revolucionária, mas ela está vivendo agora nas ruas de São Paulo”… É engraçado pensar que a peça estreou em 2013 e a gente se pergunta o que aconteceu de lá para cá que nos fez chegar na Lilith, a gente evocou o corpo da Rosa em 2013 e produziu um encontro da Rosa com o movimento secundarista, com os estudantes, a gente chegava numa escola ocupada montava a peça nas quadras, apresentava, depois fazíamos um debate, produzimos um livro a partir desse encontro porque teve uma identificação enorme de muitos estudantes em movimento com as palavras da Rosa, com o pensamento dela, com a situação de mulher presa, perseguida. Depois de anos fazendo essa peça a gente teve que se perguntar: que caminho fazer agora? E aí vem o corpo da Lilith. Nós ainda estamos entendendo esse espetáculo, pois o nosso princípio é fazer para entender e não entender para fazer, a gente tem muitas intuições e visões, mas acreditamos que a experiência da peça vai formar nosso pensamento e não achamos que ele está pronto, por isso fazemos teatro, para colocar nossas intuições e pensamentos em movimento.


Essa peça nasce porque teve um golpe no Brasil




DA ROSA NASCE LILITH

O mito da Lilith já nos inspirava muito no processo de construção do espetáculo “Roza”, a figura dela já tinha passado pela gente e um dos registros mais antigos é essa mulher com chifres, garras e asas entre as corujas e os dragões. Uma imagem pagã da Suméria, onde hoje é o Irã e o Iraque. A gente queria trazer essa força de combate, ancestral e incapturável pelo tempo. Depois nós fizemos um encontro chamado “Bruxas” sobre fazeres na política e na arte. Nesse encontro a gente fez uma projeção grande da Lilith e já pressentíamos que ela poderia ser um novo trabalho. Teve também uma parceira, a Ligiana Costa, que me deu um texto do iraniano Réza Barahéni, que se chamava “Lilith” e me disse: “você tem que montar esse texto”, eu li em 2014 e fiquei apaixonada. O Barahéni é um exilado político do Irã no Canáda e ele fala: “Não seriam as mulheres e os Poetas os grandes exilados da história?”. Então ele cria em primeira pessoa esse livro em que a Lilith volta para o paraíso e tem um acerto de contas com Adão e Adonai, o texto é de uma beleza incrível e de uma força impressionante. Mas ficamos em dúvida porque o teatro que a gente faz não é só texto, tudo é texto para gente, música, imagem, corpo. Antes de decidirmos fazer tivemos um período longo de investigação a partir do mito, para encontrar outras mulheres que encarnassem a revolta e a desobediência e assim podermos transitar entre os tempos. A gente diz que a bruxaria na peça se dá porque estamos transitando de modo rápido, como uma mágica, entre tempo e espaço.



TEATRO-CORPO-PESQUISA

Nos pusemos então a procurar Liliths pela história e encontramos um material do julgamento de mulheres que foram condenadas por bruxaria na Europa, isso se somou a uma vontade nossa de falar do povo cigano e descobrimos a Papuska que é essa cigana que escrevia e foi expulsa de onde vivia por escrever, pois era proibido para as mulheres, nos reunimos com estudantes secundaristas que é algo que atravessa a peça, também aparecem as curdas e nós fomos abrindo esse leque, além de colocarmos nossas questões pessoais como mulheres. Essa peça é sobre dizer não e sobre dizer sim para o corpo que a gente quer ter, é uma experiência sobre o que pode o nosso corpo. Não queremos falar só do que oprime, de certa maneira a gente quer colocar em cena a potência da nossa revolta e do nosso corpo. O mito da Lilith é um dispositivo que abre muitas possibilidades de encarnar esse corpo. O ponto de partida pra falar sobre ela, que vale para pensarmos as lutas e a história da esquerda, é a questão da narrativa e da linguagem. Ela não foi narrada, não existe uma narrativa sobre Lilith, o que nos obrigou a fazer um trabalho de arqueologia. A Leda Cartum que é dramaturgista do espetáculo fez um trabalho de fôlego, de encontrar todos os textos e pessoas que falaram e pensaram sobre ela, o que foi fundamental.

O MITO PARA PENSAR O PRESENTE

Oficialmente Lilith é um mito hebraico e tem uma vertente do judaísmo que estuda e fala sobre aquilo que não está escrito no antigo testamento. Ela está ligada ao mito hebraico pois seria a primeira mulher antes de Eva e isso é um problema porque se ela é a primeira mulher ela veio do pó, assim como Adão, enquanto a Eva nasce das costelas dele, ela nasce para servi-lo. Se você analisar o antigo testamento, que é um grande roteiro escrito por muitas pessoas e modificado ao longo da história, ele começa: “e deus criou o homem e a mulher”, depois na segunda parte: “… e Adão estava sozinho”, ou seja, tem um problema entre uma parte e outra, tem um problema de coerência, falta algo. O que aconteceu nesse meio do caminho? São várias versões. A versão hebraica diz que ela era muito desobediente, que Adão queria ficar em cima dela e ela se recusava, o que leva a expulsão do Paraíso e depois disso ela vira uma demônia. Aqui se constrói uma visão negativa que a transformará em responsável pelos pecados, pelas doenças e por todas as coisas ruins e só aparecerá novamente em um trecho em Isaías, dizendo que ela está entre as serpentes e os chacais. O nosso trabalho foi fazer uma pesquisa de entender a formação da imagem dessa mulher e a gente encontra a Lilith que vem de muito antes do mundo monoteísta judaico-cristão e no texto do Barahéni aparece a fala dela: “eu vim arrancar a coroa que me foi tirada do oriente médio” e a gente encontra essa orixá, essa deusa pagã cultuada na Mesopotâmia, na Babilônia, num mundo mais matriarcal onde existiam deusas e se faziam oferendas para elas. Por isso que num certo momento da peça fala: “é preciso que o mundo volte para trás, todas as coisas, para eu poder falar quem eu sou”, assim como Lilith nessa peça diz: “Nós mulheres, muito antes, estávamos juntas na Babilônia e nós fazíamos a linguagem”. Por isso o que estamos fazendo é uma tentativa de escrita coletiva, performática, teatral e musical construída por várias visões, queimando e iluminando os vários significados sobre ela a partir da sua forma de bruxa.

 

O TEATRO DO NOSSO TEMPO

A gente vive um tempo onde é possível trabalhar com cinema, com performance, com música e a gente em cena faz um filme, um show, uma dança e isso tudo pode ser o teatro, por que não? O teatro não é uma caixinha limitada a representação de um personagem ou a contar linearmente uma história, o teatro é uma forma viva do nosso tempo, muitas vezes as pessoas o enxergam como se fosse algo separado da vida, mas quando o “teatro é teatro” ele é um espelho que revela as questões do nosso cotidiano, ele está ligado aos saberes do nosso corpo, não apenas ao texto e a palavra, mas também as ações, a gente faz uma leitura das ações e tenta trazer para as nossas peças.


O teatro é um espelho que revela as questões do nosso cotidiano, fazer teatro é fazer luta”


O CAPITAL HUMANO

Essa peça surgir num contexto de golpe no Brasil não é uma coincidência. Essa peça nasce porque teve um golpe, caso contrário talvez fosse outra história. Fazer teatro para nós é uma necessidade de vida e nesse momento que vive o Brasil a gente ouviu o chamado da Lilith como se esse fosse o corpo que tivesse que ser encarnado para a nossa sobrevivência e resistência. O fato de pela primeira vez em muitos anos fazermos uma peça sem nenhum apoio ou subsídio público - nada - cria a incrível sintonia com a figura dessa mulher nômade e exilada, a própria peça é um autoexílio. Claro que dinheiro é importante, mas esse espetáculo também é uma reação ao dizer que não vão nos calar e a gente vai se sacrificar. A gente ensaiou a noite todo dia a partir das 19h e todas trabalham de dia. Foi um pacto entre mulheres - e porque não? - porque para pensar nossas lutas hoje é preciso ter a perspectiva das mulheres e “Lilith” é feita por elas. A gente foi trabalhar na precariedade e para essa peça acontecer dependeu de muito esforço coletivo, de muitas pessoas que tiveram generosidade, amigos que deram tempo, equipamentos emprestados, foi uma loucura, uma total ousadia. Foi uma guerra e uma festa porque não podemos nos dar o luxo de ficarmos tristes, senão a gente morre. Não é a toa que a peça é dividida em três partes: Fuga do Paraíso, Exílio e Revolta. A gente fugiu de um momento potente para a cultura no Brasil, agora estamos no exílio e só nos resta a revolta.



MARIELLE FRANCO E OS CORPOS INTERROMPIDOS

No processo de pesquisa tivemos acesso aos julgamentos das mulheres que foram queimadas por bruxaria e tem um dado pouco falado, são quase oitocentas mil mulheres mortas na Europa fruto dessa perseguição, um genocídio. Muitos ligam esses acontecimentos apenas a inquisição, mas duraram até o século XVII e também estão ligados a fundação do Estado Moderno e as tentativas de abafar rebeliões onde muitas mulheres eram lideranças e uma característica muito forte sempre que se quer combater uma mulher é atacar o corpo dela. Rosa Luxemburgo e Marielle Franco são muito parecidas. A Marielle estava dentro da luta, ela foi eleita na sua cidade com uma expressiva votação, ela fez mestrado e produzia um pensamento, era uma intelectual como a Rosa e as duas eram mulheres da prática que ocupavam espaços de poder, saindo das margens e tiveram seus corpos interrompidos como uma tentativa de interromper suas lutas. Um pouco antes de ser assassinada a Rosa Luxemburgo escreve seu último artigo no meio das barricadas na Alemanha e falando sobre a revolução ela diz: “Eu fui, eu sou, eu serei”, se referindo a esse fluxo temporal. É muito curioso que entre os revolucionários alemães executados, os assassinos joguem apenas o corpo da Rosa no rio, no meio do inverno, com o claro objetivo de fazer aquele corpo desaparecer fisicamente. Uma outra característica que persegue essas mulheres ao longo da história desde as bruxas e aconteceu também com a Marielle é a necessidade de produzir uma segunda morte delas, ou seja, manipular quem elas eram, distorcer suas vidas. A Rosa Luxemburgo foi transformada numa sanguinária, as bruxas eram perigosas porque tinham pacto com o demônio e agora tentaram dizer que Marielle estava ligada ao crime no sentido de apagar quem ela realmente era. A Lilith na narrativa judaica é perigosa porque pode matar os recém-nascidos, porque é culpada pelos pecados existirem, etc. Então são duas formas de morte, interromper o corpo, a luta e em seguida manipular a narrativa sobre essa pessoa. No dia da nossa estréia a Marielle estava sendo velada e há uma frase que aparece em Lilith - “Eu vou morrer, Eu vou Viver” - que surgiu nesse dia como uma manifestação de união e de perenidade da nossa batalha. O medo não vai ganhar.

 



Serviço

Revolta Lilith

 

Até 1º de abril - Quinta a domingo, 20h – ÚLTIMA SEMANA

Local: Casa do Povo - Rua Três Rios, 252, Bom Retiro (metrô Tiradentes)

Ingressos: bilheteria abre 1 hora antes no dia das apresentações, somente em dinheiro

R$15/meia, R$30/inteira, R$10/moradores do Bom Retiro (apresentar comprovante de residência na bilheteria)

Reservas: revoltalilith@gmail.com

Duração: 1h20

Classificação: 12 anos

 

Ficha técnica

Direção: Martha Kiss Perrone

Atrizes autoras: Carolina Bianchi, Martha Kiss Perrone, Lowri Evans, Ariane Facchinetto Direção Músical: Fronte Violeta - Anelena Toku e Carla Boregas

Vídeo: Alicia Esteves

Corpo Câmera: Alicia Esteves

Dramaturgia: Martha Kiss Perrone

Dramaturgista/Tradução: Leda Cartum

Iluminação: Camille Laurent e Gabriela Luíza

Assistência de direção: Jaya Batista

Direção de arte: Ana Mazzei

Cenotécnica em cena/operação projeção: Mayara Baptista

Preparação Corporal: Manoela Rangel

Figurino: Zona

Produção: Lu Mugayar

Fotos: Mayra Azzi

Textos: Carolina Bianchi, Martha Kiss, Reza Baraheni, Leda Cartum, Lowri Evans, Paul Preciado

Apoio: Casa do Povo



*para o Brasil de Fato

Edição: Juca Guimarães