ENTREVISTA

'Segurança do Rio não será resolvida com intervenção militar', afirma Lindbergh

Para senador, recuperar a cadeia produtiva do petróleo é pré-condição para o Rio sair da crise

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

,
Lindbergh Farias é senador pelo estado do Rio de Janeiro / Jefferson Rudy/Agência Senado

A população fluminense espera por uma solução para a grave crise econômica e social que deixou o estado do Rio de Janeiro à míngua. Porém, as soluções apresentadas pelos governos estadual e federal não têm sido eficientes. Confira a discussão na entrevista concedida pelo senador Lindbergh Farias, do PT, ao Brasil de Fato.  

Brasil de Fato: Entre 2014 e 2015, o Complexo de Favelas da Maré foi ocupado pelo Exército, no entanto, não foi capaz de reduzir a violência, isto indica de que a intervenção militar não vai funcionar? 

Lindbergh Farias: O próprio Exército faz este balanço. O comandante da operação declarou, recentemente, que no dia seguinte da retirada das tropas da Maré, tudo voltou ao que era antes. Não é possível que continuemos debatendo saídas para o problema da segurança pública que não passem por uma intervenção social, com oferta de educação pública de qualidade, criação de oportunidades, geração de empregos. Além disso, é visível a diferença de tratamento com as comunidades pobres. Não tem tráfico de drogas no Leblon, em Ipanema? Tem. Mas lá nenhum morador terá que apresentar documento e ser fotografado por um soldado ao sair de casa para trabalhar, como aconteceu na Vila Kennedy.  

Como avalia essa diferença de tratamento? 

É um quadro muito triste: este modelo de "guerra às drogas enfrenta o varejo". Ou alguém acha que algum chefe do crime mora na favela? Na prática, morrem jovens pobres, negros; morrem policiais pobres, negros; e a estrutura que organiza o tráfico é preservada, porque não tem investimento no patrulhamento de fronteiras, na investigação… Este modelo está falido. 

Qual o caminho possível para recuperar o estado do Rio da crise? 

O Rio precisa recuperar sua economia e isto não acontecerá sem uma mudança da política nacional. Michel Temer enterrou a política de conteúdo nacional, o que acabou com a indústria naval do estado e destruiu milhares de empregos. O estaleiro Brasfels, em Angra, tinha 10 mil trabalhares, hoje menos de mil. Recuperar a cadeia produtiva do petróleo e a política de conteúdo nacional é pré-condição para o Rio sair da crise. Além disso, o Rio tem um potencial enorme para tornar-se um polo tecnológico e científico de relevância mundial, mas isso não acontecerá sem investimento em educação e ciência e tecnologia. 

A taxa de desemprego não apresentou melhoras neste ano no estado do Rio. Qual seria a saída para que o Rio volte a produzir postos de trabalho formais? 

O desemprego no Rio beira os 15%. É uma taxa altíssima, desesperadora. E não existe enfrentamento possível sem a retomada dos investimentos e o fim da política de austeridade fiscal de Temer. Além disso, o PMDB concedeu isenções fiscais sem o menor critério para várias empresas. Não houve contrapartida de geração de novos empregos e o estado deixou de arrecadar bilhões por ano. É preciso investimento federal para recuperar a indústria local e induzir o desenvolvimento. O ajuste fiscal está nos levando para o buraco! 

Edição: Mariana Pitasse