Ocupação

“ONU precisa investigar assassinatos em Gaza”, diz jornalista e ativista palestino

Para Ahmad Jaradat, repressão do Estado de Israel ao Dia da Terra faz parte da conjuntura mundial de conservadorismo

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Forças Armadas Israelenses reprimem manifestantes palestinos que marchavam no Dia da Terra, na última sexta-feira (30) / Hatem Mousa/WAFA

Milhares de palestinos vêm sendo reprimidos em manifestações que denunciam a truculência das Forças Armadas Israelenses na última sexta-feira (30), quando 15 palestinos foram assassinados e mais 1.400 ficaram feridos, em uma grande marcha que aconteceu em Gaza. O ato marcava o aniversário do Dia da Terra, ocasião em que seis manifestantes palestinos foram assassinados, em 1976, ao protestarem contra o confisco de terra para a construção de assentamentos israelenses.

De acordo com Ahmad Jaradat, jornalista do veículo de notícias Alternativa Information Center (AIC), localizado na Cisjordânia,  e ativista pelos direitos civis palestinos, a truculência dos soldados israelenses na sexta-feira faz parte da atual conjuntura política internacional.

“A importância do Dia da Terra neste ano se tornou maior por conta da conjuntura política específica que os palestinos estão sofrendo. Como você sabe, há alguns meses, Donald Trump decidiu transferir a embaixada dos Estados Unidos de Tel Aviv para Jerusalém”, destacou.

O presidente estadunidense pretende inaugurar a embaixada no dia 15 de maio, data em que completam-se 70 anos da criação do Estado de Israel, popularmente conhecida pelos palestinos como “Nakba”, ou catástrofe. “Não é apenas uma agressão política, mas toca nos sentimentos dos palestinos”, afirmou.

Jaradat destaca que os movimentos palestinos estão pedindo que a Organização das Nações Unidas (ONU) se responsabilize pela investigação dos assassinatos do Dia da Terra. No domingo (1), o Conselho de Segurança da ONU tentou debater a ação protagonizada por Israel, mas a representação estadunidense bloqueou o parecer que pedia a investigação dos assassinatos.

Confira a entrevista completa:

O que aconteceu nas manifestações do Dia da Terra deste ano?

Neste ano, os palestinos estabeleceram o que chamam de Comitê de Coordenação Internacional por Uma Maior Marcha de Retorno (Coordination Committee for the Greater Return March), com o objetivo de juntar a luta pela terra com a luta pelo retorno dos refugiados palestinos. Na última sexta-feira (30), em Gaza, centenas de milhares de palestinos, mulheres, jovens, crianças, se juntaram em frente as cercas que limitam o território em um protesto pacífico. Montaram barracas para mostrar que estavam protestando pelo direito de retorno dos refugiados. Mas há uma semana, as Forças Armadas israelenses já vinham se preparando para reprimir com violência essa manifestação. As pessoas fizeram um protesto sem ameaças aos soldados, com suas famílias, bandeiras. Já os israelenses usaram os tanques e drones contra as pessoas, o que levou ao assassinato de 15 palestinos, e nesta segunda-feira (2) outro ferido morreu, então 16 foram mortos. Além disso, foram 1.400 machucados, na sua maioria por incêndios, balas de borracha e gás lacrimogêneo. Mesmo assim, em menor número, os palestinos em Gaza continuam protestando diariamente nas fronteiras, e temos mais pessoas machucadas. Paralelamente, na Cisjordânia tivemos muitas marchas, protestos e ações onde muitos palestinos foram machucados pelos israelenses. No domingo, tivemos uma marcha em Jerusalém Oriental, na universidade Al-Quds, e diversos estudantes foram reprimidos. No próprio dia 30, perto de Ramallah, aconteceu o mesmo.

Diante desse contexto, você acredita que a importância do Dia da Terra se tornou maior?

Como você sabe, a luta palestina é pela terra, porque os israelenses ocuparam a região nos anos 1948, e expulsaram os palestinos de sua terra. Então a terra é o cerne da resistência palestina. É uma oportunidade para os palestinos demonstrarem que ainda estão lutando por sua terra, ainda estão procurando justiça contra as políticas da ocupação israelense para confiscar sua terra.

A importância do Dia da Terra neste ano se tornou maior por conta da conjuntura política específica que os palestinos estão vivendo. Como você sabe, há alguns meses, Donald Trump decidiu transferir a embaixada estadunidense de Tel Aviv para Jerusalém. Ele disse que faria isso no dia 15 de maio, o dia da Nakba [data em que foi criado o Estado de Israel, em 1948], o que não seria apenas uma agressão política, mas toca nos sentimentos dos palestinos. Ele disse que viria para a inauguração da embaixada que ficaria em Jerusalém Oriental, uma área que também é ocupada, uma ocupação considerada ilegal pela Organização das Nações unidas (ONU).

Em segundo lugar, nos últimos tempos muitas decisões ilegais israelenses foram tomadas pelo Knesset [parlamento de Israel], com o objetivo de controlar mais terra na Cisjordânia para considerá-las parte do Estado de Israel, por meio da construção de assentamentos. Eles mataram completamente a solução política dos "dois estados", estabelecida pela ONU em 1967. Ninguém mais pode falar sobre essa possibilidade da criação de um estado palestino. Eles acabaram com essa opção. Então a importância do Dia da Terra neste ano é por conta dessas situações graves que os palestinos vem sofrendo, e por conta das medidas que vem sendo tomadas em ordem de, supostamente, “estabelecer paz”.

Por esse motivo, os palestinos querem mandar sua mensagem para a comunidade internacional e para todas as pessoas, de que ainda estamos lutando pelos nossos direitos.

Qual foi a reação internacional aos assassinatos?

Não sabemos como ficará a situação daqui para frente, principalmente porque os palestinos, a partir de agora, começaram a preparar comitês para organizar manifestações para o dia da Nakba, que está chegando.

Os palestinos estão pedindo para a comunidade internacional investigar o que aconteceu, isso é responsabilidade da ONU. Mas ainda não tivemos nenhuma resposta. A maioria dos governos europeus discordaram e condenaram o que aconteceu afirmando que não se pode enfrentar civis dessa forma. Mas mesmo assim, não chegaram ao ponto de criar um comitê de investigação. Há três dias houve uma tentativa de discutir esse tema no Conselho de Segurança da ONU, mas os EUA pararam a discussão e se retiraram do encontro. Então eles estão acobertando politicamente o que aconteceu.

Já havia acontecido alguma repressão do tipo no Dia da Terra desde 1976?

Todos os anos acontece algum tipo de repressão no Dia da Terra, mas não desse jeito. Geralmente as pessoas vão para a fronteira de Gaza, há machucados. Mas este ano, por conta da situação política, estamos vivendo essa situação incomum, em que os Israelenses e estadunidenses estão buscando soluções para a questão palestina, mas soluções que não contemplam os direitos dos palestinos.

Edição: Camila Salmazio