Luta de Classes

“‘Psicopatiaram’ o Brasil”, diz Maria Rita Kehl sobre onda de ódio

Em entrevistas ao Brasil de Fato, Maria Rita e Christian Dunker comentam prevalência da intolerância na arena política

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

,

Ouça a matéria:

A psicanalista Maria Rita Kehl participa de debate durante o programa de TV Cafe Filosófico / Divulgação / Cafe Filosófico

O ódio é um sentimento comum a todos os indivíduos, e também às multidões que se unem em torno de uma ideia. No entanto, em uma sociedade democrática, há mecanismos para dar vazão ao ódio de forma produtiva, criando um suporte institucional ao diálogo sobre pontos de vista em extremos distintos da luta de classes –prática que, infelizmente, vem se perdendo no Brasil nos últimos anos, abrindo uma porta para o retorno do autoritarismo.

Essa é a análise dos psicanalistas Maria Rita Kehl e Christian Dunker, ouvidos pelo Brasil de Fato para comentar a escalada de intolerância que tem transformado a arena política em terra fértil para conflitos violentos.

“A questão não é odiar, a questão é perceber que não existe nenhuma confiança nas instituições democráticas para que haja um destino político ao seu ódio”, afirma Maria Rita. “Ou seja, se eu odeio, como odeio mesmo, sem problemas de dizer, o presidente Temer, ao mesmo tempo eu não iria, nem sozinha, nem com um grupo de gente, jogar pedra quando ele tá passando. Eu tentaria fazer todas as campanhas do mundo para que ele nunca mais fosse eleito a nada”, conclui.

Maria Rita, que faz a ressalva de que a psicanálise é uma ferramenta para encontrar as causas dos eventos presentes, e não para prever os desdobramentos do momento atual, traça um paralelo com este momento da vida política brasileira com a Alemanha dos anos 1930. “O triste nesta luta de classes é que uma parte da classe média baixa, que tá mal, que tá lutando pra pagar aluguel, coloque suas esperanças numa guinada da extrema direita. Isso aconteceu nos anos 30 na Alemanha. Uma parte dos eleitores do Hitler foi a classe média baixa que sofria com a hiperinflação e que acharam que um salvador da pátria autoritário resolveria o problema”, afirma.

“Então, sem tentar fazer previsões, mas temo que esse desencanto que a população vai sentindo, esse desencanto na própria democracia, possa levar uma parte dos brasileiros a votar por soluções autoritárias, mesmo que não seja especificamente o [deputado federal Jair] Bolsonaro”, lamenta Maria Rita.

Contra a conciliação

Para os psicanalistas ouvidos pelo BdF, esse ódio radicalizado e radicalizador esteve presente no processo de impeachment da ex-presidente Dilma, e também agora no processo de prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“A prisão punitiva de Lula acentua e generaliza a descrença no processo e nas instituições. O espetáculo dantesco de voltas e contravoltas, de casuísmos e de contradições que vem se desenrolando impende que o senso comum forme uma impressão minimamente informada sobre as razões do processo. O problema aqui é que quando o poder torna-se opaco e demasiadamente complexo para as pessoas comuns, a tendência é que cada qual interprete esta opacidade conforme sua própria fantasia”, afirma Dunker.

No imaginário persecutório contra Lula, avalia Dunker, o fato de o ex-presidente ser uma figura de conciliação acaba pesando contra sua pessoa: os radicalizados não querem uma solução de diálogo, mas de força. “Curiosamente, Lula ainda representa um certo consenso, uma certa razão conciliatória, que de fato ele colocou em prática, e que para muitos teria sido a razão última da degradação de seu projeto”, conta.

“Ora, negociar, argumentar, convencer, justificar dá trabalho e envolve dedicação, informação, certa formação política, algum domínio da história e da cultura. Ter uma opinião abrangente, por outro lado, é muito mais fácil. O mesmo sujeito que radicaliza agora se desinteressará pela política quando ela deixar de ser a expressão e o suporte para seu próprio ressentimento social”, conclui o psicanalista.

Apesar da escalada constante da intolerância nos último anos, Dunker é otimista em relação ao arrefecimento desse momento de radicalização no futuro. “Como dizia Kant, se você tem dúvida se o que você diz é ético ou não, experimente pensar como isso ficaria dito para qualquer um. Muito das tolices, preconceitos e agressividades que vemos aparecer na boca de figuras públicas decorrem do fato de que estamos em um estado de exceção. Este estado um dia vai acabar, pois nós adoramos as exceções até que elas batem na nossa porta, por trás, devastando nossa vida e nossa alma”, pondera.



* Com informações de Rute Pina

Edição: Diego Sartorato