Comunicação

Vigília Lula Livre debate 'fake news' nas redes sociais com pesquisadores

Programa Democracia em Rede contou com a visita de alunos de primeiro ano do Curso de Jornalismo da UFPR

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Juventude da Vigília Lula Livre, estudantes de jornalismo e pesquisadores debatem 'fake news' / Foto: Brasil de Fato

Todos os dias, às 14h, a Casa da Democracia transmite o programa Democracia em Rede, que conta com entrevistas e debates sobre variados temas.

Nesta quarta-feira (9), o tema foi “Fake news, pós-verdade e a construção da informação”, com a participação dos Professores Ary Azevedo e Mario Messagi, do Curso de Comunicação da Universidade Federal do Paraná (UFPR). A plateia foi composta especialmente por alunos do Curso que puderem participar do exercício de uma coletiva de imprensa.

Os debatedores responderam perguntas dos jornalistas presentes e dos alunos. Foi consenso, para os professores, que muitas notícias falsas fabricadas pela imprensa comercial no Brasil serviram de base para Ministério Público e para o próprio Juiz Sérgio Moro, como provas das acusações feitas sobre o ex-presidente Lula.

”Há uma parceria sendo consolidada entre a imprensa comercial e o Ministério Publico nos últimos tempos. Decisões jurídicas ainda não averiguadas e comprovadas vem sendo constantemente vazadas para a imprensa. Um jornal publica aquilo que o MP desconfia que seja e depois esta matéria vira justificativa para se abrir inquérito, uma investigação. Mesmo que a denúncia seja inconsistente”, disse Mario Messagi, que além de professor é jornalista e pesquisador.

"Boa parte dos processos que o ex-presidente Lula está respondendo tem origem em matérias publicadas pela imprensa comercial. O caso, sem provas, do triplex começa com uma matéria falsa de 2010 do Jornal O Globo, lida depois de um jeito bastante singular pelo juiz Sérgio Moro durante uma das audiências”, completou.

“É importante destacar que o jornalismo é propriedade das grandes empresas de comunicação. Portanto, tem um objetivo comercial, de poder e de propaganda”, complementou Ary Azevedo, que contribuiu no debate com a visão da publicidade em relação aos fenômenos das Fake News e pós-verdade.

Mas, afinal, o que são fake news?

Fake news (notícias falsas, em inglês), segundo explicações do Professor Mário Messagi, sempre existiram, mas são identificadas como problemas recentemente.

“Em 2016, o dicionário da Universidade de Oxford escolhe “pós-verdade” como palavra do ano. Que é o conteúdo que não necessariamente carrega a verdade, mas é o que consegue mais circulação do que a informação apurada. A rigor o significado de fake news seria a informação deliberadamente falsa, para distinguir de eventuais erros de informação, que acontecem”, explica.

Para Messagi, “hoje podemos dizer que contamos com profissionalização de fake news, gente que se dedica só a isso. E são muitos os episódios políticos que as fake news tornaram-se instrumentos poderosos de convencimento da opinião pública.”

Já para Ary Azevedo, professor e publicitário, acredita que as falsas notícias venham de um habito antigo, as fofocas, os boatos. Ele ainda citou que, atualmente, as pessoas estão cada vez mais acreditando no que elas preferem acreditar e pouco se importam com a veracidade.

Outra parte vem se mostrando cidadão pesquisador, aprendendo a checar, selecionar mídias com credibilidade. “O excesso de informações tendenciosas hoje tem colocado a grande imprensa em descrédito e acredito que somado à educação, formação, é possível disputar estas narrativas com a contra informação”, disse Azevedo.

Mário lembrou que o Facebook  já percebeu que a lógica da adesão é pela via ideológica, pela via das bolhas que vivemos e não pela veracidade dos fatos. “Então o sistema jornalistico tem uma questão atualmente: ele ainda não decidiu se vai por esta lógica da adesão de cliques, ou vai pela produção de notícias apuradas, verdadeiras, que deveria ser a essência do jornalismo.”

Controle da comunicação

Os pesquisadores foram questionados sobre iniciativas dos governos que têm se apropriado das fake news para propor projetos e regulações que promovam censura: “O que é pior: um governo que censure ou milhares de pessoas produzindo informações falsas?”, perguntou um dos participantes do encontro. Os debatedores apostaram no caminho da auto regulamentação.

Messagi disse que os dois lados precisam ser analisados com equilíbrio. “Pessoas podem ser linchadas na rua por causa de fake news, políticos perdem eleições por causa de mentiras. De outro lado governos podem se utilizar deste pretexto para implementar legislações de censura à comunicação. O ideal será ter uma lei que responsabilizasse a posteriori aquele que produziu a fake news. Não se pode proibir circulação de informações. Portanto, toda informação falsa deve ser passível de responsabilização após checagem.”

Para Ary Azevedo, “a auto regulamentação, por exemplo, na publicidade, funciona a passos lentos. Mas ainda é uma possibilidade para o cenário da comunicação”.

Soluções

A aluna Monica, caloura do curso de Jornalismo, perguntou qual é a solução para a construção de informação com credibilidade nos tempos atuais.

“Credibilidade é o negócio dos jornais. Se um jornal perde credibilidade perde seu patrimônio. No Brasil, o desenvolvimento da imprensa está na mão de empresários de comunicação. Vem de uma história da imprensa ligada ao mundo político e nunca se desvincularam deste propósito. Por isso, por exemplo, tantos políticos querem ser donos de rádios e TV“, explicou Messagi. “Então, de fato, é investir na educação da população para fazer este discernimento”.

Ao final, o publicitário Ary Azevedo relembrou a importância das mídias contra hegemônicas que publicizam outras narrativas, independentes do poder econômico. “Não é só educação, é dar e ter acesso a diversas fontes de informação também.”

Edição: Diego Sartorato