ORGANIZAÇÃO

Opinião | O povo organizado e a luta por direitos

"O sentimento de indignação tem despertado movimentos de organização popular"

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Movimentos populares da Região Metropolitana do Recife têm construído o Congresso do Povo / Frente Brasil Popular PE

O golpe de Estado no país tem se aprofundado e pouco a pouco atingido a população da forma bastante cruel. Medidas como o aumento do custo de vida desencadeado pelas medidas neoliberais do governo golpista de Temer, recessão das políticas de assistência social, aumento do desemprego e menor reajuste do salário mínimo desde 1994 tem provocado a reorganização do cotidiano das famílias.

De acordo com o Dieese (2018), uma família com 04 pessoas precisaria receber 3,86 vezes o valor do salário mínimo para conseguir assegurar condições básicas de sobrevivência. Por outro lado, o que temos acompanhado diariamente são casos de ferimentos pelo uso de carvão ou álcool para cozinhar, devido o alto preço do gás de cozinha. Assim como as mudanças nos hábitos familiares das camadas populares. Frutas, carnes, legumes tem sido praticamente deixadas de lado e grande parte da população tem sobrevivido a partir da repetição de um cardápio fixo que possibilite o consumo de alimentos até o final do mês.

Vivenciamos também o retorno de um maior número de pessoas a se alimentar de restos de comida encontrados nos lixos da cidade, o ressurgimento de doenças provocadas por falta de condições de saneamento básico e higiene assim a vulnerabilidade social da juventude nas periferias.

O sentimento de indignação tem despertado movimentos de organização popular. Nos bairros de Ouro Preto, Sítio Histórico, Rio Doce e Peixinhos, situados em Olinda (PE) a construção do Congresso do Povo tem se dado em torno da retomada da democracia e pela liberdade de Lula, a partir das demandas locais de mobilização. As discussões acontecem em torno dos aspectos como alimentação, moradia digna, educação, saneamento básico, transporte, acesso a bens e serviços, políticas para a juventude e construção de alternativas comunitárias para uma melhor qualidade de vida. A prioridade comum indicada pela população destes bairros foi a reivindicação do direito à saúde.

No bairro de Peixinhos o comitê da Frente Brasil Popular tem sido construído pelas mulheres do Grupo de Saúde Condor e Cabo Gato, surgido em 1986 e por jovens da Associação Cultural Nação Mulambo, criada em 1997. As discussões políticas têm sido uma rica experiência a partir do cruzamento entre as temáticas da saúde e da cultura e o diálogo entre as diferentes faixas etárias. Em junho realizou-se o “Coco da Paz” reivindicando justiça social e o fim do extermínio da juventude negra em que foi homenageada a lutadora Marielle Franco.

O grupo está produzindo uma pesquisa de avaliação dos equipamentos de atenção básica do bairro, a partir de entrevistas realizadas com a população, com intenção de transformar em material de reivindicação da comunidade. Outra iniciativa foi a retomada do grupo de pressão arterial (acontece nas segundas-feiras à tarde) protagonizado pelas mulheres do bairro. Nos próximos meses serão feitos arrastões percussivos nas ruas trazendo as denúncias das condições de vida da população a partir dos resultados alcançados pela pesquisa. Peixinhos tem sido exemplo na criação de alternativas comunitárias frente ao desmonte do Estado brasileiro e de todos os retrocessos a que a nossa população está acometida.

*Tita Carneiro é Militante da Marcha Mundial das Mulheres e da Frente Brasil Popular.

Edição: Monyse Ravenna