PROTAGONISMO

Artigo | Mulher e a mídia nada neutra

Um salve para a precursora Ruth Souza

Belo Horizonte (MG)

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Ruth Souza foi a primeira atriz negra a receber o prêmio Leão de Ouro e a protagonizar uma novela na TV, A cabana do Pai Tomás / Reprodução

Este artigo surgiu de um presente que recebi em novembro de 2009, quando participei de uma mesa de debates, por ocasião do evento Primavera dos Livros”. O tema era representação da mulher negra na televisão, em homenagem à atriz Ruth de Souza. A oportunidade fez-me buscar alguns arquivos pessoais sobre a temática, o que motivou também a minha pesquisa de mestrado.

Ruth de Souza é uma das atrizes negras de maior referência para a classe artística no Brasil, sobretudo a negra. Foi a primeira atriz negra a protagonizar um papel em uma telenovela da Rede Globo de Televisão: “A cabana do Pai Tomaz”, exibida em 1969. A trama foi duramente criticada e polemizada pelo movimento social negro pelo fato de o ator Sérgio Cardoso ter sido maquiado e preparado de várias formas para aproximar-se de um fenótipo de homem negro- a pele foi escurecida, algodão foi colocado em seu nariz para que ficasse dilatado, aproximando-o do perfil de um suposto homem negro, além de outros recursos plásticos. A crítica dedicou-se a apontar a distorção desnecessária, pois muitos atores negros poderiam ter sido aproveitados para o papel. Podemos citar, à guisa de exemplo, os atores Milton Gonçalves e Antonio Pitanga.

Mas vamos voltar à Ruth. Ela representou inúmeros papéis no cinema, na televisão e no teatro, com um talento reconhecido a tal ponto que, por uma diferença de apenas dois votos, não foi escolhida como melhor atriz no Festival de Cinema de Veneza de 1953, por sua atuação no filme “Sinhá Moça”. A atriz estreou nos palcos em 1945 com o Teatro Experimental do Negro (TEM), projeto criado em 1944, que englobou o trabalho pela cidadania do ator, por meio da conscientização e alfabetização do elenco. Os participantes eram recrutados entre operários, empregadas domésticas, favelados sem profissão definida e modestos funcionários públicos. O TEN procurou estimular a criação de novos textos, que servissem aos seus propósitos. Sua diretriz foi a temática ligada à situação do negro.

O conjunto dos debates estabelecidos naquela edição da Primavera dos Livros, que versaram sobre a baixa representação de negras e negros na mídia, me impulsionou a ler o livro “ Não somos racistas – uma reação aos que querem nos transformar numa nação bicolor”,  (2006) do  diretor de jornalismo da Rede Globo Ali Kamel. A tese central é de que vivemos em um país sem grandes embates raciais e que a ausência de oferta educacional de qualidade é a responsável pela situação de pobreza que assola negros e negras no Brasil. Defende ainda, o autor, que a política de cotas pode levar a uma separação entre cores que nunca existiu e que essa política pode instigar o ódio racial.

A obra é apresentada pela antropóloga Yvonne Maggie, que descreve o diretor de jornalismo como “independente crítico da política brasileira”. Não posso concordar com essa definição de independência, na medida em que afino com o pensamento sobejamente discutido nas últimas décadas que é o distanciamento da concepção positivista da ciência, apontada como neutra e apolítica. A modernidade nos permite localizar a ciência como não neutra, e sim como ação política e ideológica, e, por conseguinte, pelos avanços cada vez maiores nas pesquisas empreendedoras, capaz de novas e melhores oportunidades para os seres humanos.

Sigo a compreensão formulada pelo antropólogo e professor aposentado da Universidade de São Paulo – USP, Kabenguele Munanga, que diz que “o racismo é uma ideologia”. Em suas palavras: “A ideologia só pode ser reproduzida se as próprias vítimas aceitam, a introjetam, naturalizam essa ideologia. Além das próprias vítimas, outros cidadãos também, que discriminam e acham que são superiores aos outros, que têm direito de ocupar os melhores lugares na sociedade. Se não reunir essas duas condições, o racismo não pode ser reproduzido como ideologia, mas toda educação que nós recebemos é para poder reproduzi-la”.

Por essa perspectiva, os discursos assumidos na atualidade não são neutros, mas, sim, permeados de cunho ideológico. Sendo assim, o posicionamento da Rede Globo, nesse caso por meio do seu diretor Kamel, são constitutivas de um enredo estrutural de um sistema racista, patriarcal e opressor.

 No caso da mídia, cumpre o papel de reforçar o esquema de exclusão da participação de negras e negros na representação social. Sendo assim, um salve para a precursora Ruth Souza. Ela, há muito tempo, com a sua competência e talento, conseguiu ultrapassar algumas barreiras midiáticas, que sistematicamente deixam fora de cena atrizes negras de grande potência.



*Rosália Diogo é jornalista e gestora do Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado

Edição: Joana Tavares