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Valdenir Ramos: "Ocupamos a terra e lutamos para sair da humilhação do fazendeiro"

Na Marcha Nacional Lula Livre, assentado maranhense relata sua trajetória de lutas, conquistas e resistência

Brasil de Fato | Brasília (DF)

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“No começo a gente começa sem fé, mas depois a gente passa a acreditar que tem o defensor do trabalhador, que é o MST" / Foto: Leonardo Milano

Foi na delegação do Maranhão, na Marcha Nacional Lula Livre, que conhecemos seu Valdenir Ramos de Oliveira, 55 anos. Interrompendo o momento em que prestava atenção nas orientações dos seus companheiros e companheiras de estado, nos contou sua história. O trabalhador rural passou dez anos de sua vida na expectativa de garantir, por meio da luta pela reforma agrária, seu pedaço de terra. Em 2008, decidiu se juntar ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em uma área, ocupada dois anos antes, de pouco mais de sete mil hectares, na região de João Lisboa, próximo de Imperatriz. 

Assim, encarou as dificuldades de viver em um acampamento. “Ocupamos a terra, lutamos, enfrentamos os pistoleiros e aconteceu”, conta ele, que se sentia muito humilhado quando trabalhava na terra dos outros. “O que faz a gente entrar para um acampamento, correndo o risco do pistoleiro matar a gente, que é o que mais acontece, é conseguir um pedaço de terra para sair dessa humilhação do fazendeiro, que não vê o lado do pobre. E uma coisa que o governo golpista faz é dar muito lugar para esses fazendeiros fazer todo tipo de coisa e não pune nenhum. Morre um trabalhador, uma trabalhadora e por isso fica. O fazendeiro fica aí tranquilo. Não sei porque…”.

Sua relação com o Movimento começou ali e passou de um sentimento de desesperança para a pertença à luta do trabalhador. “No começo a gente começa sem fé, mas depois a gente passa a acreditar que tem o defensor do trabalhador, que é o MST. A bandeira que representa a gente. E a gente vira representante do movimento. E foi isso que me fez uma pessoa apaixonada pelo MST. Quando a pessoa luta pela gente, a gente tem que agradecer”, relata.

Após resistir cinco anos no acampamento a 23 liminares de despejo, o Incra criou o Projeto de Assentamento na área a garantiu o Contrato de Concessão de Uso (CCU) da terra às famílias. Na época, o superintendente do órgão no Maranhão, José Inácio Rodrigues, afirmou que "a criação do assentamento vai resolver grande parte do conflito agrário existente no local". 

Valdenir brinca que passou de sem terra para com terra, mas essa sensação não durou muito tempo. Após anos de investimento, a construção de uma escola, que atende hoje 200 crianças, e outras estruturas do assentamento, um juiz atendeu a uma reivindicação de um suposto “herdeiro” e emitiu uma liminar de despejo para as famílias. Apesar dos risos e brincadeiras ao contar sua história, a angústia e insegurança tomou conta novamente de Valdenir. “O que me deixa triste é que depois de assentado por cinco anos a gente recebe a ordem de despejo”, e questiona, “tem herdeiro de terra da União? Se tem, é o povo”.

Ao ser perguntado o que faltava para efetivar o Projeto de Assentamento, Valdenir, aos risos, diz, “sinceramente… você me faz essa pergunta e eu ia perguntar a mesma coisa. Acho que não faltava mais nada. Sinceramente, a gente fica sem jeito até de falar… Cadê nosso direito? O que acontece com esse juiz que escolhe esses caras que já são tão ricos, que quer tirar um pedacinho de terra de tantas famílias, para dar pra um sozinho… Isso ai não tá certo”. E encerra: “Minha história é essa e quero dizer que a gente vai resistir, de lá nós não sai”.

Edição: Thalles Gomes