Eleições 2018

Temos de tratar da saúde, não cuidar da doença

Candidata a deputada estadual, Alaerte Martins defende SUS e diz que o desafio é a universalização e melhorar qualidade

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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"O desafio é a gente conseguir operacionalizar de fato todos os pilares do SUS" / Joka Madruga

A enfermeira e doutora em Saúde Pública Alaerte Martins fala, em entrevista exclusiva ao BDF, sobre os principais desafios enfrentados na área. Alaerte é candidata a deputada estadual pelo PT (PR). 

Brasil de Fato – A senhora é especialista em saúde. Qual o principal desafio que nós temos nessa área hoje no Brasil

Alaerte Martins – Acredito que, antes do desafio, temos uma grande conquista, o Sistema Único de Saúde, o SUS. O desafio é a gente conseguir de fato operacionalizar todos os pilares do SUS. O primeiro deles é a universalização, garantir o acesso a toda população. Acesso inclusive para a população quilombola, para a população ribeirinha, que mora longe das unidades de saúde, para conseguirem chegar a essas unidades. Ou seja, reduzir ao máximo a distância e, chegando lá, que a pessoa de fato consiga a consulta, o atendimento. Por exemplo, hoje a gente sabe que pessoas levam até 2, 3 anos para fazer uma cirurgia. A gente precisa de fato garantir, antes de mais nada, o acesso. Em segundo lugar, com toda certeza, melhorar a qualidade do atendimento.

BdF - O SUS sofre muitos ataques dos que querem a privatização da saúde e mesmo da população que critica o atendimento. O que pode ser feito para melhorar isso?

Acredito muito na proposta que o país tem de modelo assistencial, a estratégia de saúde da família. De fato, os problemas na saúde do Brasil hoje é que a gente não cuida da saúde, está cuidando da doença. A partir do momento que se consiga implementar, de fato, equipes de saúde da família que atendam à população no seu domicílio, com prevenção, promoção da saúde, você não precisa ficar cuidando da doença. Esse é o nosso problema. E faltam recursos porque o tratamento da doença é muito caro. 

BdF - Existem problemas na saúde específicos das mulheres? 

Temos vários problemas, que se transformam em programas, em políticas que precisam atender, por exemplo, câncer de útero e câncer de mama. Infelizmente, onde não é bem operacionalizado, há ainda muitas mortes de mulheres por esses problemas. Esse é só um exemplo do que poderia ser evitado. Infelizmente, também acaba de aumentar a mortalidade materna. A gente tem vários problemas na saúde da mulher que precisa resolver. A maioria deles da fase produtiva e reprodutiva. 

BdF - Falamos agora há pouco de óbitos maternos e estamos tendo também, depois de 30 anos, aumento da mortalidade infantil porque isso vem acontecendo nos últimos dois anos?

É mais uma das consequências do golpe. A mortalidade infantil, assim como a mortalidade materna, são indicadores universais de saúde. Para você saber se um governante tá cuidando bem da saúde da população, esses são dois dos primeiros indicadores. A tendência é, com o avanço da ciência, a gente ir reduzindo esses casos. Mesmo que pouco, vinha sempre reduzindo. Voltar a aumentar significa que a política mudou. Quanto maior for esse aumento da mortalidade, representa não só uma maior redução de recursos, como a mudança de gestão. Isso é consequência de você não estar cuidando bem da população. 

BdF - E com essa emenda constitucional que diminuiu recursos para a saúde, a tendência é piorar ainda mais?

Por vinte anos, né? Nem acredito que a população consiga permanecer com isso por vinte anos. É uma coisa absurda de falar. Você acaba de perguntar como subiu a mortalidade infantil nos dois último anos. Pense então em vinte anos. É totalmente inadmissível. Essa emenda pode até durar mais um ano, dois, mas é humanamente impossível você pensar de não ter nenhum aporte de recursos a mais por duas décadas. Com toda certeza precisa ser totalmente revogada de imediato. Se não de imediato, se os movimentos sociais não conseguirem, se com o resultado da eleição de imediato a gente não conseguir, eu penso que toda sociedade deveria se mobilizar para que meados do ano que vem isso fosse revertido. Já aumentou a mortalidade infantil, já aumentou a morte materna, a gente já tem o retorno de caso de tuberculose, de sarampo, enfim daqui a pouco vai ser dizimada toda a população. 

BdF - Como a gente faz com todos os candidatos, quais são suas principais propostas de campanha? 

Olhe já me perguntaram quais são minhas propostas, vou ser franca e dizer que quase não tenho propostas muito específicas para além da pessoa que eu sou. Com toda certeza vou trabalhar, porque tem deputados e vereadores que são pianistas, um vota pelo outro, nem aparecem para votar. Eu sempre trabalhei, tenho compromisso com trabalho. Votar com responsabilidade, pensando na consequência do voto para população. E, por fim, eu acredito que seja essa minha terceira proposta, o conhecimento que eu tenho. Se eu sou doutora em saúde pública, tenho de honrar minimamente esse cuidado com as pessoas. Cuidar da saúde das pessoas, não da doença. 

Mas eu também sou lapeana, sou quilombola, com muito orgulho. E quando eu digo para você que eu vou trabalhar, é trabalhar por essa gente de onde eu vim, essa gente que eu conheço, ou seja, o povo pobre. Eu sou a primeira da minha família a ter me formado e olha que eu tenho 5, 6 irmãos mais velhos. Fui a primeira a me formar com quase 30 anos, então meu compromisso é trabalhar para essa gente, esse povo pobre, para que eles tenham acesso às políticas públicas. 

 

 

Edição: Laís Melo