Energia

Plano de demissão voluntária é mais uma etapa de privatização da Eletrobras

Novo plano de desligamento será aberto em outubro; Trabalhadores denunciam desmonte da estatal

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Plano de Demissão Consensual (PDC) será aberto em outubro / Beth Santos/Agência Brasil

Alvo de um intenso processo de privatização no último período, a Eletrobras reabrirá, em outubro, um Plano de Demissão Consensual (PDC). O objetivo é desligar cerca de 2,4 mil funcionários, de acordo com o anúncio de Wilson Pinto Ferreira Júnior, presidente da empresa. 

Das seis distribuidoras que eram controladas pela estatal, quatro já foram leiloadas. A Companhia Energética de Alagoas (Ceal) teve sua venda suspensa após decisão do ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF), que atendeu ação movida pelo governo de Alagoas. A venda da Amazonas Distribuidora de Energia, prevista para o dia 26 de setembro, é a próxima etapa do programa de privatização da empresa. 

Na avaliação de Emanoel Mendes, diretor da Associação dos Empregados da Eletrobras e Diretor do Sindicato dos Eletricitários no Rio de Janeiro, o plano de demissão voluntária é mais uma etapa do processo de privatização da empresa. 

“A estratégia é deixar a Eletrobras e suas subsidiárias, enxuta. Para que o próximo governo possa vender a Eletrobras, essa é a proposta deles”, alerta Emanoel.

“No discurso do Wilson Pinto, a empresa tem uma folha salarial muito alta. Nos últimos anos, a Eletrobras já fez uns três planos de incentivo e ele anunciou esse agora, com a intenção de demitir mais de 2.400 empregados. Acontece que, para eles fazerem isso vai ser difícil. No último, eles tinham o objetivo de demitir cinco mil trabalhadores, não conseguiram demitir nem 2.600. Acho muito difícil que eles consigam fazer um plano de demissão incentivada, que o trabalhador vá aderir”, explica Mendes. Ele complementa que a porcentagem de trabalhadores da estatal com interesse em um plano de demissão voluntária é muito pequena. 

O sindicalista relembra que os processos de geração e transmissão de energia da Eletrobras não foram incluídos no processo de privatização por conta da pressão dos eletricitários. 

Desmonte 

Para Nailor Gatto, coordenador do Coletivo Nacional dos Eletricitários, (CNE) ligados à Federação Nacional dos Urbanitários (FNU), após o impeachment de Dilma Rousseff em 2016, o interesse do governo e da direção da empresa é entregar a estatal para o capital financeiro especulativo.

“Quem vai pagar o preço dessa privatização das distribuidoras do sistema Eletrobras é a população. As regiões mais carentes, do nordeste e do norte todo, serão muito prejudicadas. O consumidor da área rural, as comunidade quilombolas, indígenas e as comunidades ribeirinhas no Amazonas, não vão ter condições de ter energia elétrica”, critica Gatto.

“O impacto será muito violento. As contas estão muito altas, incluindo o gás e o combustível também. Daqui há um tempo, na Amazônia, terá a volta das lamparinas porque o povo não vai ter como pagar".

O coordenador do CNE ressalta que desde o anúncio do programa de privatização da Eletrobras, os eletricitários tem se mobilizado de todas as formas em defesa da estatal. No total, 14 empresas geradoras, transmissoras e distribuidoras, e mais de 23 mil trabalhadores, ameaçados pela privatização. 

No início de junho, os eletricitários brasileiros declararam greve de 72h contra a privatização e pedindo a saída de Wilson Pinto Ferreira Júnior. “Não é uma questão simplesmente de uma mercadoria. É uma questão de segurança nacional, de soberania nacional", frisa Gatto.

Quem vai pagar a conta?

Segundo levantamento do Datafolha, realizado ano passado, sete em cada dez brasileiros se opõem à privatização de estatais. Quase 70% da população também vê mais prejuízos que benefícios na venda de companhias brasileiras para grupos estrangeiros.

São esses dados que Emanoel Mendes retoma para destacar que a população brasileira sabe que será a maior prejudicada com as privatizações dos bens nacionais.  

“A Eletrobras vende uma energia muito barata no mercado. A energia da Eletrobras, hoje, é de R$ 30 MWh no mercado cativo. Se for revender isso no mercado livre, em uma possível privatização, irão vender a R$ 200 MWh. Quem vai pagar essa conta? Quem vai pagar essa diferença de R$ 170? É a sociedade, porque o setor privado quer ganhar. Aliás, quando falam sobre processo de privatização da Eletrobras, falam sobre mudar a regulação. Mudar a regulação é justamente isso: abrir espaço para o capital privado ganhar mais dinheiro, e para isso, ele precisa aumentar a conta de luz”, afirma Mendes. 

Os trabalhadores do setor elétrico reforçam que a Eletrobras controla quase 1/3 da geração de energia elétrica do país, que sempre prestou um bom serviço à população e que continuarão atuando em defesa da soberania do país. 

Edição: Juca Guimarães