EDITORIAL BRASIL DE FATO RS

Gilmar Mendes, quem diria, tem razão

Punhado de famílias que controla os principais meios de comunicação tem tudo a ver com o clima de violência das eleições

Porto Alegre (RS)

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Charge / Santiago

A facada em Jair Bolsonaro deu ao candidato susto, medo e dor. E uma nova narrativa a ser usada num espaço midiático que jamais pensou desfrutar. Do ataque muito se falou. Há um contingente expressivo que jamais deixará de considerá-lo armação. Outro apenas suspeita. Um terceiro está convicto e, em parte, acha que foi obra das esquerdas. Parcela da opinião pública entende que o candidato da ultradireita colheu o que semeou. Outra acredita que não se pode, nunca, culpar a vítima pela agressão sofrida. 

O fato é que o incidente levou a uma reflexão sobre os motivos da violência nas eleições, numa intensidade que se assemelha aos costumes da República Velha - e até nisso regredimos após 2016… Afinal, antes do episódio de Juiz de Fora, tivemos o assassinato de Marielle e Anderson, os tiros contra a caravana de Lula e mais tiros contra o acampamento de Curitiba. Todos sem apresentação de culpados, testemunho de inépcia ou cumplicidade das polícias. No fragor do debate, as opiniões quase se repetiram. Condenou-se o ataque, suspenderam-se as campanhas, pediu-se paz. Mas uma voz foi além desse discurso, a do ministro do STF Gilmar Mendes que atrapalhou a harmonia do coro.

Autoritário, conservador, algoz dos seus adversários e amigo de seus amigos em apuros, o ministro reparou que “os órgãos de mídia são instrumentos que açulam. A mídia não foge à responsabilidade por esse tipo de situação”. Melhor do que isso, só lembrando o papel do Judiciário seletivo e partidarizado na mesma semeadura. Mas aí já seria pedir demais…

O punhado de famílias que controla os principais jornais, revistas, rádios e TVs tem rigorosamente tudo a ver com o clima de conflagração. Sobretudo a partir de 2013, quando apontou o inimigo interno para ser incansavelmente execrado, humilhado e perseguido, o que culminaria no golpe parlamentar de 2016. Como alguém já disse, Bolsonaro é um sintoma apenas. A doença foi inoculada no coração da sociedade bem antes.


Este conteúdo foi originalmente publicado na versão impressa (Edição 5) do Brasil de Fato RS. Confira a edição completa.

Edição: Marcelo Ferreira