ORGANIZAÇÃO

Congresso do Povo percorre o Rio Grande do Sul com sua “pedagogia da escuta”

Iniciativa da Frente Brasil Popular discute caminhos para a soberania popular

Brasil de Fato | Porto Alegre (RS) |
Brigadistas já passaram por Gravataí, Canoas, Passo Fundo e alguns bairros da Capital, como Cruzeiro e Lomba do Pinheiro
Brigadistas já passaram por Gravataí, Canoas, Passo Fundo e alguns bairros da Capital, como Cruzeiro e Lomba do Pinheiro - Fotos: Divulgação MST

O Congresso do Povo, convocado pela Frente Brasil Popular, está percorrendo as cidades do Rio Grande do Sul. “É uma maneira das pessoas organizarem seu próprio congresso, como parte de um processo pedagógico popular. Procuramos descobrir e formar novas lideranças”, explica Eliane Silveira, do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras por Direitos (MTD), um dos grupos que integram a FBP.

Na pauta, a compreensão do atual momento político e o desafio de construir um “Projeto de Brasil”, baseado na soberania nacional, no respeito à democracia e no combate às desigualdades.

“O Congresso do Povo retoma trabalhos de diálogo com as bases populares para debater os problemas locais e apontar suas soluções, em comunidade. E o estágio que nós estamos é a construção do debate”, comenta Eliane.

Educação popular

O diálogo é realizado com base em métodos de escuta, herança dos ensinamentos do educador Paulo Freire.  “Não existe educação popular sem diálogo, sem partirmos da nossa realidade. Esta perspectiva valoriza a experiência de cada pessoa como ponto de partida”, esclarece.

“Isso implica também em um processo muito mais horizontal, que não é essa ideia de que um fala e o outro escuta, mas que todos possamos falar e nos escutar", destaca Paulo Almeida, um dos coordenadores da Brigada do Congresso do Povo.

Realidade local

Objetivo é conversar com a população e promover ações que envolvam os moradores

Os diálogos com as comunidades locais já acontecem em diversas regiões do país. No Estado, estão sendo visitadas as cidades acima de 50 mil habitantes.

Almeida conta que os brigadistas chegam e se estabelecem na comunidade durante duas ou três semanas. Conversam com a população e promovem ações que envolvam os moradores como mutirões, assembleias, além de atividades culturais. “Já passamos por municípios da região metropolitana (Gravataí, Canoas), do Interior (Passo Fundo), além de alguns bairros da Capital, como Cruzeiro e Lomba do Pinheiro. Nesta semana e até as eleições, a Brigada estará em Ijuí e Erechim”, pontua.

O congresso é aberto para ouvir opiniões, inclusive, que possam despertar uma análise mais ampla. A Brigada espalha os convites e os interessados podem aderir a partir de sua associação comunitária ou do movimento social do qual participam. E quem não tem vínculo pode procurar as lideranças de seu bairro.

Almeida comenta que visitando uma ocupação num bairro alagado de Gravataí, em situação muito precária, algo chamou sua atenção. A brigada estimulou a comunidade a reivindicar melhor infraestrutura e convoco uma atividade na subprefeitura. “Os adultos não participaram, mas as crianças e os jovens aderiram à ideia de que é fundamental a mobilização para melhorar suas condições de vida.”

Ele exemplifica com outro episódio na Vila Cruzeiro, em Porto Alegre. Os moradores depositavam o lixo no pátio de uma residência, localizada em área de risco. A brigada fez um mutirão para limpar o local, mas não conseguiu concluir a tarefa. “No dia seguinte, os próprios vizinhos perceberam a importância da coleta e do descarte adequados e se integraram à continuidade do mutirão”, reparou.

“A esquerda tem que chegar na periferia”

Lançado no final de 2017 em Guararema/SP, numa reunião com 350 representantes dos movimentos sociais do país, o Congresso do Povo Brasileiro desenvolve-se em etapas: primeiro os encontros nos bairros, após no município, depois no estado, até à fase nacional. “Nós vamos fazer uma mobilização ampla, com reuniões que acontecerão nos salões paroquiais, nos ginásios e escolas para discutir a situação em que o povo está vivendo e quem são os culpados desse quadro”, anunciou então o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), João Pedro Stédile. 

Além da proposta de debater, construir e aprovar um projeto popular, Stédile citou três desafios para o congresso. O primeiro seria mobilizar os trabalhadores dos bairros e vilas. “A esquerda não está chegando na periferia, só chega o PCC e os evangélicos, que poderiam se tornar evangélicos de esquerda”, comentou. 

O segundo desafio é a necessidade de a esquerda fazer uma autocrítica do seu modo de fazer política. “Nós temos que dizer para os partidos e para os nossos candidatos: ‘não é discurso que faz voto’, advertiu. O terceiro é a formação política. “Nós temos que aproveitar este período para formar militantes. Como é que se forma militante? Com a práxis, com a teoria e a prática. Este é o tempo de nós rejuvenescermos”, acentuou.


Este conteúdo foi originalmente publicado na versão impressa (Edição 5) do Brasil de Fato RS. Confira a edição completa.

Edição: Marcelo Ferreira