ELEIÇÃO

Bolsonaro prejudica democracia ao recusar debate, afirmam cientistas políticos

Nesta sexta-feira (26) seria o debate na Rede Globo, o último do segundo turno das eleições

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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Mesmo com liberação médica, candidato do PSL prefere não debater na televisão / Marcelo Camargo / Agência Brasil

Por uma decisão do candidato da extrema-direita Jair Bolsonaro (PSL), esta é a primeira vez desde o final da ditadura militar em que a população brasileira não poderá assistir a nenhum debate de televisão no segundo turno da campanha para a presidência da República.

Na noite desta sexta-feira (26), seria o último debate do segundo turno, transmitido pela Rede Globo. Embora os médicos tenham liberado Bolsonaro, que sofreu um atentado no início de setembro e passou praticamente toda a campanha fora das ruas, o deputado federal decidir não dialogar com Fernando Haddad (PT). O petista havia se disponibilizao a ir ao encontro de seu oponente para realizar o debate.

Para o cientista político e professor da Universidade Federal Fluiminense (UFF), Marcus Ianoni, a esfera pública e a população são os maiores prejudicados com essa recusa. Mas a atitude de Bolsonaro não encontra correspondência na população. Pesquisa recente do Datafolha mostra que 73% querem o candidato debatendo suas propostas.

“O espaço público democrático fica completamente prejudicado com a recusa de participar dos debates, uma vez que na democracia a discussão e a transparência das ações e das ideias são fundamentais”, analisa o professor da UFF.

Segundo Ianoni, há relação direta entre a recusa de Bolsonaro de participar do debate público e a disseminação de notícias falsas nas redes sociais, que ganham mais força quando o candidato se esquiva de esclarecer suas ideias diante de seu adversário eleitoral.

Para Clarisse Gurgel, professora de ciência política da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), Bolsonaro é o mais beneficiado, já que, segundo ela, o candidato não tem capacidade para elaborar diante de seu adversário e do eleitor seus planos e propostas de governo. A cientista política afirma que uma campanha baseada em memes, polêmicas e notícias falsas só beneficia o presidenciável do PSL.

“Para verificar uma notícia não basta apenas o eleitor recorrer à mídia de massa para comprovar se ‘é fato ou fake’. O eleitor precisa parar para refletir, identificar as contradições do que é falado, do que faz sentido. Mas a forma assumida pelas eleições atuais é de memes, imagens e informações pouco elaboradas”, avalia Clarisse, que aponta ainda para a precarização de trabalhadores nos bastidores da campanha de Bolsonaro.

A professora da Unirio lembra o escândalo da proliferação de notícias falsas pelo aplicativo WhatsApp. Ela faz referência à precarização de trabalhadores da empresa Uber – que tem baixo custo por atuar em ambiente virtual e altíssimo lucro – para analisar a campanha do candidato.

“É uma uberização da opinião pública, em que se flexibiliza a produção de imagens, memes, notícias rápidas e grosseiras, figuras jocosas e coloca uma equipe que junta aquele que produz a notícia com o consumidor da notícia. Bolsonaro criou um esquema estruturado no estilo de uma grande empresa com contratação precária de centenas de grupos produtores dessas informações”, afirma a professora da Unirio.

Discurso na Avenida Paulista reflete ódio às diferenças

A inflamação do eleitorado com discursos de ódio no último domingo (21), em ato na Avenida Paulista, em São Paulo, também é criticada pelo professor da UFF Marcus Ianoni. Na ocasião, os organizadores do evento reproduziram uma fala de Bolsonaro gravada para o evento na qual o candidato afirma que vai “varrer do mapa” quem pensa diferente dele.

“É uma postura plenamente preocupante, mais até que antidemocrática. Ela é uma peculiaridade do autoritarismo dele que tem feitio fascista, neofascista e protofascista por falar virtualmente em partido único, destruição do outro, total incapacidade de convívio com diferentes e por pedir ao seu eleitorado respaldo de massa para essas ações”, analisa Ianoni, comparando o autoritarismo do candidato a outros de extrema-direita que estão crescendo internacionalmente. 

Edição: Mariana Pitasse