Especial

Crime da Samarco | Mulheres enfrentam descaso e falta de renda

Cartões de subsistência e indenizações têm sido entregues pela Renova, em 90% dos casos, aos homens das famílias

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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“A vida lá está uma bagunça. Tem hora que a gente chega e é a mesma sensação do dia depois da lama”, define atingida / Foto: Nilmar Lage

Rosilene Luíza Bento é de Gesteira e trabalha como agente comunitária de saúde em Barra Longa. Ela foi para o local da lama horas depois do rompimento da barragem e ajudou inúmeras pessoas nos seus primeiros cuidados.  “A vida lá está uma bagunça. Tem hora que a gente chega e é a mesma sensação do dia depois da lama”, define.

O número de problemas de saúde estourou, segundo relato de Rosilene, e as mulheres passaram a ficar mais sobrecarregadas. “Aumentou o problema de pele, antes eram quatro casos, hoje são mais de 40. Praticamente todo mundo agora tem problema de vista, com a secura e a poeira da lama. O número de problema psiquiátrico também ficou grave”, conta. 

Uma moradora de Gesteira que já tinha problemas psiquiátricos estava há 26 anos sem surto. A tragédia de 2015 a levou novamente a estado grave. Em 11 de outubro, ela quis atravessar o rio para chegar no outro lado, onde antes ficavam as casas que foram destruídas pela lama. “Levei um psiquiatra para conversar e ela contou que estava indo fazer almoço para a mãe”, diz Rosilene.

Difícil até pra dormir

Em Paracatu de Cima os casos são parecidos. A atingida Maria do Carmo D’Angelo conta que o número de mulheres deprimidas é muito grande. “Essa lama continua nos matando. Inclusive eu estou com depressão muito forte e com síndrome do pânico. Fiquei muitos dias sem dormir por medo da outra barragem se romper”, lamenta.

Renda vai para o marido

Os problemas financeiros também bateram na porta. Thiago Alves, integrante do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), relata que os cartões de subsistência e as indenizações têm sido entregues pela Fundação Renova, em 90% dos casos, aos homens das famílias. São 70% das mulheres cadastradas sem resposta, ou seja, sem o  reconhecimento da Renova.

“A Renova prejudica milhares de mulheres na sua condição econômica dentro de casa, submetendo-as ao mando do marido, que agora controla o cartão e a indenização”, analisa. Mulheres que tinham renda com a pesca ou agricultura passaram a depender do cartão que o marido controla, e maridos que usam o dinheiro para outros fins, deixando esposa e filhos à míngua, descreve Thiago.

O que querem os atingidos?

Há três anos em luta por seus direitos, os atingidos e atingidas pelo crime da Samarco/Vale/BHP desde a foz do Rio Doce ao litoral no Espírito Santos realizam reuniões, encontros, debates, manifestações e assembleias para debater e conquistar soluções para seus problemas. Atingidos contam ao Brasil de Fato MG suas principais reivindicações:

"Sem trabalho estamos todos nós, eu, meu marido e milhares de pessoas depois do crime! Queremos ação da Renova, que a gente tenha onde trabalhar, ganhar o sustento da nossa família, e voltar à vida como era antes da lama”. 

Amelia Beatriz Mendes, atingida do município de Barra Longa

“Já tem gente em Barra Longa que está com exame que mostra a contaminação. Tem que fazer os exames em todo lugar que teve lama e que recebe essa água suja até hoje. A rede de saúde tem que ampliar, porque hoje tem muita gente precisando de assistência e a Renova que deve pagar isso”. 

Patrícia Ambrósio do Val, do município de Periquito

“Que sejam contratadas todas as Assessorias Técnicas na Bacia do Rio Doce para que a gente possa dizer dos nossos próprios problemas. Elas nos ajudam a entender o que passamos e quais as melhores formas de resolver. Não é a Renova que tem que vir aqui e dizer isso, somos nós, e a Assessoria Técnica serve pra isso”.

Valdirene Alves Naduro, atingido do município de Itueta

“Nossas terras têm que ser reconhecidas pela Renova, pra gente receber os cartões, já que não pode pescar. A Renova está enrolando, porque até o CIF [Conselho Interfederativo] reconheceu que isso tudo aqui foi atingido pela lama e eles nem consideram que a gente existe”

João Carlos, da comunidade de Nazaré, no Espírito Santo 

 

 

Edição: Joana Tavares