No meio do caminho tinha um rio

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Expedição "As Margens Plácidas do Ipiranga"
Expedição "As Margens Plácidas do Ipiranga" - Rogério Nunes
Projeto instiga moradores de São Paulo a perceberem a presença de água onde, aparentemente, existe apenas concreto

Você que mora na cidade de São Paulo, acreditaria se alguém dissesse que a menos de 300 metros, mais ou menos uns 10 minutos de caminhada, de qualquer lugar que você esteja, existe um curso d’água?

É o que o projeto Rios e Ruas quer mostrar para as pessoas que moram nessa grande metrópole e não percebem os sinais que esse recurso tão essencial a nossa vida dá a todo momento.

O geógrafo Luiz de Campos Junior é um dos fundadores da iniciativa. Há oito anos, ele e o arquiteto e urbanista José Bueno realizam expedições pela cidade em busca de água. Luiz acredita que todos nós nascemos com uma ligação com a natureza e seus recursos, mas aos poucos, vamos nos desconectando.

“Todo mundo naturalmente já nasce com a habilidade de encontrar água. Acontece que a vida que a gente vive, as questões civilizatórias, o urbanismo, etc, etc, acaba amortecendo todo esse, digamos, conhecimento natural que você tem ou essa habilidade natural que você tem”, diz. 

O geógrafo também diz que essa é a proposta do projeto: apresentar para as pessoas os rios que correm sob as ruas e avenidas da cidade, além de resgatar a conexão perdida.

“O que a gente faz em uma atividade Rios e Ruas é religar essa chavinha. A gente diz que uma pessoa que participa de uma atividade de Rios e Ruas, de uma expedição de Rios e Ruas, ela sai, em uma atividade, ela sai pós-graduada em encontrar água em qualquer lugar. E o mais interessante, essa chavinha liga e ela entra em curto, ela não desliga nunca mais”, conta. 

Você deve estar se perguntando: como é possível encontrar um fluxo de água no caminho que faço todo dia da minha casa até o trabalho, por exemplo? Luiz fala dos sinais que a natureza dá para mostrar que em determinado lugar existe um rio, um riacho ou um córrego. O primeiro deles diz respeito ao relevo do local.

"Todo mundo sabe que a água nasce no alto e vai descendo. Então, tem nascente nos cursos d’água em vários lugares, mas as primeiras nascentes estão no alto e a água sempre desce", aponta. 

Outra indicação está intimamente ligada a sensibilidade do nosso tato. Luiz explica que é possível sentir a diferença de temperatura.“A própria sensação de umidade, de frescor, que a gente pode ter através da pele. Então, estar atento a esses indícios é muito importante”, lembra. 

Ele também fala que, mesmo que o rio esteja enterrado, a água faz barulho quando corre e isso também pode ser percebido nas expedições pela cidade.

Outra dica importante é observar a mata que cresce pelos lugares por onde você passa.“A presença de vegetação mais rica, mesmo que seja nas calçadas, mesmo que seja nos terrenos baldios, a vegetação, ela é mais verde, mais rica, mais exuberante, onde tem presenças de água. O indício de certas espécies, que só se desenvolvem em terrenos encharcados, como as taiobas e os parentes das taiobas”, explica o geógrafo. 

O idealizador do projeto conta que depois de perceber todas esses sinais e encontrar um rio, o público participante das expedições do Rios e Ruas faz o mesmo percurso que a água. “Em geral o que a gente faz é tentar seguir um rio desde a sua nascente até a sua foz, até o próximo rio em que ele deságua. Elas variam entre duas horas, quatro horas e até mais do que isso”.

Apesar de não parecer, a natureza ainda pulsa por baixo das ruas e avenidas da cidade de São Paulo. Luiz explica que a urbanização da capital paulista é recente, cerca de 100 anos atrás. Ele também diz que só não é possível ver os rios ou uma vegetação mais exuberante no nosso dia a dia por causa da ação do homem.

“Todos os dias, a gente está capinando, podando, cimentando. Estamos arrancando as espécies que nascem nos vãos dos viadutos, a prefeitura tem que sempre estar lá tirando, por que se não, a floresta voltava”.

Além das expedições na cidade de São Paulo, o projeto Rios e Ruas também já desenvolveu atividades em outros lugares do Brasil, como Minas Gerais, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Espírito Santo.

Se interessou em fazer uma expedição em busca de um rio escondido? É bem fácil: basta curtir a página do projeto no Facebook e ficar de olho na programação que é totalmente gratuita. 
 

Edição: Guilherme Henrique